Crónicas do Brasil | 17-08-2026 14:50

E os mocinhos sempre foram os bandidos

Vinicius Todeschini

Outubro e novembro prometem muitas coisas ao planeta Terra, porque haverá eleições nos EUA e as eleições majoritárias no Brasil, como se sabe, o domínio da América do Sul é o novo projeto dos norte-americanos, capitaneados pelo timoneiro Trump, um narcisista maligno, sociopata e pedófilo que está em um estado de entropia avançada e a deterioração do seu estado físico e mental já é visível para todos.

Sempre acreditamos, porque fomos condicionados a isso, que os mocinhos eram os ocidentais, primeiramente os europeus e, depois, os norte-americanos, os legítimos herdeiros desta mitologia criada com fins objetivos e lucrativos. O colonialismo é um processo de desconstrução da cultura nativa dos povos nativos e a implementação de uma cultura alienígena e tóxica que a tudo consome, assim como uma doença que, depois de tomar o hospedeiro, cria raízes e espalha as suas sementes por todo o território até alcançar a total dominação das terras e das águas. A degradação dos povos conquistados e colonizados se deu na contrapartida da formação e do crescimento de uma cultura híbrida, amalgamada entre os nativos e os europeus pobres que vieram para cá em busca de oportunidades que já não existiam em suas nações. Trouxeram com eles, não só as ferramentas e as tecnologias básicas que conheciam, mas também as suas religiões eivadas de preconceitos e mandamentos, que jamais cumpriram integralmente. Não matar, não roubar, por exemplo, foi, paradoxalmente, o que mais fizeram ao dizimar as populações locais para ocupar as suas terras e possuir as suas riquezas.

O conceito de posse da terra não existia para os povos originários, porque eram povos com uma cosmovisão, onde a posse era apenas a ocupação provisória de um território, até que este lugar estivesse saturado da sua presença e assim seguiam para outro lugar. Poucas culturas foram criadas de forma fixa em um determinado lugar e estas estão marcadas até hoje pelos registros físicos que ainda perduram, como os maias, os astecas e os incas. No Brasil os povos originários se moviam em um grande território, caçavam, pescavam e criavam pequenas roças para a sua subsistência, Claude Lévi-Strauss, em seu livro, “Tristes Trópicos” (1955), disserta observações sobre a sua convivência com os nambiquaras, os guaicurus, os caduveu e os bororos, entre outros povos originários do Brasil. O livro acabou se tornando uma obra seminal e Lévi-Strauss se tornou um dos mais importantes etnólogos da França e do século XX e acabou por ser considerado o pai do estruturalismo etnológico. “As civilizações, que eles foram os primeiros a observar tinham se desenvolvido segundo linhas diferentes das nossas, mas nem por isso deixaram de alcançar toda a plenitude e toda a perfeição compatíveis com a sua natureza” (Lévi-Strauss, 2004, p. 308).

A degradação da vida original foi devastada pelo colonialismo e como se isso não bastasse, as elites colonizadas se tornaram uma mutação do vírus original e assim surgiu o neocolonialismo, perpetuado pelos descendentes de europeus amestiçados com os descendentes dos africanos (que vieram para cá escravizados) e os descendentes das tribos indígenas que aqui viviam, hoje batizados de povos originários. A nova cepa de colonizadores, os neocolonizadores, se multiplicaram e forneceram quadros aos movimentos neofascistas e neonazistas, cuja corrente aglutinadora dessas duas tendências no Brasil é o bolsonarismo. O etnólogo francês ficou decepcionado com a decadência, a destruição e, as perdas que apareciam diante de seus olhos, naquela época, ainda assim, alguns nativos por ele encontrados, em um estado ainda livre do contato com os europeus, emocionavam-no devido à delicadeza de suas interações e a pureza das suas ações na relação com a natureza e seus próprios conflitos. (…) “elas foram fulminadas por esse monstruoso e incompreensível cataclismo que significou, para uma fração da humanidade tão vasta e tão inocente, o desenvolvimento da civilização ocidental” (Lévi-Strauss, 2004, p. 308).

Outubro e novembro prometem muitas coisas ao planeta Terra, porque haverá eleições nos EUA e as eleições majoritárias no Brasil, como se sabe, o domínio da América do Sul é o novo projeto dos norte-americanos, capitaneados pelo timoneiro Trump, um narcisista maligno, sociopata e pedófilo que está em um estado de entropia avançada e a deterioração do seu estado físico e mental já é visível para todos. Os que estão ao seu lado sabem tão bem disso quanto os seus adversários, porém, os que estão ao seu lado dependem do seu arsenal de narrativas e manipulações para manter este governo à frente do seu império decadente. A derrota de Gustavo Petro na Colômbia e a sua substituição pelo lacaio de Trump, Abelardo Espriella foi mais uma grande perda para os latinos, com isso os EUA possuem testas-de-ferro na maioria dos países da América do Sul e até a posse total de um país, como é o caso da Venezuela, completamente dominada e humilhada pelos ianques. O Uruguai e o Brasil passam a ser os últimos bastiões da resistência ao império que, mesmo decadente, aponta todos os seus dentes afiados sobre as veias abertas da América Latina. Esta frase, “As veias abertas da América Latina”, é o título de um livro clássico de Eduardo Galeano, que tive o prazer de conhecer pessoalmente na minha juventude. Ele foi um dos maiores pensadores latinos e que percebeu como ninguém a desgraça que é viver à sombra de um império como os EUA.

Vinicius Todeschini 14-08-2026

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias