Crónicas do Brasil | 07-04-2026 14:33

O homem fora do armário

Vinicius Todeschini

Eduardo Leite vendeu uma imagem de “garoto prodígio”, um gestor moderno e dinâmico, muito embora as suas ações de governo, tanto à frente da sua cidade natal, Pelotas, quanto do estado do Rio Grande do sul, sempre foram norteadas pelo liberalismo em sua forma mais agressiva, o ultraneoliberalismo. Ele foi implacável com o funcionalismo, ceifou direitos e governou como nunca para poucos.

Se convencionou usar a expressão; "saiu do armário", para alguém que se assume gay, em uma clara alusão à vida anterior desta pessoa, que teria sido muito difícil e limitada em suas liberdades por nunca ter assumido os seus reais desejos, pelo menos explicitamente. Na verdade, há pessoas que nunca tiveram grandes problemas com isso e preferiram sustentar uma imagem de heterossexuais, com casamentos e filhos, a assumirem a sua orientação. O maestro e compositor norte-americano, Leonard Bernstein, muito embora gay, manteve um casamento com a atriz chilena, Felícia Montealegre, com quem teve três filhos. Muitos diziam que ela sempre soube, mesmo antes de casar com ele, mas, como muitas mulheres, aceitou esta situação. Freud afirmou que um bebê é "um perverso polimorfo", ou seja não há uma definição sexual a priori e, também disse, que que os seres humanos têm uma predisposição bissexual inata e a definição por um gênero acontece pelo processo civilizatório de repressão e adaptação do ser, o que corrobora o axioma sartreano de que a existência precede a essência, portanto, a condenação da busca do prazer sem nenhum objetivo e sem fins reprodutivos, condenada por várias religiões, não faz nenhum sentido, além do controle e da manipulação das pessoas.

O Rio Grande do Sul criou uma cultura baseada no machismo e na misoginia, portanto, ser gaúcho se transformou em sinônimo de um varão radicalmente másculo e viril. Há exemplos terríveis na própria música nativista do estado, onde cantaram abertamente versos como estes: "Animal, te para sou lá do rincão/Mulher pra mim é como redomão/Maneador nas patas e pelego na cara", composição de Roberto Ferreira e Mauro Ferreira, cujo próprio título já é pejorativo em relação a mulher; "Morocha". Na política, no entanto, isso funciona de outra forma, atacar alguém o chamando de homossexual, abertamente ou de forma indireta, pode resultar em um tiro pela culatra. A ex-ministra, Marta Suplicy, na disputa com Gilberto Kassab pela prefeitura de São Paulo, apelou para este expediente e sofreu uma grande rejeição, logo ela que era uma espécie de musa dos gays paulistanos. Não a perdoaram, porque a sua campanha perguntava de forma capciosa se Gilberto Kassab era casado ou tinha filhos. Isso foi divulgado maciçamente em propagandas da sua campanha, com outdoors nas avenidas de São Paulo. Kassab pertence àquela casta de políticos conservadores que têm uma vida dupla, mas diferente de outros, nunca se casou. A verdade é que todas as figuras públicas têm vida dupla, porque o que tentam parecer quase nunca corresponde ao que são, portanto, o preconceito contra os homossexuais e bissexuais é só isso mesmo, preconceito.

O governador do Rio Grande do Sul, no entanto, resolveu assumir a sua orientação sexual e se declarou em rede nacional, gay, um gay feliz, segundo ele próprio, desafiando o mainstrean, A sua intenção, obviamente, além do escopo de ganho eleitoral, ele, o eterno candidato à presidência, parece ter sido orientada por um suposto avanço da cultura de aceitação das diferenças e da convivência harmônica entre os diferentes, mas foi um ledo engano e o feitiço se virou contra o feiticeiro, porque ignorou o que realmente está posto em várias camadas da nossa cultura que é, estruturalmente, misógina, homofóbica e discriminatória. Eduardo Leite vendeu uma imagem de “garoto prodígio”, um gestor moderno e dinâmico, muito embora as suas ações de governo, tanto à frente da sua cidade natal, Pelotas, quanto do estado do Rio Grande do sul, sempre foram norteadas pelo liberalismo em sua forma mais agressiva, o ultraneoliberalismo. Ele foi implacável com o funcionalismo, ceifou direitos e governou como nunca para poucos. Se notabilizou pela arrogância e agressividade e sempre com o apoio da Mídia oficial do estado, lideradas pela RBS, para apoiá-lo em suas ações mais impopulares e cruéis.

Leite governou sempre para os empresários e para isso tratou de, praticamente, acabar com o Código Ambiental, uma das maiores conquistas do estado, que antes das mutilações sofridas era referência nacional e internacional em proteção ambiental. O resultado veio com o desastre climático em 2024 que ele, de forma vergonhosa, ainda tentou explorar politicamente em um documentário financiado com dinheiro público, onde posa de herói. Às desastrosas privatizações de empresas públicas: CEEE, Corsan e Sulgás, entregues praticamente de graça nas mãos de empresários, a criação de 58 pedágios, o desinvestimento em Educação e Saúde, a precarização das fundações científicas, estão na enorme lista de desastres e equívocos do seu governo, mas ainda assim ele, de forma recalcitrante, insiste em ser o candidato de uma Direita que o povo rejeita, “a Direita Fofa”. ‘A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória’, como gostam de dizer os kardecistas, se aplica muito bem ao ex-governador. Ele mudou de partido e foi, justamente, para o PSD de Kassab, na tentativa de ser o candidato, mas foi preterido por Ronaldo Caiado (governador de Goiás), o coronel do Cerrado brasileiro. Não deixa de ser uma ironia, logo Kassab, tido por muitos como gay, preferiu escolher como candidato do seu partido à presidência da República, um homem que é a quintessência do machismo, da misoginia e da homofobia.

Vinicius Todeschini 03-04-2026

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