Crónicas do Brasil | 01-09-2026 08:44

Da utilidade das trancas

lisiane forte
CRÓNICAS DO BRASIL - OPINIÃO

A vida não se dá no vazio; é esse bate-papo sem fim entre o que a gente carrega por dentro e o que o mundo atira na nossa cara. Há encontros que abrem a janela da alma. Outros só servem para mofar o quarto. Depois do sobressalto, não é preciso decifrar os mistérios do universo. Basta olhar o estrago, beber água, proteger o que é nosso e deixar que as coisas voltem ao seu tamanho natural.

Tem dias em que a gente descobre, sem nenhum aviso, que uma pessoa pode entrar pela nossa vida adentro sem jamais ter pedido licença.

Aparece numa tela de vidro, atravessa uma conversa fiada, solta uma frase no meio do caminho e insiste, mesmo depois de notar a porta fechada. De repente, aquilo que era matéria ordinária do dia, um retrato nas suas redes sociais, um pano de roupa suja, um diálogo atravessado, ganha uma sombra incômoda, um peso que não estava ali.

Foi assim que, na semana passada, uma ninharia qualquer deixou de ser pequena.

Logo vieram os palpites de costume, sempre endereçados a quem teve a casa devassada: por que se incomodou tanto? Por que não fingiu que não viu? Por que não fechou a porta?

Tenho reparado que a gente guarda um vício antigo de procurar o erro na vista de quem foi ferido. Como se o mal estivesse na pele fina de quem recebeu o golpe, e não no braço de quem o desferiu.

No meu ofício, canso de ver essa comédia triste. Chega uma pessoa dizendo que anda nervosa, mas bastam alguns minutos de contato para surgir a repartição que a esgota, o marido que a aperta, a casa que exige, a ameaça que ela finge não ver para conseguir botar a água do café no fogo. Outra entra me garantindo que está fazendo drama; pontuo três coisas e descobrimos que ela vem aguentando há meses o que homem nenhum suportaria por três dias.

A verdade é que nem toda dor nasce do peito da gente.

Às vezes ela tem rua, número, hora marcada. Tem nome de batismo. Tem alguém do outro lado da mesa.

Não se trata de culpar o mundo por qualquer vento que sobra, isso seria fútil e preguiçoso. A gente tem lá nossas dores antigas, nossos maus hábitos, nossos tropeços. Mas também existe o imprevisto da vida lá fora. E há uma distância enorme entre entender um golpe e se acostumar a apanhar.

Por isso me dão preguiça essas fórmulas de almanaque que andam vendendo por aí: respire fundo, feche os olhos, não dê ouvidos, siga a vida. Servem bem para quem mostra a língua na rua. Mas há certas horas em que "não dar importância" não é sabedoria. É só um jeito polido de entregar os pontos.

Um sujeito pode tremer por conta de velhos fantasmas. Mas também pode tremer porque tem um cão bravo rosnando na sua canela, agora.

O resto é conversa. A vida não se dá no vazio; é esse bate-papo sem fim entre o que a gente carrega por dentro e o que o mundo atira na nossa cara. Há encontros que abrem a janela da alma. Outros só servem para mofar o quarto.

Depois do sobressalto, não é preciso decifrar os mistérios do universo. Basta olhar o estrago, beber água, proteger o que é nosso e deixar que as coisas voltem ao seu tamanho natural.

Antes de sair hoje cedo, chequei a tranca da porta duas vezes.

Não achei tolice nenhuma.

Girei a chave e fui andar no sol.


* Lisiane Forte é escritora, psicóloga, gestalt-terapeuta e articuladora cultural em Fortaleza. Sua escrita nasce do encontro entre literatura, corpo, memória, vínculos e experiência humana, com atenção aos desarranjos da vida contemporânea e às formas sutis pelas quais uma existência tenta se dizer.

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