Religiões e Perversões - A saga de Epstein
A permissividade e a promiscuidade entre poder e sexo sempre foi um dos pilares do mundo real, o mundo capitalista é amoral e só prega moralidades politicamente, no interesse de acalmar as massas já anestesiadas por pão, circo e religiões.
Jeffrey Epstein se notabilizou por usar o sexo como ferramenta de enriquecimento. Manipulou como poucos os desejos mais lascivos e perversos dos poderosos que, apesar de todo poder que o dinheiro lhes proporciona, precisam manter as aparências para viver a devassidão que os consome. Epstein se aproximou de figuras importantes em sua trajetória, fornecendo uma assessoria altamente sofisticada para potencializar os ganhos dos milionários. Muitos dos seus clientes eram figuras públicas, o que tornava a consumação dos seus desejos mais secretos uma tarefa complexa. No filme de Stanley Kubrick, “De Olhos Bem Fechados”, de 1999 -cujo roteiro é baseado no livro do escritor austríaco, Arthur Schnitzler, “Traumnovelle”, algo como, “História de um Sonho”, em português- o diretor apresenta um mundo de perversões em um universo fechado para a maioria. São sociedades secretas, acessíveis apenas para poucos e, organizadas de tal forma, onde só entram os escolhidos. O mundo dos prazeres ilimitados é um mundo fechado e protegido por pactos e senhas, lá não há promessas de transcendências e paraísos futuros, como nas religiões, só fetiches e o gozo sem fim das perversões. Os personagens da obra, Fridolin (livro) e Dr. Bill Harford (filme), não passam de peixinhos dourados em um mar de tubarões.
A clientela de Epstein incluía Donald Trump, Bill Gates e o ex-príncipe Andrew, irmão do rei da Inglaterra, Charles III, que foi preso nesta quinta-feira, dia 19, mas liberado ao anoitecer, porém a investigação seguirá por conta de informações que apareceram da sua atuação como enviado comercial britânico. O ex-príncipe trocou e-mails sobre interesses financeiros vultuosos com Epstein, o que parece ser mais importante do que os abusos cometidos por Andrew e denunciados por uma das suas vítimas, Virginia Giuffre, mas nunca admitidos por ele. Os arquivos liberados do ‘Caso Epstein’ são imensos e estão desorganizados, dificultando o entendimento mais imediato do caso. Serão necessárias análises e catalogações para que se tornem inteligíveis a todos, o que não interessa aos poderosos, mas dá tempo para eles se safarem ou morrerem antes. Para se ter uma ideia da magnitude deste imbróglio só no último lote, liberado em 30 de janeiro, são mais de 3 milhões de páginas, 180 mil imagens e 2 mil vídeos.
Karl Marx escreveu que a religião é o ópio do povo e é de Sigmund Freud a frase, “o neurótico sonha em ser perverso”. Travado pelo recalcamento, o neurótico vive a sua castração enquanto o perverso a nega e busca, através dos fetiches, viver a ilusão de completude. A desgraça de um perverso poderoso é quando um escândalo traz a público as suas práticas, tornado o esquema organizado para a livre fruição dos seus gozos comprometidos definitivamente. Foi o que aconteceu com Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell, a sua mulher e alcoviteira de plantão. Epstein morreu de forma suspeita na prisão em 2019 e até hoje persistem indícios de que foi estrangulado, porém, é claro, que esses indícios nunca serão devidamente investigados. Em uma mensagem de Epstein para Maxwell, de 2011, ele se refere a Trump como: “cão que não late”. No texto ele escreveu que Trump “passou horas na minha casa com uma das vítimas de tráfico sexual”. O atual presidente dos EUA é o maior beneficiado com a demora na aplicação da Justiça, nesse caso. O insano Donald que não se cansa de estressar o seu país e o mundo com ensaios de guerra, mas se julga injustiçado por não ter ganho o Prêmio Nobel da Paz.
Uma das relações de Epstein que surpreendeu a todos foi a sua amizade com Noam Chomsky. Existe uma série de mensagens trocadas entre o linguista norte-americano e professor do MIT e Epstein, há até referência à visita que Chomsky e Valeria, sua esposa, fizeram a Lula, quando ele estava preso na carceragem da Polícia Federal em Curitiba. Existem conselhos do cientista a Jeffrey para não publicar um artigo de opinião no jornal Washington Post, onde o predador sexual tentaria defender o seu acordo com os promotores que investigavam o seu caso, em 2008. Epstein, por sua vez, intermediou um encontro entre Noam e Steve Bannon, o mago da Extrema-Direita norte-americana e que ajudou na campanha de Bolsonaro em 2018. Bannon enviou uma foto a Epstein do encontro, onde os dois aparecem sorridentes, lado a lado, e um comentário mordaz a respeito de Chomsky: “Brilhante, mas fraco em alguns fatos básicos”. Epstein era um expert das finanças e ajudou o linguista a se safar de uma situação financeira incômoda, entre outras coisas. O mais comprometedor dos documentos encontrados, no entanto, é uma carta de apoio a Epstein atribuída a Chomsky, nela o filósofo escreve que conheceu Jeffrey Epstein há seis anos e termina dizendo, “Tem sido uma experiência muito valiosa para mim”.
A permissividade e a promiscuidade entre poder e sexo sempre foi um dos pilares do mundo real, o mundo capitalista é amoral e só prega moralidades politicamente, no interesse de acalmar as massas já anestesiadas por pão, circo e religiões. O circo não pode parar, o show tem que continuar, a revolução pode esperar, assim com a volta de Cristo, porque o que interessa é que as engrenagens devoradoras de vidas continuem esmagando os sonhos de redenção da humanidade em prol de uma casta privilegiada. O sucesso dos financistas é inversamente proporcional à paz mundial e a fraternidade entre os povos, por isso o fascismo e seus cães de guerra sempre ressurgem e são cada vez mais vorazes.
Vinicius Todeschini 20-02-2026


