Crónicas do Brasil | 30-03-2026 17:03

Um mundo mal-assombrado

Vinicius Todeschini

Os EUA não desaparecerão como império na velocidade desejada pelos povos que anseiam pela paz, mas o seu declínio é nítido e começou pela iniciativa dos próprios neocapitalistas, que decidiram lucrar ainda mais explorando a mão de obra abundante e barata de países como a China, por exemplo. A China, em 1949, era considerada à nação mais pobre da Terra e 30 % da população masculina estava viciada em ópio neste período, no entanto, hoje, a China desperta à inveja do império decadente e muitos jovens dos EUA se perguntam porque não podem ter acesso a coisas como saúde e casa própria como os chineses têm.

Se uma guerra é capaz de resultar em qualquer coisa boa, o preço a pagar por isso sempre é muito alto, mas parece não haver outra saída para desvelar a máscara institucional de países beligerantes. Países que falam em paz e, no entanto, buscam apenas dominação e dinheiro, mentindo com caras e bocas, através dos seus porta-vozes, para sustentar narrativas que, por si só, já nasceram inconsistentes. O mundo está sendo filmado por tantos olhos que é impossível manter uma mentira por muito tempo, seja criada por Inteligência Artificial ou coisa que o valha, porque sempre surgirá outro ponto de vista, filmado e gravado por uma câmara; seja de celular, drone, ou qualquer outro dispositivo deste mundo escópico, que não quer perder uma cena sequer da sua tragicomédia. Precisaríamos viver milhares de anos só para ver tudo que está no Youtube , por exemplo. Estamos, inclusive, prontos para filmar o nosso fim como espécie, só não sabemos ainda para quem passar a versão final do nosso filme...

A maldição do “Grande Satã” agora se volta contra ele e nem seu líder, reprodução perfeita de toda a sua arrogância e prepotência, conseguirá, mesmo mantendo a testa altaneira, evitar à evidência que a face prepotente e sociopática esmaece a cada dia. Quando se luta para vencer no primeiro assalto, sem um número definido de assaltos, existe o risco iminente de se encontrar um adversário com disposição e preparo para ir às últimas consequências. O Irão ataca cirurgicamente o gigante do norte, mas não está sozinho nessa guerra, possui aliados preciosos e dispostos a apressar o crepúsculo do império. Donald Trump, seguindo à risca a cartilha de Roy Cohn, jamais admite qualquer derrota ou qualquer prejuízo às suas ações, mas o seu destempero aparece nas entrelinhas das suas respostas, que se contradizem a todo momento. A derrota no Vietnã ressurge com seus fantasmas esquálidos e cobertos de napalm.

Os norte-americanos emergiram depois da II Guerra Mundial como potência hegemônica e imperial, cresceram sobre às cinzas do império britânico que dava os seus últimos suspiros. Os nazistas estiveram muito perto de afundar à Inglaterra definitivamente, mas, assim como na Rússia, erraram o tempo das coisas, no primeiro caso pararam quando deviam prosseguir e no segundo prosseguiram quando deviam parar. O erro de estratégia dos nazistas foi tão tolo quanto o de Napoleão, em relação à Rússia, de onde se depreende que os homens passam, mas a história se repete em novas versões. Donald Trump é um daqueles sujeitos que nasceram prontos para a vilania, é, em forma e conteúdo, uma atualização dos monstros que já surgiram apenas para criar desgraças e ceifar vidas. São implacáveis e sedentos pelo poder total e não admitem ser contrariados, por isso se cercam de oportunistas, que usam a bajulação para ficar à sua sombra. O problema disso é que eles não são os mais competentes e não possuem nenhuma coragem para discordar do “rei”, mesmo diante do iminente desastre.

Aqui no Brasil a pressão incessante sobre o STF e a PGR resultou em prisão domiciliar para Jair Messias Bolsonaro, o líder do pior fascismo que o Brasil já produziu. Agora o seu filho mais velho, Flávio Bolsonaro, um corrupto contumaz e miliciano de primeira hora, é cabeça de chapa e promete unir às forças reacionárias e conservadoras em uma Frente, o que se constitui em grave ameaça à democracia e à soberania brasileira. O apoio total e incondicional do governo norte-americano, que tem o projeto de se perpetuar no poder, como Bolsonaro pretendia, usará de toda as suas armas para ajudar esta malta chegar ao governo. Se isso acontecer, o desastre para os trabalhadores será inevitável, com perdas dos direitos restantes e a entrega do setor público nas mãos de empresários inescrupulosos e ávidos por matérias primas. A entrega das riquezas brasileiras aos norte-americanos já está claramente delineada e o governador de Goiás e pré-candidato à presidência, Ronaldo Caiado, assinou um acordo com os norte-americanos de concessão de terras críticas (passando por cima do governo federal), que na prática entrega esta riqueza estratégica nas mãos dos capitalistas mais ambiciosos. Caiado e a sua família enriqueceram grilando terras, por isso práticas predatórias fazem parte do seu repertório de coronel do oeste brasileiro.

Os EUA não desaparecerão como império na velocidade desejada pelos povos que anseiam pela paz, mas o seu declínio é nítido e começou pela iniciativa dos próprios neocapitalistas, que decidiram lucrar ainda mais explorando a mão de obra abundante e barata de países como a China, por exemplo. A China, em 1949, era considerada à nação mais pobre da Terra e 30 % da população masculina estava viciada em ópio neste período, no entanto, hoje, a China desperta à inveja do império decadente e muitos jovens dos EUA se perguntam porque não podem ter acesso a coisas, como saúde e casa própria como os chineses têm. O modelo ultraneoliberal implementado pela nova ordem mundial a partir do neoliberalismo dos anos 1980, se desarticulou de toda restrição para à exploração de pessoas e da natureza. À falta de qualquer limite ético, de qualquer halo de humanidade e de qualquer resquício de pudor em relação às suas intenções traz como resultado um mundo que resfolega e titubeia cambaleante, como um boxeador nocauteado em pé que tenta não cair. Eles entrarão para a história como nossos algozes e nós como suas vítimas e, independentemente, do que resta dessa distopia transmitida 24 horas de cada dia, ao vivo e por todos os canais, a marca da desconfiança e desesperança na humanidade permanecerá.

Vinicius Todeschini 27-03-2026

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias

    Edição Semanal