Crónicas do Brasil | 29-06-2026 17:00

Saudoso Coreto

Vinicius Todeschini

As elites não gostam das classes populares e justamente na dimensão mais profunda dessas classes é onde nasce e se desenvolve a cultura nacional de cada país, aquela que identifica um povo e uma nação.

Havia um coreto aqui em frente ao Colégio Júlio de Castilhos, o popular “Julinho”, bem no centro da Praça Piratini, bairro Santana, na “mui leal e valorosa" cidade de Porto Alegre. Em algum lugar do passado, nesse mesmo coreto aconteciam muitas apresentações de corais, bandas de sopro, grupos de choro e de samba, enfim, quando a cultura popular que florescia no país estava em ascensão e as divisões sociais ainda não tinham se tornado incontornáveis. Por fim, nos últimos anos, com a decadência da cultura popular e o abandono dos espaços públicos, substituídos pelos espaços virtuais mais estéreis e “mais seguros” o coreto caiu em desuso e acabou se tornado um abrigo para os moradores de rua, também conhecidos por sem-teto, no caso o abrigo se tornou atrativo, justamente porque tinha teto, aliás, os moradores de rua, todos, sem exceção, procuram locais cobertos, sejam marquises ou algo parecido e chegam mesmo a disputá-los, deveriam se chamar moradores sem-paredes, mas por ironia estão emparedados pela miséria absoluta e pela condenação sumária a ela, por uma sociedade sem compaixão.

O coreto, abandonado pela administração pública, se tornou então um símbolo da naturalização da miséria e do abandono, a que chegou para ficar e se espraiar pelas cidades do Brasil e do mundo, com a imposições da doutrina ultraneoliberal, onde é cada um por si e salve-se quem puder. O poder da propaganda venceu a razão e o catecismo ultraneoliberal naturalizou novas formas de crueldade, onde a posse das coisas, dos corpos e das mentes se normatizou. José Ramos Tinhorão era um purista, mas foi o maior crítico da apropriação da cultura popular pelas classes dominantes, assim aconteceu no Brasil com o samba, que após sincretizar-se com o jazz se tornou internacional como bossa-nova e o rhythm blues, nos EUA que virou rock and roll e ganhou o mundo. O compositor Nelson Sargento, magistralmente, conseguiu sintetizar esta apropriação; “Samba, inocente pé-no-chão/A fidalguia do salão/Te abraçou, te envolveu//Mudaram todo a sua estrutura/Te impuseram outra cultura/E você não percebeu”. Como se percebe, quando se trata de dominação as elites não têm qualquer tipo de preconceito.

As elites não gostam das classes populares e justamente na dimensão mais profunda dessas classes é onde nasce e se desenvolve a cultura nacional de cada país, aquela que identifica um povo e uma nação. Porém, depois de todo trabalho feito através de muitas gerações, cristalizado e reconhecido pelo mundo e percebendo o grande potencial dessa criação, feita pelo mesmo povo que desprezam, as elites se apropriam desse legado e o manipulam, estética e comercialmente, ‘que no es lo mismo, pero es igual’. No entanto, entre os criadores dessa arte roubada pelos mercadores, existem distinções na relação que são impostas a eles. Antigamente muitos sambistas vendiam seus sambas a intérpretes famosos, como Francisco Alves, conhecido popularmente como Chico Viola, e Mário Reis, como o caso da samba “Divina Dama”, gravada por Francisco Alves, que era de Cartola. Os sambistas respeitavam Francisco Alves, que estacionava o seu carro ao pé do morro e subia a pé para bater nas casas dos sambistas e ouvir os sambas em primeira mão. Eles percebiam nisso uma oportunidade para a sua arte e para a sua sobrevivência e achavam uma permuta justa, dentro das condições estruturais daquela época.

Adoniran Barbosa sempre tangenciou com a pobreza e apesar do sucesso nacional de alguns dos seus sambas morreu pobre e o produtor Fernando Faro teve que pagar o seu enterro. Ele eternizou a vida sofrida dos moradores de rua que se abrigavam em alguma casa abandonada, na obra prima “Saudosa Maloca”. Usando a linguagem popular nua e crua, porém criativa, quase uma linguagem cifrada, ainda assim inteligível, Adoniran, sem querer ou não, mostrou o quanto o povo é rico em sua miséria. Nestas circunstâncias, ser criativo é muito mais que não morrer de fome ou de frio, é uma questão de sobrevivência existencial, porque o corpo segue errante pela noite sem fim atrás de uma réstia de luz, mas guiado pela alma. E assim os versos do ‘Seu Adoniran’ eternizaram os nomes do Matogrosso e do Joca, mas principalmente daquele que canta na primeira pessoa estes versos e cujo nome não aparece. “Foi ali seu moço/ Que eu Matogrosso e o Joca/ Construímos nossa maloca/ Mais um dia/ Nóis nem pode alembrar/ Veios os hômi com as ferramentas/ O dono mandou dirrubá”. Aqui aconteceu a mesma coisa, para se livrar daqueles que adotaram o velho e agora saudoso coreto, como abrigo, o prefeito mandou dirrubá.

A origem das coisas boas que o povo de Porto Alegre criou são destruídas hoje em dia como se não passassem de construções cheias de tijolos e tantos outros materiais. Em seu lugar surgem prédios sem nenhuma expressão digna de interesse cultural ou estético, são prédios funcionais a serviço da especulação imobiliária e do enriquecimento das grandes construtoras que financiam o projeto do atual prefeito, Sebastião Melo. A nossa riqueza cultural está sendo demolida dia a dia pelo” Plano Diretor de Adensamento Urbano”, onde o “Fachadismo” tem um papel relevante e acaba por criar uma dolorosa ironia, como no caso do ‘Olaria’, onde deixaram apenas a fachada e demoliram completamente o seu interior, que abrigava um cinema de alta qualidade, uma livraria do mesmo nível, onde vendi vários exemplares do meu primeiro disco gravado, além de vários cafés e restaurantes, ponto cosmopolita da cidade durante décadas e que agora passará se chamar “Novo Olaria”. Neste desconsolo só o humor ácido nos redime.

Vinicius Todeschini 27-06-2026

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