A educação sentimental do desaparecimento
Outro dia percebi que desaparecer ficou mais fácil do que explicar. Não falo daquele desaparecimento teatral, com mala à porta, carta dobrada sobre a mesa( : ) Falo de outro, mais discreto, quase educado, em que uma pessoa vai se retirando da vida da outra sem fazer ruído. Continua presente em alguns lugares, mas já não habita. Comparece, mas não chega. Sorri, mas não se oferece. Diz frases corretas, dessas que não comprometem ninguém, e deixa no ar uma espécie de adeus sem assinatura.
Li outro dia uma pesquisa dessas que chegam com números frios e, sem pedir licença, acabam dizendo alguma coisa íntima sobre o nosso tempo. Mais de um terço dos entrevistados afirmou ter cortado contato com um amigo ou familiar no último ano. Entre os mais jovens, o número é ainda mais alto: seis em cada dez. O dado que mais me prendeu, porém, foi outro: diante de momentos difíceis numa relação, muita gente prefere se afastar a conversar. A pesquisa foi encomendada pela Talkspace e realizada pela Talker Research com 2 mil adultos nos Estados Unidos.
Fechei a notícia com a impressão de que ela não falava apenas de um país, de uma geração ou de uma moda comportamental com nome em inglês. Falava de uma aprendizagem afetiva às avessas: a arte de sair da vida de alguém sem atravessar o trabalho delicado de escutar.
Outro dia percebi que desaparecer ficou mais fácil do que explicar.
Não falo daquele desaparecimento teatral, com mala à porta, carta dobrada sobre a mesa e alguém olhando pela janela como se o mundo tivesse acabado na esquina. Falo de outro, mais discreto, quase educado, em que uma pessoa vai se retirando da vida da outra sem fazer ruído. Continua presente em alguns lugares, mas já não habita. Comparece, mas não chega. Sorri, mas não se oferece. Diz frases corretas, dessas que não comprometem ninguém, e deixa no ar uma espécie de adeus sem assinatura.
O estranho é que, muitas vezes, não há cena. Não há rompimento, nem confissão, nem sequer uma palavra atravessada. Há apenas uma mudança de clima. Um almoço em que a conversa perde a carne. Uma visita que fica para depois. Um olhar que passa sem pousar. Uma intimidade que, de repente, parece ter esquecido o caminho de casa.
Há quem chame isso de limite.
Às vezes é mesmo.
Há relações das quais a gente precisa sair sem cerimônia. Há convivências que se sustentam na cobrança, no medo de contrariar, na vigilância do gesto alheio. Há pessoas que transformam qualquer conversa em tribunal e qualquer afeto em dívida. Nesses casos, afastar-se pode ser uma forma tardia de respirar. Ninguém é obrigado a permanecer onde se desfaz.
Mas há outro tipo de sumiço, menos honesto. Aquele em que a pessoa não se afasta porque encontrou um limite, mas porque encontrou uma certeza. E certas certezas, quando não passam pelo encontro, viram pequenas tiranias íntimas. A pessoa decide sozinha o que aconteceu, quem feriu, quem deve sair de cena. Fecha o caso dentro de si. Não pergunta. Não escuta. Não suporta a hipótese de que o outro também tenha uma versão, uma ferida, um motivo, uma dificuldade de dizer.
Talvez seja essa uma das formas mais silenciosas de violência afetiva: tomar a própria percepção como sentença.
Na aparência, parece lucidez. Por dentro, é uma recusa do outro como presença. A pessoa não precisa mais conversar porque já absolveu a si mesma e condenou o restante. Vai embora por dentro e deixa o outro diante de uma presença vazia. Não termina, não explica, não reconhece. Apenas reduz o vínculo até que o silêncio pareça natural.
É curioso como nossa época inventou palavras bonitas para gestos duros. A indiferença ganhou vocabulário terapêutico. A covardia aprendeu a falar de paz. A incapacidade de escutar passou a se apresentar como preservação emocional. Todo mundo parece estar se protegendo de alguma coisa. Poucos admitem quando apenas evitam o desconforto de olhar para alguém e dizer, sem enfeite: “vá embora das minhas vistas”.
Talvez porque dizer isso exija um mínimo de cuidado.
E cuidado, hoje, anda confundido com eficiência. Resolver rápido. Cortar logo. Encerrar sem ruído. Sair antes que o outro pergunte. Há uma urbanidade fria nesse modo de partir. Ninguém grita, ninguém bate à porta, ninguém se compromete com a cena. Cada um recolhe seus sinais de presença e segue adiante com a compostura impecável dos que preferem não deixar marcas.
Mas o vínculo deixa.
Mesmo quando não se fala mais nele, alguma coisa permanece. Uma música que perde a inocência. Um restaurante que muda de gosto. Uma cadeira que parece saber demais. Uma frase que já não encontra destinatário. O desaparecimento afetivo tem essa ironia: a pessoa se retira, mas espalha pequenas evidências por tudo.
Desconfio dos términos perfeitos demais. Desconfio dessas saídas tão organizadas que não produzem nem uma pergunta. Onde houve vida, alguma desordem fica. Um afeto não precisa virar guerra para merecer explicação. Também não precisa virar protocolo para parecer maduro.
Talvez a maturidade esteja menos em saber cortar e mais em reconhecer o que se corta.
Chico Buarque escreveu, em outra dor, “talvez num tempo da delicadeza”. Sempre achei que há uma sabedoria inteira nesse verso. Não a delicadeza como enfeite, nem como voz baixa de quem finge não ferir. Mas a delicadeza como tempo. Um tempo em que talvez seja possível se afastar sem apagar a história. Um tempo em que se possa partir antes da crueldade, mas não antes da palavra.
Há silêncios necessários. Há outros que apenas deixam alguém diante de uma porta fechada, tentando entender se bateu forte demais, se chegou tarde, se amou errado, se existiu em excesso.
E isso, convenhamos, é uma forma bastante sofisticada de crueldade.
No fim, talvez a grande educação sentimental do nosso tempo seja esta: aprender a sair sem destruir, ficar sem se trair, afastar-se sem falsificar o que houve. Parece pouco. Mas, num mundo em que tanta gente transforma distância em veredito, talvez conseguir partir com palavras, memória e responsabilidade já seja uma delicadeza rara.
Fontes consultadas: Pesquisa Talkspace/Talker Research, realizada com 2 mil adultos nos Estados Unidos para o Mental Health Awareness Month de 2026; o levantamento informa que 38% dos entrevistados fizeram “no contact” com amigo ou familiar no último ano, índice que chega a 60% entre a geração Z, e que 73% tendem a se afastar em momentos difíceis em vez de conversar para resolver conflitos. Referência musical: “Todo o sentimento”, de Chico Buarque e Cristóvão Bastos, especialmente o verso “talvez num tempo da delicadeza”.
*Lisiane Forte é escritora, psicóloga, gestalt-terapeuta e articuladora cultural em Fortaleza. Sua escrita nasce do encontro entre literatura, corpo, memória, vínculos e experiência humana, com atenção aos desarranjos da vida contemporânea e às formas sutis pelas quais uma existência tenta se dizer.
É autora de Liames, Zonas Abissais, Mariposa Alma Lunar, Aqui e Agora – Viver a Vida de Perto e Escrita Terapêutica – O que as palavras dizem quando você não quer ouvir. Em sua produção, transita pela poesia, pela crônica, pelo ensaio sensível e por textos que aproximam linguagem, subjetividade e presença.
Com 25 anos de trajetória na psicologia, atua também na clínica, em instituições e em projetos que articulam literatura, psicologia e arte. Realiza grupos, palestras, mediações literárias, preparação de textos, crônicas semanais e ações culturais. É diretora administrativa do Instituto Papoco de Ideias, onde participa de iniciativas comunitárias, educativas e culturais voltadas ao acesso à leitura, ao fortalecimento de vínculos e à saúde mental. Sua obra e sua atuação pública sustentam uma escrita autoral, crítica e sensível, feita de escuta, pensamento e vida vista de perto.


