Crónicas do Brasil | 18-08-2026 07:19

Uns dias sem deixar rastros públicos

lisiane forte
CRÓNICAS DO BRASIL - OPINIÃO

Como psicóloga e escritora, trabalho com uma palavra antiga que ficou curiosamente moderna: contato. Contato não é exposição. Posso ser vista por milhares de pessoas e não encontrar ninguém. Contato cabe numa conversa que ninguém gravou, num silêncio que não constrangeu, numa discordância que não destruiu o vínculo, numa gargalhada sem câmera apontada.

De vez em quando desapareço das redes sociais.

Não aviso que vou sair. Não publico “vou dar um tempo”. Não deixo mensagem enigmática para provocar curiosidade. Simplesmente paro de aparecer.

Quando volto, acontece quase sempre a mesma coisa. Alguém pergunta:

— Onde você estava?

Vivendo.

Sei que a resposta pode parecer um pouco insolente, mas não é. Ou talvez seja só um pouquinho.

Faço isso há anos. Fico alguns dias fora, às vezes uma semana, às vezes mais. Nesse intervalo, continuo trabalhando, encontrando pessoas, lendo, escrevendo, amando, me aborrecendo, resolvendo problemas. Almoço. Durmo mal. Durmo bem. Rio de coisas idiotas. Converso com gente que amo. Tenho dias interessantes e outros absolutamente esquecíveis.

Só não publico. E nada disso acontece menos. Talvez seja essa a parte que mais me interessa.

Vivemos um tempo em que começamos a produzir provas públicas da própria existência. A viagem precisa da fotografia, o amor precisa da declaração, o almoço precisa do prato visto de cima. A felicidade, coitada, além de dar um trabalho enorme, agora precisa apresentar documentação.

Quem viu? Quem curtiu? Quantos seguidores? Quanto alcance? Quanto engajamento? Nunca me interessou muito.

Quem respondeu? Esse me interessa. Há alguém do outro lado.

Não tenho nada contra as redes. Seria uma implicância um pouco ridícula escrever contra elas justamente dentro de uma. Gosto daqui. Conheci pessoas, ideias, livros e trabalhos que talvez nunca encontrasse sem essa estranha praça pública que carregamos no bolso.

Meu problema começa quando a praça quer entrar em casa. Quando deixamos de usar a lógica da plataforma e a lógica da plataforma começa a nos usar.

Não basta viajar. É preciso mostrar. Não basta ler. É preciso contar os livros. Não basta caminhar. É preciso saber os passos. Não basta dormir. Pela manhã, o relógio nos informa se dormimos direito.

Essa última me diverte particularmente. A pessoa acorda bem, espreguiça-se, abre a janela, sente-se descansada. Então olha para o pulso: o relógio informa que o sono foi ruim.

Pronto. Agora ela está cansada.

Há qualquer coisa de extraordinário numa civilização que conseguiu inventar uma máquina diante da qual o próprio corpo precisa apresentar recurso.

Talvez tenhamos importado para a existência uma lógica que antes pertencia às empresas: desempenho, resultado, crescimento, avaliação, relatório.

E não escapou quase nada. O corpo precisa melhorar, a carreira avançar, a casa estar organizada, a relação evoluir, o sono render, a alimentação ser correta, a sexualidade funcionar. Até o descanso precisa produzir alguma coisa, porque aparentemente já não sabemos desperdiçar uma tarde em paz.

Somos tratados como versões provisórias de nós mesmos aguardando atualização. E eu? Acho isso deprimente.

Como psicóloga e escritora, trabalho com uma palavra antiga que ficou curiosamente moderna: contato.

Contato não é exposição.

Posso ser vista por milhares de pessoas e não encontrar ninguém. Posso estar numa cozinha com uma única pessoa, tomando café, e alguma coisa realmente acontecer entre nós.

Contato cabe numa conversa que ninguém gravou, num silêncio que não constrangeu, numa discordância que não destruiu o vínculo, numa gargalhada sem câmera apontada. Cabe numa tarde da qual não restou fotografia alguma.

E talvez justamente por isso ela tenha sido inteira.

Não tenho nostalgia de um mundo anterior à tecnologia. As pessoas já eram distraídas, solitárias, vaidosas e inconvenientes muito antes do Wi-Fi. Também não pretendo trocar o patrulhamento digital pelo patrulhamento de quem se considera moralmente superior porque deixa o telefone dentro da bolsa.

Cada um cuide do seu aparelho e da sua alma como puder.

Quero apenas conservar uma pequena zona sem auditoria.

Um almoço que não precise virar memória do Instagram. Uma caminhada sem contar passos. Uma alegria que ninguém confirme. Um amor que não precise de testemunhas. Uma tarde que não melhore minha produtividade, minha inteligência emocional nem minha versão futura.

Uma tarde que tenha a falta de ambição de ser apenas uma tarde.

Talvez isso se torne uma pequena insubordinação diante do futuro: fazer alguma coisa que não possa ser convertida em desempenho.

Viver sem imediatamente transformar a vida em evidência.

É também por isso que continuo desaparecendo. Não por desprezo às redes. Talvez seja justamente a maneira que encontrei de continuar gostando delas sem lhes entregar a escritura da casa.

Da próxima vez que eu sumir por uma semana e alguém perguntar onde estava, provavelmente responderei a mesma coisa:

— Vivendo.

E, se pedirem comprovante, infelizmente não terei.

Lisiane Forte


* Lisiane Forte é escritora, psicóloga, gestalt-terapeuta e articuladora cultural em Fortaleza. Sua escrita nasce do encontro entre literatura, corpo, memória, vínculos e experiência humana, com atenção aos desarranjos da vida contemporânea e às formas sutis pelas quais uma existência tenta se dizer.

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