Crónicas do Brasil | 06-05-2026 15:21

O Guia dos Desguiados

O Guia dos Desguiados
CRÓNICAS DO BRASIL - OPINIÃO
Lisiane Forte*

E então o mundo digital oferece: comece por aqui. Siga estes cinco passos. Faça este exercício por sete dias. Cure essa ferida. Reprograme sua mente. Ative seu merecimento. Há uma indústria inteira empenhada em fazer a alma parecer um aplicativo desatualizado.

Hoje cedo, antes mesmo de lavar o rosto, cometi esse pequeno pecado moderno: abri o celular.

Há pecados maiores, eu sei. Mas poucos são tão bem aceitos quanto esse de acordar e entregar os olhos ao mercado antes de entregá-los ao dia. A janela estava entreaberta, entrava uma luz ainda tímida, um cheiro de café começava a nascer na casa vizinha, e eu, em vez de escutar o mundo, fui ver o que o mundo tinha decidido vender naquela manhã.

Bastaram três movimentos do dedo.

“Guia para superar a ansiedade.”
“Guia para aumentar sua autoestima.”
“Guia para colocar limites sem culpa.”
“Guia para curar suas feridas emocionais.”
“Guia para desbloquear sua melhor versão.”

Parei um instante. A minha parte menos diplomática, essa criatura que mora em mim com sobrancelhas erguidas e paciência limitada, quase comentou: “Minha filha, se houvesse guia para tudo isso, a humanidade já teria descansado”.

Mas não comentei. Tenho aprendido, com algum esforço, que nem toda irritação precisa virar participação pública.

Continuei olhando. Havia capas bonitas, cores suaves, letras arredondadas, pessoas sorrindo com expressão de quem tinha descoberto, enfim, que a paz também aceita cartão de crédito. Havia também frases muito limpas, tão limpas que pareciam nunca ter tocado numa pessoa viva.

A palavra guia me fisgou.

Não por ser feia. Guia é uma palavra bonita. Tem algo de estrada, de mão estendida, de lanterna discreta. Um guia pode ser necessário quando a cidade é desconhecida, quando a trilha se fecha, quando a noite cai antes da volta. O problema começa quando a palavra se veste de certeza e entra no campo da psicologia com aquela segurança de vendedor que já mediu o sofrimento alheio por metro quadrado.

Na clínica, já vi muita gente chegar procurando um manual. É compreensível. Quem sofre quer uma frase que organize, uma direção, uma pequena placa no meio da confusão. Mas ninguém chega apenas como manual. Chega com o corpo cansado, uma frase interrompida, uma raiva que se disfarça de educação, uma tristeza que pede licença antes de sentar. Chega com medo de parecer exagerada, com vergonha de repetir histórias, com o velho hábito de defender quem a feriu. Chega dizendo “não sei por onde começo”, e quase sempre essa é a frase mais honesta da sessão.

E então o mundo digital oferece: comece por aqui. Siga estes cinco passos. Faça este exercício por sete dias. Cure essa ferida. Reprograme sua mente. Ative seu merecimento.

Há uma indústria inteira empenhada em fazer a alma parecer um aplicativo desatualizado.

Eu não desprezo materiais de orientação. Seria injusto e, além de tudo, pouco inteligente. Um bom texto pode abrir uma janela. Uma pergunta bem feita pode impedir uma recaída antiga. Uma explicação clara pode aliviar a culpa de quem achava que enlouquecia sozinho. Informação tem valor. Palavra também cuida, quando não quer mandar.

Mas há uma diferença enorme entre oferecer uma pista e vender um destino.

A vida emocional não se organiza como gaveta de escritório. Ansiedade não se resolve apenas com respiração bonita em vídeo curto. Autoestima não aparece porque alguém escreveu, em fonte bege, que você precisa se escolher. Limite não nasce de frase pronta. Na hora exata em que a mãe liga, o ex reaparece, o chefe pressiona, o filho adoece, a dívida vence ou a solidão entra pela porta dos fundos, a pessoa descobre que saber a teoria é uma coisa. Sustentar a própria presença diante do outro é outra, bem mais exigente.

E aí mora o engano.

O excesso de guias revela uma fome legítima. As pessoas estão cansadas. Cansadas de sentir, de repetir, de compreender tudo e ainda assim sofrer. Querem direção. Querem chão. Querem alguém que diga: vá por ali. O mercado percebeu essa fome e montou uma barraca de mapas na porta do deserto.

Só esqueceu de avisar que cada deserto muda conforme quem o atravessa.

Na clínica, a gente aprende a desconfiar das receitas rápidas. Não por arrogância técnica, mas por respeito ao humano. Há dores que precisam de nome. Outras precisam de tempo. Algumas precisam de silêncio. Há pessoas que só conseguem dizer a verdade depois de contornar dez vezes a mesma frase. Há quem precise chorar para descobrir que está com raiva. Há quem precise rir, com certo constrangimento, para perceber que passou anos obedecendo a uma ordem que ninguém mais dava.

Como colocar isso num guia?

“Passo 1: perceba que você se abandonou aos poucos.”
“Passo 2: aceite que parte de você ainda ama aquilo que a feriu.”
“Passo 3: tente não odiar sua própria ambivalência.”
“Passo 4: descubra que o corpo entendeu antes da cabeça.”
“Passo 5: descanse, se conseguir, sem transformar o descanso em mais uma tarefa.”

Não venderia bem. Falta promessa. Falta aquele brilho de embalagem que diz: depois disso, você será outra pessoa até sexta-feira.

Talvez por isso eu goste mais de cadernos do que de guias. O guia já vem sabendo. O caderno pergunta. O guia aponta. O caderno espera. O guia tem começo, meio e fim. O caderno aceita rasura, contradição, data errada, página arrancada, frase escrita torta numa segunda-feira difícil.

A vida psíquica, desconfio, parece mais com um caderno usado do que com um manual novo.

Há também uma vaidade escondida na palavra guia. Quem guia ocupa um lugar alto. Vê antes, sabe mais, conduz os outros. Na psicologia, esse lugar exige cuidado. O psicoterapeuta que acredita saber demais sobre o caminho do outro começa a ficar perigoso. Pode até falar bonito, mas passa a escutar pouco. E escutar pouco, nesse ofício, é uma forma educada de violência.

Prefiro pensar a clínica como uma escuta sem palanque. Às vezes estou ao lado. Às vezes fico um pouco atrás. Às vezes digo: repare nisso. Às vezes me calo, porque o silêncio, quando não é abandono, também trabalha. Não carrego a pessoa no colo, não empurro pelas costas, não ofereço atalhos como quem distribui senha em repartição. Tento sustentar um campo onde ela possa perceber como se interrompe, como se protege, como deseja, como foge, como insiste em sobreviver com ferramentas antigas.

E isso, convenhamos, não cabe muito bem num carrossel.

O celular continuava na minha mão. Mais um anúncio apareceu. Guia definitivo para uma vida leve. Ri sozinha. A vida leve, coitada, deve estar exausta de tanto ser prometida. Fechei o aplicativo. O café, agora sim, chamava com uma autoridade mais honesta.

Fui até a cozinha. Havia uma xícara pequena, uma colher esquecida na pia, uma formiga atravessando o azulejo com a concentração de quem não precisa de guia. Lá fora, alguém varria a calçada. O dia começava sem manual, sem garantia, sem aula gratuita no final da legenda.

Pensei que talvez estejamos todos um pouco desguiados. E talvez isso não seja uma tragédia. Há caminhos que só aparecem quando a gente para de procurar uma placa luminosa e começa a reparar no próprio passo.

Bebi o café devagar. Pela primeira vez naquela manhã, não quis aprender nada em cinco etapas. Quis apenas ficar ali, diante da vida sem instrução, com a xícara quente entre as mãos e a estranha sensação de que, por alguns minutos, nenhum guia me fazia falta.


*Lisiane Forte é escritora, psicóloga, gestalt-terapeuta e articuladora cultural em Fortaleza. Sua escrita nasce do encontro entre literatura, corpo, memória, vínculos e experiência humana, com atenção aos desarranjos da vida contemporânea e às formas sutis pelas quais uma existência tenta se dizer.

É autora de Liames, Zonas Abissais, Mariposa Alma Lunar, Aqui e Agora – Viver a Vida de Perto e Escrita Terapêutica – O que as palavras dizem quando você não quer ouvir. Em sua produção, transita pela poesia, pela crônica, pelo ensaio sensível e por textos que aproximam linguagem, subjetividade e presença.

Com 25 anos de trajetória na psicologia, atua também na clínica, em instituições e em projetos que articulam literatura, psicologia e arte. Realiza grupos, palestras, mediações literárias, preparação de textos, crônicas semanais e ações culturais. É diretora administrativa do Instituto Papoco de Ideias, onde participa de iniciativas comunitárias, educativas e culturais voltadas ao acesso à leitura, ao fortalecimento de vínculos e à saúde mental. Sua obra e sua atuação pública sustentam uma escrita autoral, crítica e sensível, feita de escuta, pensamento e vida vista de perto.

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