Crónicas do Brasil | 24-08-2026 14:04

É só água

lisiane forte
CRÓNICAS DO BRASIL - OPINIÃO

Nossa cultura gosta muito de sofrimentos produtivos. Quando alguém transforma medo em eficiência, hipervigilância em competência, impossibilidade de descansar em dedicação e necessidade de controle em liderança, talvez receba elogios muito antes de receber ajuda. Enquanto o sofrimento entrega resultados, é fácil confundi-lo com virtude e até incluí-lo entre as qualidades desejáveis de um currículo.

Na cozinha de Carmy, quase tudo parece estar a poucos segundos de dar errado. O fogo sobe, as facas batem contra as tábuas, os pedidos se acumulam, alguém chama por alguém e todos respondem “sim, chef” com a urgência própria dos lugares onde alguns minutos podem separar um jantar impecável de uma pequena catástrofe. Quem assiste a O Urso, série criada por Christopher Storer, percebe logo que o barulho não vem apenas da cozinha.

Carmen Berzatto, o Carmy, interpretado por Jeremy Allen White, é um chef jovem e brilhante que trabalhou em algumas das cozinhas mais exigentes do mundo. Depois do suicídio do irmão mais velho, Michael, ele retorna a Chicago para assumir o pequeno restaurante deixado pela família, o The Original Beef, e encontra dívidas, relações interrompidas, dependência química atravessando a história familiar, promessas quebradas e aquela intimidade difícil que certas famílias conservam mesmo quando já não sabem muito bem o que fazer umas com as outras.

Ao lado de Sydney, Richie, Tina, Marcus, Sugar e dos outros integrantes daquela família improvisada, Carmy tenta transformar a velha lanchonete num restaurante de alta gastronomia chamado The Bear. Derrubam paredes, substituem equipamentos, reorganizam o cardápio, discutem, erram, recomeçam e aprendem a trabalhar juntos. Há reformas que uma marreta resolve; outras continuam de pé depois que todas as paredes caíram.

Foi numa cena sem cozinha que compreendi melhor Carmy.

No terceiro episódio da segunda temporada, ele aparece numa reunião do Al-Anon, grupo de apoio para pessoas afetadas pelo alcoolismo de alguém próximo. Não há panelas no fogo, pedidos acumulados ou pratos esperando finalização. Durante boa parte da cena existe apenas seu rosto e uma tentativa difícil de colocar em palavras aquilo que seu corpo parece saber há muito tempo.

Carmy conta que, na infância, as coisas que lhe davam entusiasmo ou prazer acabavam estragadas. Não acredita necessariamente que sua família fizesse isso de propósito; as pessoas tentavam demais, prometiam coisas que depois não conseguiam cumprir e alguma coisa sempre acontecia. Em determinado momento, admite que precisa lembrar de respirar, de estar presente e de reconhecer que o céu não está caindo, embora sua experiência lhe tenha ensinado justamente a desconfiar dos períodos em que nada cai.

Fiquei pensando nisso depois que o episódio terminou, porque há pessoas para quem uma tarde tranquila não é propriamente tranquila; é apenas o intervalo suspeito entre duas coisas ruins. Não são necessariamente pessimistas, dramáticas ou incapazes de desfrutar a vida. Às vezes, viveram tempo suficiente em ambientes imprevisíveis para que antecipar se tornasse uma maneira inteligente de permanecer a salvo. Aprenderam a perceber a alteração mínima numa voz, a mudança de um olhar, uma porta fechada com força, o atraso de alguém ou aquele silêncio específico que anuncia que alguma coisa no ambiente mudou.

O problema é que o corpo pode continuar fazendo seu antigo trabalho mesmo quando o cenário já não é o mesmo.

Na clínica, essa experiência me interessa mais do que a pressa em perguntar qual diagnóstico caberia a alguém. Trabalho a partir da Gestalt-terapia, uma abordagem humanista e fenomenológico-existencial que procura compreender a pessoa na relação consigo, com os outros e com o mundo que habita. Isso muda a pergunta. Antes de procurar o que estaria “errado” com Carmy, interessa-me compreender como o mundo se apresenta a ele e por que sua maneira de responder a esse mundo fez sentido em algum momento de sua história.

Para Carmy, as coisas boas parecem carregar alguma precariedade. O prazer pode acabar, uma promessa pode falhar e o descanso talvez seja apenas a distração que antecede o próximo problema. Seu passado, portanto, não está guardado numa espécie de arquivo interior que ele consulta quando deseja lembrar. Está presente na respiração, na maneira de trabalhar, na dificuldade de confiar na duração da alegria e naquela atenção exaustiva dedicada ao que ainda nem aconteceu.

Há um conceito da Gestalt-terapia particularmente importante para compreender isso: o ajustamento criativo. Diante das condições que encontra, uma pessoa cria maneiras possíveis de responder, proteger-se e seguir vivendo. Aquilo que hoje parece excessivo pode ter sido, em outro momento, uma solução bastante sofisticada. Perceber tudo, antecipar problemas, manter-se ocupado e não baixar a guarda talvez tenham ajudado Carmy a atravessar um ambiente em que relaxar não parecia inteiramente seguro.

A dificuldade aparece quando a situação muda e a resposta permanece, porque uma solução construída para ontem começa a responder também às perguntas que o presente nunca fez.

Carmy encontrou uma resposta admirável para seu mundo: tornou-se excelente. Aprendeu a antecipar, controlar, aperfeiçoar, perceber o detalhe que ninguém percebeu e chegar ao erro alguns segundos antes que ele acontecesse. E é justamente aí que O Urso deixa de falar apenas de um chef atormentado e começa a ficar desconfortavelmente familiar.

Nossa cultura gosta muito de sofrimentos produtivos. Quando alguém transforma medo em eficiência, hipervigilância em competência, impossibilidade de descansar em dedicação e necessidade de controle em liderança, talvez receba elogios muito antes de receber ajuda. Enquanto o sofrimento entrega resultados, é fácil confundi-lo com virtude e até incluí-lo entre as qualidades desejáveis de um currículo.

Às vezes chamamos de alta performance aquilo que é apenas medo muito bem treinado.

Também por isso o “aqui e agora”, expressão tão associada à Gestalt-terapia, merece ser compreendido com algum cuidado. Não significa esquecer o passado, ignorar o futuro ou obrigar alguém a viver serenamente no presente. O passado comparece agora na maneira como sentimos, percebemos e nos relacionamos, assim como o futuro comparece nas expectativas, nos receios e nas antecipações que fazemos. Estar presente significa ampliar a percepção da experiência atual para que possamos, entre outras coisas, distinguir aquilo que efetivamente está acontecendo daquilo que aprendemos a esperar.

Dizer a Carmy que o céu não está caindo não faz desaparecer um organismo que passou anos olhando para cima.

É por isso que sua necessidade de lembrar-se de respirar me interessa tanto. A respiração, naquela cena, não aparece para mim como exercício de relaxamento ou recurso de uma cartilha de bem-estar, mas como medida da distância entre o homem sentado naquela sala e um corpo ainda preparado para a próxima emergência. Ele pode saber intelectualmente que nada está acontecendo e, ainda assim, seu organismo não ter recebido inteiramente a notícia.

A indústria do bem-estar, naturalmente, conseguiu transformar até respirar em desempenho. Respiramos para produzir melhor, meditamos para suportar jornadas piores, viajamos para voltar renovados ao trabalho e descansamos com a responsabilidade de regressar mais eficientes. Não duvido que alguém já esteja desenvolvendo um sofisticado programa de otimização estratégica do oxigênio, acompanhado de aplicativo, assinatura anual e certificado ao final.

Carmy faz algo ainda mais delicado. Ao imaginar que poderia divertir-se um pouco mais, imediatamente encontra uma utilidade para a própria alegria: talvez, se conseguisse experimentar prazer, fosse também capaz de proporcionar mais prazer às outras pessoas.

Essa frase ficou comigo porque até a alegria dele precisa trabalhar.

Conheço esse movimento na clínica e fora dela. Há quem só se permita descansar porque precisa continuar cuidando, viaje para recuperar energia, procure terapia para voltar a suportar e reserve algumas horas para si porque, depois, precisará estar novamente disponível. O cuidado consigo recebe autorização desde que apresente algum comprovante de produtividade.

Talvez uma das liberdades mais difíceis da vida adulta seja fazer alguma coisa que não melhore absolutamente nada.

Tenho chamado de viver a vida de perto uma experiência muito menos vistosa do que a expressão talvez sugira. Não significa aproveitar cada instante, realizar todos os desejos ou transformar uma terça-feira comum numa celebração memorável da existência, porque isso seria apenas acrescentar à vida outra obrigação impossível. Viver de perto pode ser permanecer numa conversa que não levará a lugar algum, acompanhar o passo de quem já não consegue andar depressa, fazer uma refeição que ninguém fotografará, reconhecer o medo antes de lhe dar um nome mais respeitável ou permitir que uma tarde seja apenas uma tarde.

Nem sempre essa proximidade é agradável. Às vezes, quando cessam as tarefas, os ruídos e as urgências, encontramos justamente aquilo de que estávamos tentando nos manter ocupados. Para alguém habituado à emergência, a ausência dela pode produzir um vazio bastante desconfortável, porque já não há nada para antecipar, corrigir ou salvar.

Talvez, então, uma pergunta clínica mais interessante do que “como controlar minha ansiedade?” seja outra: o que acontece comigo quando nada está acontecendo?

Consigo permanecer quando ninguém precisa de mim, nenhum problema exige solução imediata e minha presença não precisa justificar-se pela utilidade? Consigo experimentar prazer sem transformá-lo em combustível para alguma tarefa futura? Consigo reconhecer uma tarde boa sem procurar nela os primeiros sinais de sua interrupção?

Não se desaprende uma antiga forma de proteção por decreto. O céu pode estar perfeitamente imóvel e, ainda assim, alguma coisa dentro de nós continuar procurando a tempestade. O trabalho clínico não consiste em arrancar de uma pessoa os recursos que um dia a protegeram, mas em ampliar suas possibilidades para que eles deixem de ser a única resposta disponível. Saúde, nesse sentido, não é nunca mais sentir medo, controlar tudo perfeitamente ou alcançar uma serenidade definitiva; é poder perceber que nem todo presente exige a resposta que o passado ensinou.

Penso novamente em Carmy, longe do fogo da cozinha, tentando respirar enquanto fala. Há algo profundamente humano naquele homem capaz de controlar temperaturas, tempos, facas, equipes e pratos sofisticados, mas que precisa reaprender uma coisa elementar: nem tudo o que se move ao redor exige que ele corra.

Na minha cozinha, às vezes uma chaleira começa a chiar enquanto estou distraída em outro cômodo. O som cresce depressa, atravessa a casa e, por um segundo, toma o ambiente com uma urgência desproporcional ao que está acontecendo. Vou até lá, diminuo o fogo e encontro a cozinha exatamente como a deixei.

A água ferveu, nada mais.

Talvez algumas partes de nós precisem de muitos anos para acreditar que uma chaleira pode chiar sem que a casa esteja queimando.


* Lisiane Forte é escritora, psicóloga, gestalt-terapeuta e articuladora cultural em Fortaleza. Sua escrita nasce do encontro entre literatura, corpo, memória, vínculos e experiência humana, com atenção aos desarranjos da vida contemporânea e às formas sutis pelas quais uma existência tenta se dizer.

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