Se, porém fosse portanto...
E se os pobres deste mundo tivessem consciência da escravidão interminável a que estão submetidos, geração após geração, o mundo seria outro…
A jornalista, Vanessa Bárbara, publicou no The New York Times, um artigo onde afirma que o ex-presidente Bolsonaro tinha como escopo alcançar a marca de 1,4 milhão de infectados com o vírus da Covid-19, a fim de alcançar a “imunidade de rebanho”. Duas testemunhas da CPI da Covid, inclusive, confirmaram terem visto um rascunho no Palácio do Planalto, onde estava escrito que deveria se alterar a bula da hidroxicloroquina para que nela constasse a indicação contra a Covid-19. Dentro dessa perspectiva se explica porque Bolsonaro e seus seguidores divulgavam tanto medicamentos, off label, sem nenhuma comprovação científica de eficácia contra o vírus e, ao mesmo tempo, se opunham a todas as medidas preventivas para evitar a contaminação. Bolsonaro tinha ao seu lado alguns médicos, como o deputado federal pelo Rio Grande do Sul, Osmar Terra, o então presidente do CFM (Conselho Federal de Medicina), Mauro Ribeiro, que defendeu veementemente a autonomia médica para prescrever esses medicamentos. Pedro Batista Júnior, diretor-executivo da Prevent Senior, um plano de saúde responsável por administrar vários hospitais onde muitos pacientes foram tratados com essas medicações, acusado de mentir na CPI e Nise Yamaguchi, que fez parte do Gabinete de Crise da gestão Bolsonaro, defensora radical do uso preventivo da cloroquina.
Era previsível que Bolsonaro tenha feito o que fez, era só ter ouvido e lido as suas declarações e posicionamentos antes de chegar ao Planalto, mas muitos acharam aquilo peculiar e o apelidaram de Bozo, personagem criado nos EUA, em 1946, (Bozo the Clown). Hitler também foi chamado, jocosamente, de ‘cabo boêmio’ pelo marechal Paul Von Hindenburg, mas todos sabem como tudo acabou. Donald Trump exibe o mesmo padrão, porém, só agora o mundo fica perplexo ao ver suas ações. Não deveria! Afinal: por que tendemos a repetir os mesmos erros, décadas após décadas? “The answer my friend/Is blowin’ in the Wind” (Bob Dylan)! Maquiavel alertava que o Estado deveria se aliar aos pobres, porque estes não almejavam chegar ao Poder, mas os ricos sim, porém, por ironia, morreu pobre e sem poder, depois de ter sido preso e torturado. Isso aconteceu 14 anos depois de publicado “O Príncipe”, que se tornou um clássico, mas não lhe rendeu nenhum fruto. Ladislau Dowbor, economista brasileiro, resumiu o problema do capital no Brasil: “O nosso problema é que uma minoria que ganha 500 mil por mês conseguiu convencer os grupos que ganham 50 mil por mês de que o problema do país são as pessoas que ganham mil reais por mês”.
Se os pobres deste mundo tivessem consciência da escravidão interminável, geração após geração, a que estão submetidos, o mundo seria outro... Por que preferem seguir dentro do rebanho, conduzido feito gado até o abatedouro de uma vida de trabalho, onde as poucas compensações servem, apenas, para mitigar as vicissitudes e alimentar a tênue esperança de uma intervenção divina? A identificação de pessoas pobres com Bolsonaro se pode explicar por várias perspectivas, ‘o pobre de direita’ (definição do professor Jessé Silva para este segmento que vota em políticos que lhe prejudicam), remete a criação dos mitos na antiguidade, por isso enxergam salvadores onde há, tão somente, exploradores espertos e sem escrúpulos, que dominam com maestria as técnicas de persuasão das massas. Em “Psicologia das Massas e Análise do Eu” (1921) Freud explica, com os conceitos que ele mesmo criou, como o fenômeno acontece. O rebanho, a massa, cria uma regressão e o ego é absorvido pela alma coletiva e a sua capacidade crítica passa a ser a do grupo A identificação com líder se dá pelo “ideal do eu”, a instância inconsciente que representa os ideais de como se deveria ser. O texto de Freud se baseou no livro “Psicologia das Multidões” e no conceito de ‘alma coletiva’, do escritor francês, Gustave Le Bon, considerado um polímata, aqueles cujos interesses e estudos não ficam restritos a apenas uma área do saber. Le Bom, além disso tudo, participou da Guerra Franco-Prussiana e testemunhou a Comuna de Paris, em 1871.
Sartre dizia que “o inferno são os outros”, na peça, “Entre Quatro Paredes”, porque o julgamento dos outros nos aprisiona e a convivência com eles revela nossas fraquezas. Em Sartre a existência precede a essência, ou seja; não estamos definidos a priori como um objeto cujo fim é único e definitivo. Hoje enfrentamos novos desafios, mas a humanidade parece ter esquecido antigas lições e assim parece estar condenada a repetir os mesmos erros. Quando surge um ditador maligno com um poder bélico imenso, como é o caso de Donald Trump, deter a sua marcha o mais rápido possível é imperativo, porque, mesmo que existam sucessores que, teoricamente, dariam continuidade ao que ele está fazendo a identificação com os seus apoiadores fanáticos seria rompida a partir da derrota da líder, daquele que catalisou todas as energias e sintetizou ‘o ideal de ego’ de cada um dos seus seguidores. Se porém fosse portanto, talvez o óbvio fosse claro para todos, porém, há o entreato entre o porém e o portanto; um hiato, um espaço, uma aporia e este titubear pode fazer toda a diferença entre o sucesso e o fracasso, mas como nos advertiu Rudyard Kipling, ‘o fracasso e o sucesso são dois impostores’...
Vinicius Todeschini 23-01-2026


