Mais um knockdown na democracia
O resultado do primeiro turno das eleições brasileiras foi aterrador, além do alto nível de abstenção, que atingiu 21,08 % do eleitorado, com mais de 33, 4 milhões de eleitores. A vitória esmagadora da Extrema-Direita abre um espaço enorme, principalmente no Senado, para manobras que visam atacar os ministros do STF que se opuseram ao golpe e julgaram e condenaram os golpistas.
O neofascismo traz como novidade, em relação ao velho fascismo, a incorporação das ideias de Gramsci, mas para isso precisou rebaixar o debate, levando-o para ambientes onde o academicismo não consegue sustentar a razão. Em um artigo publicado em 1991, “Winning the Culture War: The American Cause” (Vencendo a guerra cultural: a causa estadunidense), o conservador radical, Sam Francis, propôs que a Extrema-Direita se apropriasse das ideias do pensador italiano Antonio Gramsci e, através dessa estratégia, oferecer ao público novas formas para defender os velhos valores do supremacismo branco e do ódio às minorias, sempre associadas a símbolos e grupos racistas como a Ku Klux Klan. É dele a frase “A estratégia pela qual esta nova revolução estadunidense pode ocorrer pode muito bem vir do que foi preparado no cérebro de um teórico comunista moribundo em uma cela de prisão fascista há 60 anos”.
Não é uma novidade nas tentativas de aplicar as ideias de Gramsci, torcendo-as para que sirvam aos propósitos dos extremistas de Direita. Alessandro Giuli, ministro da cultura do atual governo, foi membro do MSI (Movimento Social Italiano), assim como a própria primeira-ministra Giorgia Meloni, publicou um livro chamado “Gramsci está vivo”, onde tenta adaptar os conceitos do pensador aos interesses do seu segmento ideológico. Na verdade, o pioneiro desse feito na Europa foi o escritor francês, Alain de Benoist. Ele torceu tanto o pensamento de Antônio Gramsci, para que coubesse em seu arcabouço teórico, que seria um equívoco chamá-los de pensamentos gramscianos. Este mosaico intrincado foi criado visando encontrar uma resposta à altura dos teóricos de Esquerda, que encantavam os jovens do final dos anos sessenta e, assim, ele e seus confrades, criaram em 1968 o GRECE (Grupo de Pesquisa e Estudo para a Civilização Europeia), concebido como um clube intelectual para debater ideias e tentar influenciar o clima intelectual e cultural da sociedade em vez de uma participação direta na política.
Aqui no Brasil, o ideólogo da Extrema-Direita, o astrólogo Olavo de Carvalho, também era obcecado pelo pensador italiano e, muito embora, Olavo não se enquadre na definição acadêmica de filósofo acabou por influenciar, através dos seus livros e cursos, mais de uma geração da Extrema-Direita brasileira. A grande sacada foi a compreensão de que o nível cultural brasileiro é baixo e nesse nível prepondera o maniqueísmo, onde categorias simples, como bem e mal, bom e mau, definem pessoas e governos. Claro que isso não é exclusividade brasileira, caso contrário não existiriam as grandes rivalidades religiosas, políticas e esportivas, onde, dependendo da época em que se está vivendo, o adversário pode mudar de categoria e virar inimigo, como é no tempo atual. A aderência de pessoas pobres a grupos políticos radicais que visam, justamente, usá-los como massa de manobra e depois explorá-los em novas formas de escravidão, também não é exclusividade nossa, mas esta legião de pobres e jovens servido à Extrema-Direita é uma novidade por aqui e causa mais que espanto, causa pavor. Porque, antigamente, mesmo os que mais tarde assumiriam os negócios das famílias ricas, tinham aquele tempo de rebeldia para defender a justiça social e a revolução, mesmo que todos soubessem até onde seriam capazes de chegar.
O resultado do primeiro turno das eleições brasileiras foi aterrador, além do alto nível de abstenção, que atingiu 21,08 % do eleitorado, com mais de 33, 4 milhões de eleitores. A vitória esmagadora da Extrema-Direita abre um espaço enorme, principalmente no Senado, para manobras que visam atacar os ministros do STF que se opuseram ao golpe e julgaram e condenaram os golpistas. A vitória dos seus candidatos a governadores na Região Sul e Sudeste, a exceção do Rio de Janeiro onde o ex-prefeito Eduardo Paes vai ao segundo turno contra o candidato do PL, Douglas Ruas, foram em primeiro turno, algumas como a de Tarcísio de Freitas (62,65%) e Jorginho Mello (68,98%), candidatos à reeleição, com uma ampla margem de votos sobre o segundo colocado. Isso confirmou as enormes fragilidades das campanhas dos seus opositores, como se percebe, neste lodaçal, jacaré tem que nadar de costas. É inegável que a manobra do ministro, terrivelmente evangélico, André Mendonça, deu muito certo, porque conseguiu fragilizar o herói contra o golpe de estado, Alexandre de Moraes, e criar no pensamento mágico de boa parte da população um elo entre ele e o candidato à reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O jogo não acabou, mas é preciso muito mais que mobilização para virar, é preciso um fato novo.
Vinicius Todeschini 08-10-2026


