Os mercadores dos últimos dias
Para alguns observadores da geopolítica mundial a Terceira Guerra Mundial já está em curso e, como as anteriores, com características próprias ( : ) A IIIª Guerra Mundial se caracterizará por uma guerra onde não haverá vencedores, cuja única saída para o fim do conflito, que promete durar muito mais que os anteriores, será a derrota definitiva do Poder Imperial dos EUA e a dissolução do Eixo EUA-Israel.
A Rússia é um país intrigante, porque não é facilmente enquadrada como uma nação europeia, nem como asiática, permanece através dos séculos em uma região de fronteira que pode, tanto ser um limbo, como uma ponte. Sergey Karaganov, historiador e cientista político influente em seu país e nos círculos fechados do Poder, escreveu que a formação do povo russo é singular, mistura de um amálgama entre eslavos, turcos, mongóis e fino-úgricos. As ideias de Karaganov podem parecer radicais para mentes mais polidas pelas engrenagens da hipocrisia burguesa vigente, mas são muito consistentes se olharmos para a realidade dos tempos e da formação das civilizações ocidentais e orientais. O mundo está convulsionado e segundo este historiador continuará assim por mais 20 anos até que se assente em uma ‘Nova Ordem Mundial’ capaz de assimilar todo este processo, ora em plena efervescência. Sergey prega o afastamento russo da Europa para assumir o seu protagonismo como superpotência mundial.
O mais recente discurso do rei Charles da Inglaterra, intensamente intoxicado de nostalgia imperialista e permeado por uma russofobia atroz, simplesmente corrobora a posição beligerante de Karaganov em relação à Europa, mas, principalmente, em relação à Inglaterra e à Alemanha, e destrói os argumentos que tentam desmentir a sua avaliação sobre os sentimentos que os europeus, de forma geral, nutrem pelo seu país. Não é à toa que ele, Sergey Karaganov, é diretor do Conselho de Política Externa e de Defesa da Rússia e o seu discurso está alinhado, segundo ele mesmo, com 90% da elite militar e política do seu país. Para eles, a posição de Vladimir Putin é demasiadamente moderada em relação aos europeus e norte-americanos. A Rússia parece estar cansada de ser complacente em relação ao Ocidente e, mais cedo ou mais tarde, Putin terá que se dobrar a esta evidência se quiser permanecer no Poder.
Para alguns observadores da geopolítica mundial a Terceira Guerra Mundial já está em curso e, como as anteriores, com características próprias. A Iª Guerra Mundial foi uma guerra de trincheiras e a IIª pela chamada guerra-relâmpago, onde Hitler se destacou nos primeiros três anos do conflito por esta estratégia, mas, também, se mostrou limitado a ela, sem uma visão de longo prazo, por isso a campanha contra a Rússia foi fatal, porque, mesmo avisado pelo seus generais, assim como Napoleão havia sido pelos seus conselheiros militares, para aguardar, reagrupar e assim se resguardar dos rigores do inverno das estepes, insistiu na mesma estratégia que, até então, estava obtendo grandes vitórias. A IIIª Guerra Mundial se caracterizará por uma guerra onde não haverá vencedores, cuja única saída para o fim do conflito, que promete durar muito mais os anteriores, será a derrota definitiva do Poder Imperial dos EUA e a dissolução do Eixo EUA-Israel, porque, enquanto o pensamento ultraneoliberal e concentrador de renda, criador e mantenedor de plutocracias no mundo inteiro, continuar existindo, haverá mais guerras para vender armas e manter o mundo ocupado demais para pensar, definitivamente, que isso já foi longe demais.
Os EUA se notabilizaram nos últimos 50 anos pelos embargos econômicos a países e só com isso mataram cerca de 38 milhões de pessoas. Esta afirmação baseia-se em um estudo de 2025 publicado na revista científica ‘The Lancet Global Health’. São cerca de 38 milhões de mortes em 152 países, entre 1971 e 2021, 560 mil mortes por dia que atingem, principalmente, às crianças de menos de 5 anos, que perfazem mais da metade dessas mortes, tudo em função dessa política necrófila. O capitalismo não perdoa e, enquanto cria montanhas de lixo com alimentos deteriorados, ao mesmo tempo, reproduz a fome e a miséria em escala industrial. A plutocracia norte-americana cria miséria em seu próprio país porque, ‘os mercadores dos últimos dias’ nunca aprenderão que tempo não é só dinheiro e a vida não é só um negócio, porque tempo não se recupera e a vida é uma só, mas é tarde demais para a geração neoliberal aprender.
A visita de Trump à China expôs o imenso abismo entre os dois modelos de desenvolvimento, um que já entrou em declínio e outro que ainda não chegou ao seu auge e assim mesmo cresce três vezes mais, ao ano, que o dos EUA. A China conseguiu um método próprio de crescimento e controle e não seguiu nenhum dos modelos pré-existentes, nem o capitalismo voraz e neoliberal dos EUA e da Europa Ocidental, nem o socialismo russo ou escandinavo, Desde os anos 60 quando se afastaram da influência mais direta dos russos por divergência políticas, os chineses criaram seus próprios métodos para administrar o seu ‘Capitalismo de Estado’ ou ‘Economia de Mercado Socialista’, na verdade a nomenclatura não tem muita importância nesse caso, porque, fundamentalmente, o Estado controla a Economia e o Partido controla o Estado e assim, seja com estatais ou empresas privadas, chinesas ou estrangeiras, os excessos são controlados de forma que nada escape ao projeto de desenvolvimento criado e mantido a pleno há mais de 40 anos. O maior impasse dessa visita de Trump é Taiwan, porque os EUA insistem em armar este país para desestabilizar à China e, Xi Jinping, já declarou a Trump que isso é inaceitável, porque seria como a China armar Cuba no mesmo nível para ameaçar os norte-americanos. Eis o impasse e a solução para ele parece não existir, porque, mesmo com menos munição, os cowboys seguem atirando.
Vinicius Todeschini 10-05-2026


