O mundo achatado
A incapacidade dos homens bem-intencionados em criarem regras duradouras que assegurem segurança institucional e evolução participativa do sistema democrático, tornou a democracia um alvo cheio de brechas para o neofascismo emergente no século XXI.
O mundo foi achatado em uma tela até ficar em duas dimensões. A atopia e a acronia destes tempos nos inseriu em um mundo, onde o lugar e o tempo não nos envolvem mais, nos achatam. Lembro que, durante algum tempo, se concebeu a ideia de cinema em 3D, isso seria uma evolução e se tentou desenvolver uma televisão, também em 3D, mas ambos, por motivos diferentes, não deram certo. A tecnologia, tanto no caso do cinema, quanto da televisão, não conseguiu se popularizar e, apesar de ter havido uma certa evolução, no caso do cinema, nunca conseguiu superar o uso dos óculos para ajustar a visão e o cérebro à sensação de três dimensões. Poucos filmes em 3D tiveram algum impacto, provavelmente, “O Avatar”, lançado justamente com a nova tecnologia e com grande alarde, foi uma das últimas tentativas fracassadas da ideia. O mundo, por fim, foi confinado e reduzido em suas dimensões, incapacitando às novas gerações a perceberem a profundidade das coisas, justamente a dimensão faltante nas telas 2D.
O resultado destas novas configurações está se mostrando desastroso e pela primeira vez, desde que passou a se acompanhar a evolução das coisas e das pessoas com métodos científicos, uma nova geração regrediu em relação à anterior. A leitura, ao contrário da tela, incita o cérebro a criar imagens do que está lendo, tornando o mesmo livro uma experiência transcendental. O cérebro não escaneia as imagens, ele as cria com recursos próprios e elas, ao invés de serem reduzidas a 2D, conseguem superar as três dimensões da realidade, elevando o espírito à novas dimensões e criações exploratórias. A organização imposta pelo neoliberalismo tornou o tempo um artigo de luxo, não mais disponível, nem opcional, você agora está livre do emprego regrado e com proteções sociais, que incluíam férias, segurança do trabalho, proteção social à saúde, 13° salário, gratificações e aposentadoria, mas abandonado à própria sorte e incapaz de ser o seu próprio patrão, porque a sua renda não é suficiente para isso. É importante ressaltar que as leis de proteção aos trabalhadores foram frutos de uma longa luta na noite interminável da Revolução Industrial, mas não resistirão aos novos tempos sem o apoio e a luta daqueles que só tem o seu trabalho para sobreviver.
A incapacidade dos homens bem-intencionados em criarem regras duradouras que assegurem segurança institucional e evolução participativa do sistema democrático, tornou a democracia um alvo cheio de brechas para o neofascismo emergente no século XXI. Com suas narrativas inescrupulosas, descompromissadas com a verdade dos fatos e disparadas em escala industrial nas redes sociais, os neofascistas conseguiram abrir clareiras e devastar, pouco a pouco, reputações, projetos, proteção social e, principalmente, a sensação de pertencimento a uma classe, a um coletivo, fragmentando assim a classe trabalhadora. A fantasia do empreendedorismo e da prosperidade propagada pelo neopentecostalismo à brasileira, através dos seus coaches (lobos paramentados de pastores) criou, e sustenta até hoje, a fantasia de liberdade e de autonomia achatada em uma tela e sem nenhuma perspectiva de alguma segurança, onde a velhice possa repousar seu cansaço com merecido apoio social e econômico. Nada de colheita depois de tanta semeadura, apenas a Lei do Cão.
O mundo parece ter acordado em um futuro distópico e incompreensível pela maioria, pois premia apenas aqueles que lutam sem regras e sem nenhum escrúpulo. Líderes da mesma cepa se multiplicam pelo mundo a partir da matriz, Donald Trump, que neste momento parece, ao mesmo tempo, imbatível à frente do seu exército e cada vez mais maníaco. Através do poder das Big Oil e das Big Techs, os norte-americanos agora querem capturar, através da força, partes do mundo que, segundo eles, lhes pertence “por direito”. Na carta escrita por Trump ao primeiro-ministro norueguês sobre a sua ambição de ter o controle da Groenlândia, existe um trecho em que ele afirma: “se a Noruega decidiu não lhe conceder o Prêmio Nobel da Paz, já não se sente obrigado a pensar exclusivamente na paz”, mesmo que o governo norueguês não tenha qualquer inferência sobre quem receberá o prêmio. “Quem poderá deter esta sanha alucinadamente prepotente, se os europeus não têm força militar para se opor a isso? Talvez só os próprios norte-americanos consigam, se estiverem unidos por este objetivo, caso contrário a geopolítica que se desenha é a divisão do mundo entre os EUA, a Rússia e a China e salve-se quem souber... Dentro desta “ordem tácita”, eles jamais atacarão um ao outro, mas muitos outros países viverão ameaçados, sempre à mercê das ambições desses três países... Em Davos, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, declarou: "Diante de táticas de intimidação por nações maiores, há uma tendência forte de os países aceitarem para evitar problemas. Acomodar. Evitar confusão. Esperar que a obediência compre segurança. Não vai.” E prosseguiu no mesmo tom: “As potências médias precisam agir juntas, porque se você não está à mesa, você está no cardápio”.
Vinicius Todeschini 21-01-2026


