A saúde das coisas invisíveis
“A quem posso dizer que estou cansada sem precisar fazer relatório? Em que lugar da semana não preciso ser interessante? Quando foi a última vez que uma pausa não virou culpa? Quem percebe quando minha alegria começa a faltar à mesa?” Mais uma crónica da psicóloga Lisiane Forte que fala “sobre o corpo e a vida que não cabe no exame”.
Ela chegou alguns minutos antes.
Percebi porque eu também havia chegado antes. Não por virtude, devo confessar. Apenas calculei mal o trânsito, essa entidade que às vezes nos pune e às vezes nos concede uma sobra de tempo.
Ela cumprimentou a recepcionista pelo nome. Sinal de que já estivera ali outras vezes ou de que pertencia a esse grupo raro de pessoas que ainda repara em quem as atende. Sentou-se perto da janela. A bolsa ficou ao lado, bem acomodada na cadeira vizinha, com a dignidade de um pequeno animal doméstico.
Trazia exames.
Não os folheou de imediato. Deixou o envelope sobre o colo, preso sob uma das mãos. A outra segurava o celular, que vibrava de vez em quando. Chegou uma mensagem. Ela leu, sorriu quase nada e não respondeu.
Gostei dela por isso.
Há elegâncias que começam no atraso de uma resposta. Às vezes, no canto da boca.
A sala era clara, fresca, cheirava levemente a café e álcool. Uma televisão sem som mostrava uma praia perfeita demais para ser desejável. Um homem falava baixo ao telefone, como se estivesse resolvendo a economia do país. Talvez estivesse apenas falando com o contador. Nunca se sabe. Uma senhora procurava os óculos dentro da bolsa com aquela paciência irritada de quem já conhece o pequeno desaparecimento.
A mulher perto da janela respirou fundo.
Foi uma respiração mais longa. Só isso. Um desses movimentos discretos que fazemos quando precisamos caber de novo no próprio corpo sem transformar a cena em acontecimento.
O médico a chamaria em alguns minutos. Talvez perguntasse do sono, da pressão, da alimentação, dos filhos, dos remédios, das dores sem data precisa. Um bom médico sabe que o exame não entra sozinho no consultório. Entra com a pessoa. E pessoa, como se sabe, vem sempre com anexos.
Ainda assim, há coisas que só aparecem depois.
Às vezes, no elevador. Às vezes, no carro. Às vezes, no banheiro de casa, quando a pessoa tira os brincos, lava o rosto e percebe que passou o dia inteiro sendo razoável.
Ser razoável cansa.
Como cansa.
Não falo dos grandes sofrimentos. Estes, quando chegam, tomam a casa, mudam os móveis de lugar, obrigam a família a falar baixo. Falo de outra espécie de desgaste, mais social, mais bem-educado. O de manter a voz agradável quando se queria apenas silêncio. O de responder com fineza quando a vontade era desaparecer por dez minutos. O de sorrir para a fotografia antes de saber se havia, de fato, alguma alegria disponível.
Ela abriu o envelope.
Olhou uma página. Depois outra. Não pareceu assustada. Também não pareceu aliviada. Dobrou um pouco o papel, como quem tenta domesticar uma notícia antes de entendê-la. Fechou tudo de novo.
Há papéis que dizem muito.
Há outros que apenas autorizam perguntas melhores.
Naquela manhã, ninguém parecia doente. Ao menos não de modo visível. Todos estavam compostos. Sapatos limpos, bolsas boas, cabelos em acordo com o espelho. E digo isso sem ironia. Gosto de gente que se arruma para enfrentar o dia. Existe uma coragem nisso. Há manhãs em que passar um batom, escolher uma camisa ou pentear o cabelo já é uma negociação honesta com a vida.
O problema não está em se arrumar.
O problema é quando a vida passa a exigir que estejamos apresentáveis até para sofrer.
Temos sido muito competentes. E competência, às vezes, é uma palavra perigosa. Competentes para trabalhar, cuidar, responder, aparecer, administrar, envelhecer com método, descansar com culpa moderada, comer com prudência, sorrir com boa luz. Até a paz, ultimamente, parece precisar de senha, reserva e confirmação pelo WhatsApp.
É cansativo ser contemporânea todos os dias.
A mulher ajeitou a pulseira. Não havia nada errado com a pulseira. Talvez por isso o gesto tenha me interessado. A gente mexe no que está ao alcance quando não pode mexer no resto.
Pensei nisso sem grande solenidade. A sala de espera não permitia metafísica excessiva. Alguém perguntava sobre estacionamento. A recepcionista confirmava uma guia. A televisão continuava exibindo aquela praia muda, muito azul, muito inútil, como quase todas as praias dentro de televisores.
A medicina estava ali, com sua competência concreta. Exames, consultas, condutas, prescrições, retornos. Ainda bem. Seria uma frivolidade desprezar aquilo que nos ajuda a continuar. Um resultado pode trazer susto, alívio, providência. Uma consulta pode organizar o medo. Uma frase dita com precisão pode impedir que a imaginação faça seu carnaval particular.
Mas a saúde também tem seus bastidores.
Não os bastidores místicos, vaporosos, cheios de palavras que fazem pose de profundidade. Falo de coisas mais simples e, por isso mesmo, mais difíceis.
A quem posso dizer que estou cansada sem precisar fazer relatório?
Em que lugar da semana não preciso ser interessante?
Quando foi a última vez que uma pausa não virou culpa?
Quem percebe quando minha alegria começa a faltar à mesa?
Talvez eu observasse aquela mulher porque havia nela alguma coisa minha. Não exatamente a roupa, nem a bolsa, nem os exames. Era outra coisa. A forma de estar correta por fora enquanto alguma parte, por dentro, ainda procurava uma cadeira.
Essas perguntas não cabem no envelope. Também não caberiam. Não foram feitas para isso. Pertencem a outra espécie de consulta, menos marcada, menos pontual, menos obediente ao relógio.
Então ela foi chamada.
Levantou-se com rapidez. Pegou o envelope, guardou o celular, ajeitou o cabelo antes de entrar. Esse gesto ficou comigo. Não por vaidade. Vaidade é uma palavra pequena demais para certos movimentos. Aquilo era outra coisa: a breve arrumação que fazemos antes de sermos vistas de perto.
Todas conhecemos esse gesto.
Antes da reunião. Antes da foto. Antes de atender uma chamada de vídeo. Antes de abrir a porta para alguém. Antes de entrar num consultório. Ajeitamos a roupa, a voz, a expressão. Às vezes, se desse, ajeitaríamos também a alma, mas ela é um bicho arredio. Não aceita pente, muito menos agenda.
Ela entrou.
A cadeira ficou vazia por pouco tempo. Logo outra pessoa se sentou ali, também com exames, também com celular, também com essa esperança discreta de sair dali um pouco mais informada sobre si.
A manhã continuou: carros passando, passos no corredor, nomes chamados, portas abrindo e fechando. A vida, educadíssima, fingindo que não nos observa.
Fiquei pensando que talvez a saúde das coisas invisíveis não seja uma ideia bonita. Ideia bonita, sozinha, não aguenta nem um dia inteiro.
Talvez seja apenas isto: sair de uma consulta com os exames em ordem e ainda se perguntar, sem drama, que parte de mim não foi chamada pelo nome.
Porque há uma saúde que se confirma no papel.
E há outra que fica do lado de fora, sentada perto da janela, segurando a bolsa, adiando uma resposta, respirando fundo para não incomodar.
Essa segunda não tem carimbo.
Não tem senha.
Não aparece quando a luz favorece o rosto, quando a foto fica boa, quando a agenda prova que a vida foi bem aproveitada.
Ela aparece em coisas menores.
Na vontade de tomar um café sem testemunhas.
No direito de envelhecer sem pedir desculpas.
Na coragem de não estar pronta desde a primeira hora da manhã.
Na pequena desobediência de deixar o celular vibrar mais uma vez.
A mulher talvez tenha saído com boas notícias. Talvez tenha recebido recomendações. Talvez tenha voltado para o trabalho, almoçado depressa, resolvido alguma urgência, porque sempre há alguma urgência à espera de uma mulher que parece dar conta.
Não sei.
Mas gosto de imaginar que, mais tarde, quando outra mensagem chegou, ela olhou para a tela, reconheceu o chamado do mundo e deixou o aparelho descansar sobre a mesa.
Só por um instante.
O bastante para que ninguém notasse.
O bastante para que alguma coisa nela percebesse.
*Lisiane Forte é escritora, psicóloga, gestalt-terapeuta e articuladora cultural em Fortaleza. Sua escrita nasce do encontro entre literatura, corpo, memória, vínculos e experiência humana, com atenção aos desarranjos da vida contemporânea e às formas sutis pelas quais uma existência tenta se dizer.
É autora de Liames, Zonas Abissais, Mariposa Alma Lunar, Aqui e Agora – Viver a Vida de Perto e Escrita Terapêutica – O que as palavras dizem quando você não quer ouvir. Em sua produção, transita pela poesia, pela crônica, pelo ensaio sensível e por textos que aproximam linguagem, subjetividade e presença.
Com 25 anos de trajetória na psicologia, atua também na clínica, em instituições e em projetos que articulam literatura, psicologia e arte. Realiza grupos, palestras, mediações literárias, preparação de textos, crônicas semanais e ações culturais. É diretora administrativa do Instituto Papoco de Ideias, onde participa de iniciativas comunitárias, educativas e culturais voltadas ao acesso à leitura, ao fortalecimento de vínculos e à saúde mental. Sua obra e sua atuação pública sustentam uma escrita autoral, crítica e sensível, feita de escuta, pensamento e vida vista de perto.


