Por que o povo é cúmplice?
O mundo está povoado de histórias de dominação, foram milhões de almas que apoiaram algozes, na Alemanha no auge do nazismo mais de 80% da população apoiava Hitler e a sua política de extermínio(: ). Lima Barreto, escritor brasileiro, não tinha condescendência com isso: “O Brasil não tem povo, apenas público. Povo luta por seus direitos, público assiste de camarote”( ; ). E não é só por ignorância que a maioria age assim, mas principalmente por covardia. A maioria das pessoas escolheram a dissimulação, as pessoas, ditas normais, vivem mentindo e assim se tornam cúmplices de coisas desumanas, como do genocídio que Israel está promovendo contra os palestinos.
Eduardo Galeano contava uma história sobre Salvador Allende, de quem era muito próximo. Durante a campanha eleitoral que levou Allende à presidência do Chile, foi convidado por este para almoçar em sua casa, mas lá chegando, de imediato percebe a tristeza do seu amigo. Galeano então lhe pergunta o que está passando e Allende lhe responde levando-o até à porta da sua casa. Abre a porta e lhe aponta outra casa e lhe diz: “Mira, mira bien esa mansión que tenemos aqui al lado. Pues ahi vive una de las famílias mas ricas de Chile. Ahí hay uma fortuna inmensa. Y esa casa tiene uma sola empleada. Y esa empleada, que gana um salário de hambre, se ocupa de los niños, se ocupa de hacer la comida, de lavar los platos, se ocupa de la jardineria. Se ocupa de todo a cambio de esse salario de hambre. Y lo que me tiene asi, tan triste como me viste, lo que me tiene realmente triste, es que me enteré que esa pobre mujer, esa sacrificada mujer, há enterrado su ropa, la poca ropa que tiene. Nada. Poca y pobre ropa. La há enterrado porque los médios de comunicación, o sea los miedos de comunicación, que seria el nombre adecuado, Los miedos de comunicación, a hán convencido de que si ganamos nosotros, si gana la izquierda, si yo soy presidente, le vamos a sacar la ropá, le vamos a expropriar la ropa. Y esta pobre mujer se lo habia creído y habia enterrado em el jardin la poca pobre ropa que tênia”. Galeano entendeu profundamente, naquele momento, o que movia Allende, um homem que nunca vacilou em lutar e se sacrificar por suas ideias de liberdade e de justiça social. “Pero si yo vivo para ayudar a gente como ella”.
Salvador Allende morreu pela causa que acreditava, mas não sacrificou o seu próprio povo, morreu lutando entrincheirado na casa presidencial chilena, o Palácio de La Moneda, diferente de outros líderes que, ao ter que enfrentar o inexorável, sacrificaram o próprio povo, convocando, como Hitler, até crianças para lutar contra o inimigo que já estava às suas portas. Líderes que se comovem com o sofrimento de um povo tão explorado, como o povo latino são raros. Eduardo Galeano entendeu como poucos o sacrifício dos povos da América Latina e, em sua magistral obra, “As veias abertas da América Latina”, aprofundou as diversas causas dessa condição e apontou o imperialismo e as elites entreguistas como o maior inimigo desses povos. A imposição cultural dos norte-americanos criou e enraizou valores alienígenas que se perpetuam até hoje, criando legiões de seguidores do império do “time is money”. O capitalismo em suas versões mais atuais se infiltra e condiciona pessoas, porque ser livre é uma condição assustadora para a maioria, porque ao pensar com a própria cabeça o ser se liberta, mas tem que assumir as suas próprias escolhas. A liberdade passa a ser um temor para a maioria e pertencer ao rebanho e se deixar conduzir pelo pastor acalma a consciência e a dominação se torna apenas um efeito colateral que, aliás, parecem pagar alegremente, em ofertas e dízimos para os novos templos da alienação coletiva e assim se livram dessa aflição de terem que pensar e decidir por si mesmos.
O mundo está povoado de histórias de dominação, foram milhões de almas que apoiaram algozes, na Alemanha no auge do nazismo mais de 80% da população apoiava Hitler e a sua política de extermínio. Mussolini, enforcado com a sua amante, Clara Petacci e dependurados em público para todos verem era o Duce, o guia dos italianos, aquele que levaria a Itália aos tempos de glória de Roma, o mesmo que inspirou “o cabo boêmio” (assim Hindenburg, de forma desdenhosa, se referia a Hitler, aquele que ele mesmo deu posse como chanceler, em 1933, na Alemanha). A cumplicidade do povo é amenizada pelos analistas com explicações psicológicas e psicanalíticas. Lima Barreto, escritor brasileiro, não tinha condescendência com isso: “O Brasil não tem povo, apenas público. Povo luta por seus direitos, público assiste de camarote”. E não é só por ignorância que a maioria age assim, mas principalmente por covardia, porque podem sair do camarote e voltar para as suas casas em segurança, sem enfrentar os seus algozes e os seus cães de guarda. A maioria das pessoas escolheram a dissimulação, as pessoas, ditas normais, vivem mentindo e assim se tornam cúmplices de coisas desumanas, como do genocídio que Israel está promovendo contra os palestinos. O escritor Joseph Conrad afirmou que o diabo da nossa época é, justamente, esta figura medíocre e adesista e não aquela figura mitológica com aparência demoníaca.
As religiões têm um papel central na dominação e domesticação dos povos, ou como dizia Borges: “O que é o céu se não um suborno, e o que é o inferno se não uma ameaça”. Porém, existe entre o povo, o oportunista, aquele que está sempre pronto para seguir qualquer mudança onde haja alguma chance de ganhar alguma coisa apenas para si. Por isso, políticos que cooptam estas figuras do povo conseguem apoio popular em regiões carentes, só para se elegerem e depois implementarem políticas que aprofundam ainda mais as desigualdades sociais e aniquilam direitos de acesso à educação e a saúde pública de qualidade. Grande parte do povo acaba aderindo aos seus algozes sem sequer refletir, reproduzindo comportamentos ancestrais, seguindo uma tradição criada e imposta através do tempo e então, resignados e reacionários, abrem mão da sua liberdade, porque assim não precisam pensar, nem escolher.
Vinicius Todeschini 11-09-2026


