Crónicas do Brasil | 01-09-2026 08:44

Que o dia seja generoso

lisiane forte
CRÓNICAS DO BRASIL - OPINIÃO

Uma vez me disseram que eu não era daqui, que era do mundo. Achei bonito. Na geografia, não fui tão longe assim. Minha cabeça, porém, conheceu lugares dos quais às vezes nem eu soube voltar depressa. Passei anos entrando nas histórias dos outros pela clínica, nas minhas pela escrita, e descobri que uma pessoa pode percorrer distâncias enormes sem sair de uma sala.

Este ano faço cinquenta anos e ainda estranho um pouco escrever esse número. Não porque me pareça grande, mas porque números redondos têm a mania inconveniente de pedir balanços. Aos quarenta e nove ninguém exige que você compreenda o que fez da vida; aos cinquenta parece que devemos abrir um livro-caixa, separar acertos e erros e verificar se o saldo merece aprovação.

Não tenho a menor vontade.

Fiz escolhas que repetiria e outras que, vistas daqui, deixaria quietas onde estão. Também aconteceu muita coisa que não escolhi, e essa parte costuma desaparecer quando contamos nossa história, talvez porque seja mais confortável imaginar que fomos seus únicos autores. Não fomos. Há encontros, circunstâncias, gente que chega, gente que falta e uma quantidade considerável de improviso que depois chamamos de destino porque fica mais bonito.

Não me sinto velha. Meu corpo certamente tem informações sobre o tempo que passou e não pretendo discutir com ele sobre evidências, mas alguma coisa em mim continua fazendo planos com certo abuso de confiança. Quero escrever outros livros, conhecer lugares, trabalhar, amar, aprender o que ainda não aprendi e continuar me espantando com aquilo que não sei.

Tenho segredos também. Alguns nunca serão contados porque são meus. Outros, quando percebo que podem fazer companhia a alguém, ofereço. Talvez escrever tenha sido durante boa parte da minha vida esse movimento entre guardar alguma coisa e abrir a janela.

Uma vez me disseram que eu não era daqui, que era do mundo. Achei bonito. Na geografia, não fui tão longe assim. Minha cabeça, porém, conheceu lugares dos quais às vezes nem eu soube voltar depressa. Passei anos entrando nas histórias dos outros pela clínica, nas minhas pela escrita, e descobri que uma pessoa pode percorrer distâncias enormes sem sair de uma sala.

Agora minhas distâncias são menores.

Há meus pais envelhecendo e tudo o que isso exige de quem está por perto. Consultas, remédios, decisões e aquela inversão silenciosa em que os filhos começam a perguntar aos pais se comeram, dormiram, tomaram o que deveriam tomar. Não há muita poesia nisso enquanto acontece. Há cansaço, medo, alguma impaciência e amor misturados de um jeito que fotografia de família nenhuma consegue mostrar.

Meus filhos adolescentes já constroem uma vida que não cabe inteiramente sob meus olhos. Algumas circunstâncias eu teria escolhido diferentes; outras simplesmente são. Talvez uma das partes menos comentadas da maternidade seja aprender que permanecer perto nem sempre significa estar no mesmo lugar.

E há quem tenha desaparecido quando estar por perto começou a dar trabalho. Algumas presenças familiares funcionam muito bem em aniversários, almoços e fotografias; diante da velhice, da doença e das obrigações menos fotogênicas, desenvolvem uma impressionante vocação para a distância. Antigamente eu procurava explicações. Hoje economizo essa energia. Nem toda ausência merece investigação.

Talvez os cinquenta estejam me trazendo isso, se é que um aniversário precisa trazer alguma coisa: minha vida ficou menos parecida com aquela que imaginei aos vinte e, curiosamente, mais parecida comigo.

Tenho feito, então, um pedido bastante modesto ao dia.

Não peço felicidade. Acho uma responsabilidade excessiva para uma terça-feira. Peço que meus pais estejam tranquilos, que meus filhos estejam bem, que eu consiga trabalhar sem me afastar demais de mim e que sobre algum tempo para escrever, ouvir uma música ou olhar pela janela sem transformar esses minutos em mais uma tarefa de aperfeiçoamento pessoal.

Se houver uma boa conversa, melhor. Se alguém que amo rir perto de mim, considero lucro.

Aos vinte talvez eu pedisse ao mundo que se abrisse. Agora, chegando aos cinquenta, há noites em que me basta encostar na janela e ver a cidade continuando sem precisar de mim.

Fico ali um pouco. Se o vento estiver bom, deixo a janela aberta.

E agradeço ao dia pela delicadeza de não ter sido maior do que eu podia viver.


* Lisiane Forte é escritora, psicóloga, gestalt-terapeuta e articuladora cultural em Fortaleza. Sua escrita nasce do encontro entre literatura, corpo, memória, vínculos e experiência humana, com atenção aos desarranjos da vida contemporânea e às formas sutis pelas quais uma existência tenta se dizer.

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