A palavra fora do tom
Ninguém vive no tom o tempo inteiro. Mesmo os mais seguros, esses que parecem falar em dó maior desde o nascimento, têm seus corredores internos, alguma gaveta emperrada, algum nome que ainda altera a respiração, alguma lembrança que, se tocada, desmonta a postura inteira. A afinação pública raramente chega aos fundos da casa.
Não desafinei apenas nas notas. Desafinei na língua.
A palavra que, em Gal, atravessava o ar com corpo, risco e claridade, na minha boca saía menor, torta, atrasada, procurando caminho. Tentei uma vez, depois outra, e percebi que havia palavras que eu sabia escrever, mas não sabia cantar. Talvez nem dizer.
Foi aí que pensei: nem toda palavra gosta de sair pela boca. Algumas preferem ficar no papel, com essa compostura de quem ainda não foi chamada para a sala. Escritas, parecem obedientes: têm margem, acento, intervalo, alguma dignidade. Mas basta alguém pedir que eu as diga em voz alta para que se revelem indomáveis. A frase que no caderno parecia ter espinha tropeça; a palavra escolhida com tanto cuidado perde a pose, atravessa a garganta de lado e chega ao mundo com um sapato diferente em cada pé.
Talvez por isso eu desconfie das pessoas muito afinadas. Não das que cantam bem, essas merecem respeito. Falo das que falam sem hesitar, das que têm uma opinião pronta antes mesmo de a pergunta terminar, das que atravessam qualquer conversa com a segurança de quem nunca precisou voltar atrás. Há nelas uma música limpa demais, uma espécie de compasso sem poeira, como se tudo tivesse sido ensaiado diante de um espelho muito satisfeito.
Eu, ao contrário, desafino quando digo o que sinto e a palavra sai menor do que o susto; desafino quando tento ser delicada e pareço distante, quando quero ser firme e me escapa uma doçura indevida, quando a raiva chega vestida de frase educada. Desafino, sobretudo, quando tento explicar alguma coisa importante, porque o importante tem essa mania desagradável de não aceitar resumo e de se ofender quando a gente tenta colocá-lo numa frase bem-comportada.
Outro dia, numa conversa dessas que começam sem perigo e, de repente, encontram uma porta fechada dentro da gente, ouvi minha própria voz dizer uma frase correta demais. Enquanto eu falava, percebi que a frase mentia por excesso de civilidade. Não era falsa, o que talvez fosse mais simples; era insuficiente. Parecia uma roupa bem passada sobre um corpo ferido.
A outra pessoa escutou, talvez tenha acreditado. Eu não.
Fiquei com aquela pequena traição na boca. A palavra certa, usada no lugar errado, também desafina. Não há ouvido que acuse, mas alguma coisa no corpo sabe: a mão muda de posição, o olhar procura outro ponto, o silêncio que vem depois da frase fica maior do que a frase.
Há quem pense que escrever seja encontrar a palavra exata. Talvez seja, em certos dias. Em outros, escrever é aceitar que a palavra exata não existe e que o máximo de honestidade possível está em deixar aparecer a falha. Um texto bom, quando é bom mesmo, não afina tudo; conserva um ponto de tremor, uma nota fora do lugar, uma humanidade que escapou da revisão.
A vida também desafina e não costuma pedir desculpas por isso. A gente prepara uma fala adulta e termina chorando no banheiro, ensaia coragem e sai pela tangente, guarda uma resposta brilhante para a hora certa e, quando a hora chega, já está sem voz. Há quem chame isso de fraqueza. Eu prefiro pensar em acústica humana, essa ciência doméstica e imperfeita que nos faz emitir sons diferentes conforme o cômodo interno em que estamos.
Ninguém vive no tom o tempo inteiro. Mesmo os mais seguros, esses que parecem falar em dó maior desde o nascimento, têm seus corredores internos, alguma gaveta emperrada, algum nome que ainda altera a respiração, alguma lembrança que, se tocada, desmonta a postura inteira. A afinação pública raramente chega aos fundos da casa.
Talvez por isso eu goste tanto das vozes um pouco quebradas. Gosto das pessoas que fazem uma pausa antes de responder, das que não transformam tudo em certeza, das que sabem que a palavra, quando encosta no vivido, perde a superfície lisa. Gosto de quem fala e, de repente, procura a janela. Ali, nesse pequeno desvio do olhar, costuma haver mais verdade do que em muitas convicções bem pronunciadas.
Na sala, Gal continuava perfeita, o que é uma crueldade e uma bênção. Eu seguia errando a entrada, perdendo o tempo, chegando depois da palavra. Mas havia alguma alegria nisso: a de perceber que a voz falha também participa da música.
Toda palavra, quando canto, desafino.
Talvez seja por isso que escrevo. Para dar à falha um lugar onde ela não precise pedir desculpas.
*Lisiane Forte é escritora, psicóloga, gestalt-terapeuta e articuladora cultural em Fortaleza. Sua escrita nasce do encontro entre literatura, corpo, memória, vínculos e experiência humana, com atenção aos desarranjos da vida contemporânea e às formas sutis pelas quais uma existência tenta se dizer.
É autora de Liames, Zonas Abissais, Mariposa Alma Lunar, Aqui e Agora – Viver a Vida de Perto e Escrita Terapêutica – O que as palavras dizem quando você não quer ouvir. Em sua produção, transita pela poesia, pela crônica, pelo ensaio sensível e por textos que aproximam linguagem, subjetividade e presença.
Com 25 anos de trajetória na psicologia, atua também na clínica, em instituições e em projetos que articulam literatura, psicologia e arte. Realiza grupos, palestras, mediações literárias, preparação de textos, crônicas semanais e ações culturais. É diretora administrativa do Instituto Papoco de Ideias, onde participa de iniciativas comunitárias, educativas e culturais voltadas ao acesso à leitura, ao fortalecimento de vínculos e à saúde mental. Sua obra e sua atuação pública sustentam uma escrita autoral, crítica e sensível, feita de escuta, pensamento e vida vista de perto.


