Crónicas do Brasil | 27-07-2026 11:20

A mulher imaginada

lisiane forte
CRÓNICAS DO BRASIL - OPINIÃO

Uma pessoa pode gostar de seda e andar descalça, usar joias e conversar com plantas, ler filosofia e rir alto demais à mesa. Pode chegar cuidadosamente vestida e conservar intimidades com luas, incensos e rebeldias. A sofisticação não exige domesticação, assim como a liberdade não obriga ninguém ao descuido.

Soube que uma mulher, antes de me conhecer, imaginava que eu fosse riponga. Depois me viu e, segundo me contaram, surpreendeu-se com a minha elegância.

Demorei algum tempo pensando na distância entre uma palavra e outra, porque a primeira parecia ter chegado como suspeita, enquanto a segunda assumia a forma discreta de uma absolvição.

Não me incomodou ter sido imaginada riponga. Nunca compreendi por que isso deveria me diminuir. Talvez ela pensasse em roupas largas, pulseiras, plantas, incensos, algum desapego às convenções ou uma relação menos protocolar com a vida. Havia até certa liberdade naquela personagem inventada, embora a palavra, pelo que entendi, não tivesse sido pronunciada como elogio.

O que me intrigou foi a surpresa diante da minha elegância, como se o vestido, o sapato, a maneira de entrar numa sala ou de sustentar uma conversa tivessem corrigido alguma coisa em mim. A mulher que ela imaginara não parecia apenas vestir-se de outro modo; parecia ter cometido um erro que a mulher encontrada, felizmente, viera reparar.

Não conheço quem fez o comentário e seria injusto atribuir-lhe intenções que talvez não tivesse. Pode ter sido uma observação casual, dessas que desaparecem rapidamente da memória de quem as pronuncia, embora permaneçam, por algum motivo, em quem as recebe. Em mim, a frase ficou porque parecia revelar algo maior do que a opinião de uma desconhecida: a facilidade com que inventamos alguém antes de suportarmos o trabalho de conhecê-lo.

A fofoca trabalha com pouca matéria-prima. Um gesto basta, uma roupa basta, uma fotografia basta. O resto ela completa sozinha. Quem fala com entusiasmo torna-se inconveniente; quem se cala passa por arrogante. De uma roupa, deduz-se um caráter; de uma fotografia, uma vida; de uma ausência, uma intenção. Quando a pessoa finalmente chega, encontra um retrato feito às pressas.

Com as mulheres, certos adjetivos carregam ainda uma antiga pedagogia. Não dizem apenas como alguém parece ser, mas insinuam como deveria comportar-se. “Difícil” pode significar apenas que não concordou depressa. “Mandona”, que falou com uma segurança não esperada. “Vulgar”, que seu corpo apareceu além da medida tolerada. “Desleixada”, que deixou de oferecer ao mundo as provas visíveis de que continua sob controle.

Essas palavras também circulam entre mulheres, embora não tenham nascido de alguma crueldade particular delas. Há regras que sobrevivem mesmo depois de esquecermos quem as inventou. Continuam andando por aí como móveis antigos que ninguém sabe quem comprou, mas ninguém ousa jogar fora. Passam de olhar em olhar, disfarçadas de conselho, preocupação, cuidado ou comentário sem importância, até que a vigilância pareça natural e a diminuição do outro se confunda com uma simples opinião.

Talvez aquela mulher também tenha passado boa parte da vida tentando parecer adequada. Talvez tenha aprendido que a elegância funciona como um documento de respeitabilidade e que certas liberdades são mais facilmente perdoadas quando acompanhadas dos sinais corretos.

Ainda assim, uma pergunta permaneceu: por que a riponga e a elegante precisariam ser mulheres diferentes?

Uma pessoa pode gostar de seda e andar descalça, usar joias e conversar com plantas, ler filosofia e rir alto demais à mesa. Pode chegar cuidadosamente vestida e conservar intimidades com luas, incensos e rebeldias. A sofisticação não exige domesticação, assim como a liberdade não obriga ninguém ao descuido.

Não quero convocar a elegante para me defender da riponga, porque aceitar essa defesa seria conservar a hierarquia escondida no comentário, como se uma parte de mim precisasse ser sacrificada para que a outra fosse recebida com aprovação. Prefiro permanecer com ambas e também com aquelas que ainda não foram nomeadas.

Talvez o problema dos rótulos não esteja apenas na injustiça, mas na pequenez. Uma pessoa muda de ideia, contradiz-se, surpreende, acrescenta detalhes, abandona certezas e se torna, com o tempo, até mesmo estrangeira para quem julgava conhecê-la. O adjetivo não envelhece. Continua esperando pela pessoa, como se ela tivesse a obrigação de caber nele.

Por isso circula tão bem quando o outro não está presente. Não há uma voz para interromper, um rosto que se altere, uma lembrança capaz de desorganizar a conclusão. O ausente oferece pouca resistência e, assim, pode ser reduzido com facilidade ao tamanho da conversa.

Antes de me conhecer, aquela mulher imaginou uma riponga. Depois encontrou uma elegante.

Em nenhum dos dois momentos conversou comigo.

Às vezes penso que foi uma pena. Talvez descobríssemos juntas que uma mulher pode gostar de seda e de incenso, de livros e de silêncio, de sapatos bonitos e de andar descalça pela casa.

Talvez descobríssemos, sobretudo, que ninguém cabe inteiro na palavra que os outros escolhem quando ele ainda não chegou.


* Lisiane Forte é escritora, psicóloga, gestalt-terapeuta e articuladora cultural em Fortaleza. Sua escrita nasce do encontro entre literatura, corpo, memória, vínculos e experiência humana, com atenção aos desarranjos da vida contemporânea e às formas sutis pelas quais uma existência tenta se dizer.

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