O Oportunista (A Metáfora do Carrapato)
Financiado pelos grandes capitalistas da cidade de Porto Alegre, como o grupo líder do setor da venda de alimentos a varejo que também explora o setor imobiliário, setor agraciado com isenções e liberações pelo prefeito, Melo está se mostrando cada vez mais arrogante e autoritário, desfazendo a cada dia àquela imagem de político conciliador que tentava manter.
No livro “O Perfume”, o escritor alemão, Patrick Süskind, criou “a metáfora do carrapato” para explicar como o Jean-Baptiste Grenoble agia. Ele compara o seu personagem a um carrapato que espera silenciosamente em uma árvore, invisível e inodoro, o momento perfeito de cair sobre a vítima. Em sua existência trágica, Grenoble sobrevive durante anos em uma caverna, mas espera, como um carrapato, o momento, em seu "pouso de espera", de cair sobre a presa. Existem muitas pessoas assim, principalmente na política, que aparecem no momento oportuno de saltar para “o sucesso”, e assim se destacam, não só pelo oportunismo, mas principalmente pelas verdadeiras tragédias que deixam como legado.
Porto Alegre, tristemente, tem um prefeito que se encaixa perfeitamente nesta descrição e a sua trajetória, assim como outras semelhantes, se destaca, não por algum projeto ou alguma antevisão capaz de emular uma adesão geral, mas, justamente, pelo contrário, por ser uma mistura de nada com coisa nenhuma. Melo conseguiu aparecer em um vácuo político deixado pela Esquerda esvaziada em linguagem e identidade e sem um projeto claro de governo que imprimisse uma marca, isso desde os tempos de Tarso Genro, que fez um governo inócuo e sem nenhuma marca. Ele aproveitou, como um carrapato, cada oportunidade que surgia, perambulou pela Esquerda, homenageou Che Guevara, tentou daqui e dali uma chance, mas nada, ninguém lhe dava a importância que pretendia, mesmo que não tivesse nenhum mérito para tê-la, porque sabia, intuitivamente, que não é preciso mérito algum para galgar postos na política atual, basta aproveitar uma oportunidade e criar uma imagem. Pronto, aí está um novo candidato e uma nova fachada para a política de sempre, a do “toma lá, dá cá”, pronto para obter seu espaço.
Nascido em uma pequena cidade de Goiás, Piracanjuba, aos vinte anos veio para Porto Alegre e, ao contrário da maioria dos seus conterrâneos em diáspora, não foi para São Paulo, o que seria o destino mais óbvio. Aqui concorreu a vereador, mas conseguiu atingir apenas à suplência, inicialmente, só alcançado o cargo de vereador pela primeira vez, em 2000. Se tornou presidente da Câmara por duas vezes, demonstrando a sua determinação e, finalmente, concorreu a prefeito, em 2016, contra o neto da Ditadura Militar, o playboy Nelson Marchezan Júnior, filho do ex-presidente da ARENA -partido dos militares e seus sabujos- Nelson Marchezan. Melo nesta época ainda fazia rodeios com a Esquerda e declarava alguma identificação, afirmando que vinha do "velho MDB", partido de oposição à Ditadura de 64. Ele também se dizia, vejam vocês, contrário à privatização de empresas públicas, como o DMAE, Procempa e CARRIS e, inclusive, defendia o Orçamento Participativo. Depois da derrota no pleito de 2016 se elegeu deputado estadual e se aliou a base do governo Leite, votando a favor da privatização da CEEE.
Melo foi vice-prefeito de José Fortunati, 2013 a 2016, um político que saiu do PT, justamente, por ter sido negada a sua candidatura a prefeito. Era praxe na época, dentro do PT, que o vice-prefeito fosse o candidato a prefeito na próxima eleição, mas o partido, liderado por Tarso Genro, barrou esta possibilidade a ele e Fortunati, ressentido, saiu do partido e foi ser candidato a vice na chapa de José Fogaça e herdou a prefeitura quando, Fogaça, tentou o governo estadual. Governou por dois anos e depois se elegeu prefeito, tendo como vice-prefeito “o glorioso Sebastião Melo”. Se aproximava cada vez mais o momento do carrapato. Em 2020, Melo, venceu o pleito e se tornou prefeito e como corolário da sua trajetória teve que enfrentar o desafio do maior desastre natural do estado, à enchente de 2024. Era a sua chance de mostrar que havia alguma coerência da sua prática com seu discurso, por mais insignificante que fosse, mas, evidentemente, não havia absolutamente nenhuma. O Sistema de Proteção contra cheias da cidade era robusto, mas Melo não fez à sua manutenção, porque isso também fazia parte do processo de sucateamento do Serviço Público, que continua em curso, e o desastre foi total e se acontecesse novamente agora, o desastre seria igual, ou muito pior, porque nada foi feito de lá para cá.
Melo não tem nenhuma identificação real com Porto Alegre, além das falas demagógicas de amor à cidade, por isso, destruir seu corpo e a sua alma não lhe afeta, são apenas negócios. O sucateamento do Serviço Público, articulado à ideia de mercantilizar todos os ativos da capital e transformá-la em um amontoado de prédios expõe os seus objetivos. Financiado pelos grandes capitalistas da cidade, como o grupo líder do setor da venda de alimentos a varejo que também explora o setor imobiliário, setor agraciado com isenções e liberações pelo prefeito, Melo está se mostrando cada vez mais arrogante e autoritário, desfazendo a cada dia àquela imagem de político conciliador que tentava manter. A convivência com as elites orgulhosas e prepotentes têm a capacidade de emular este comportamento nos proletários que ascendem ao poder. O projeto Sebastião Melo trará consequências danosas para a nossa cidade. Porto Alegre é muito úmida e o projeto de “Adensamento Urbano”, que inclui o “Fachadismo” acabará de vez com que o que havia de bonito e histórico na cidade e incrementará á insalubridade pela proliferação de fungos, porque cada nesga de terreno será preenchida por novas construções, basta ver no bairro Cidade Baixa, em seu processo de gentrificação, o que fizeram com o velho Olaria, rebatizado de ”Novo Olaria”. É o ultraneoliberalismo e seus testas-de-ferro em ação! Eles enriquecem e desaparecem, mas a cidade...
Vinicius Todeschini 18-04-2026


