A reação da democracia
Democracia deve ser uma luta por mais igualdade e pela diminuição real das diferenças econômicas para que se possa erradicar, definitivamente, a pobreza e as injustiças. Todas as pessoas que têm vocação e talento para a vida pública devem entender que ao seguir este caminho se tornam servidores públicos, ou seja: estão lá para servir e não para se servir.
Certamente não faltarão neofascistas “disfarçados rondando ao redor”, como diz a canção de Bob Marley, “No Woman, No Cry”, afirmando que o povo não está interessado em democracia, mas sim em resultados econômicos, mas eu discordo veemente disso. Afinal, eu nunca vi tanta gente se interessando em um assunto tão complexo e intrincado como geopolítica, como agora. Pequeno-burgueses que tudo que desejavam era frequentar restaurantes, consumir produtos de grifes, comprar carros e imóveis, viajar para Paris, etc..., estão agora, não todos é claro, percebendo que o seu mundo está ameaçado por um espectro que paira sobre os seus paraísos artificiais, o espectro do fascismo. Em suas várias vertentes, como o bolsonarismo no Brasil e o trumpismo nos EUA, o neofascismo se aproveita da ansiedade da classe média -que no Brasil, a rigor é a única classe social que paga impostos diretamente, porque os ricos não pagam e os pobres pagam o imposto regressivo sobre o consumo, ou seja nem percebem que pagam- para manipular a opinião pública através de narrativas inócuas, porém eficientes do ponto de vista psicológico e o bombardeio incessante de fake news. E tudo isso patrocinado por poderosos psicopatas, como Elon Musk e muitos outros, que jamais admitirão qualquer possibilidade de mudança real neste mundo.
O duro golpe que atingiu a mandíbula do regime norte-americano é uma mensagem que não pode ser ignorada ou explicada de forma simplista, porque a revolução digital trouxe muitas consequências, mas nem todas são ruins, muitas, pelo contrário, são ótimas e, sem dúvida, a melhor delas é a possibilidade de pensar em posse de informações e conhecimentos disponíveis online e ao alcance da mão. Hoje em dia você tem, mesmo não sendo um especialista em TI, acesso a conteúdos que vão desde os clássicos de todos os tipos de literatura, até informações em tempo real de todas as mídias, principalmente as alternativas, que não estão atreladas, exclusivamente, aos interesses econômicos dos poderosos. O multilateralismo é uma realidade em todas as áreas e a geopolítica, assim como o clima, não são mais meras especulações comezinhas, mas sim assuntos importantes em muitas rodas de conversa. A derrota nas eleições de meio de mandato de Donald Trump revela que a mobilização popular, cristalizada pelas grandes concentrações em ruas e praças, está longe de ser ultrapassada, como se viu aqui no Brasil, onde a vitória fragorosa e de virada do presidente Lula, foi uma piscina de água fria no neofascismo brasileiro.
Não há vitória verdadeira e real sem mobilização e isso vale tanto para o individual, quanto para o coletivo. André Janones com o ‘Exército do Lula’, demonstrou isso e se tornou uma referência mundial para o enfrentamento da Extrema-Direita e agora está exportando o seu modelo para o mundo inteiro. As ruas se encheram de gente para derrotar o fascismo e jovens de 16, 18 e 20 anos participaram ativamente, como na nossa época de juventude. Isso é motivo de alegria, pois saber que as sementes jogadas “nalgum canto de jardim”, como escreveu Chico Buarque em sua canção, “Tanto Mar”, que saudou “A Revolução dos Cravos” em Portugal, floresceu de algum modo, mesmo sob tanta doutrinação e tantas mentiras.
O povo percebe mais claramente agora que as grandes redes, as grandes mídias, não passam de instrumentos de dominação, coisa que só os que estudavam e militavam pelas grandes causas populares sabiam. No entanto, a democracia precisa ser aperfeiçoada, fica o exemplo dos EUA, que criou uma proto-democracia e nunca a aperfeiçoou, e bastou um oportunista esperto como, Donald Trump, aparecer para que a proto-democracia quase virasse uma ditadura. A democracia brasileira não pode permanecer do jeito que está, é preciso criar instrumentos que possam trazer uma participação mais direta das pessoas, instrumentos consistentes e capazes de resistirem a todos os fascismos que aparecerem, “porque a cadela do fascismo está sempre no cio”, como escreveu Bertold Brecht.
Por fim, nos resta o alento e a gratidão a todos que lutam pela democracia e para aperfeiçoá-la porque, principalmente no segundo turno da eleição brasileira, todos foram fundamentais para a grande vitória de virada do presidente Lula, mesmo aqueles que votaram em Lula, tão somente como um voto contrário à Extrema-Direita, eles também foram muito importantes. É fundamental que os verdadeiros democratas queiram aperfeiçoar a democracia e, sem dúvida, nessa luta é necessário se criar um Código de Ética para o Supremo Tribunal Federal e para o Congresso Nacional, além de um enxugamento nos custos dessas instituições fundamentais para o Estado de Direito. À democracia e o setor público não devem ser o destino de meliantes e oportunistas de plantão, que visam apenas usar o Estado para enriquecer através dos mais vis mecanismos de corrupção, criados por outros iguais a estes em um passado recente. Democracia deve ser uma luta por mais igualdade e pela diminuição real das diferenças econômicas para que se possa erradicar, definitivamente, a pobreza e as injustiças. Todas as pessoas que têm vocação e talento para a vida pública devem entender que ao seguir este caminho se tornam servidores públicos, ou seja: estão lá para servir e não para se servir.
Vinicius Todeschini 04-11-2026


