Do arroz ao pinhão: a obra de irrigação do Vale do Sorraia em Coruche
A organização do festival Terras Sem Sombra que este ano se realiza de Fevereiro a Dezembro voltou à vila de Coruche para onde levou a música clássica e a visita ao património natural com destaque para a visita à obra de irrigação do Vale do Sorraia.
"Do arroz ao pinhão: em torno da obra de irrigação do Vale do Sorraia (1951-2026)" foi um dos temas das jornadas de fim de semana do festival Terras Sem Sombra que voltou a Coruche nesta que é a 22ª edição. A iniciativa propôs a leitura de uma das paisagens coruchenses onde a produção agrícola e os sistemas naturais raramente se dissociam. A iniciativa decorreu na manhã de domingo, 12 de julho, no âmbito da atividade de Património. Na noite anterior houve concerto na Igreja da Misericórdia com o Trio Berenson que durante mais de uma hora interpretou músicas de Joseph Haydn, Joaquín Turina e Antonín Dvořák.
A visita, com início na sede da Associação de Regantes e Beneficiários do Vale do Sorraia (ARBVS), seguiu uma lógica de aproximação ao território, começando em sala, subindo depois ao ponto mais alto da vila e terminando no campo, junto às culturas e aos canais que estruturam a paisagem do Sorraia.
Em sala, a apresentação da Obra e da sua história
O primeiro momento decorreu na sede da ARBVS, com José Núncio, engenheiro agrónomo e diretor-delegado da Associação, a traçar o retrato da instituição. A ARBVS fez 70 anos em 2026, uma efeméride que José Núncio associou à obra de rega assente nas barragens do Maranhão e de Montargil, os dois grandes reservatórios que alimentam o sistema. A área beneficiada ronda os 15 mil hectares, informou, sublinhando que até Alqueva a associação foi a principal associação de Regantes do país. A água, explicou, é distribuída por gravidade, e o consumo anual situa-se nos 130 milhões de metros cúbicos.
Sobre as culturas, José Núncio identificou o arroz como a mais expressiva, ocupando cerca de um terço da área, seguida do olival, segunda em área, e do milho, também presente de forma significativa no mosaico agrícola do Vale do Sorraia.
Maria Teresa Ferreira, professora catedrática do Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa e diretora do Laboratório Associado TERRA, trouxe à sessão uma leitura mais conceptual do território. Recordou que a água é pública, e que o que fazemos é pagar o serviço. Descreveu um rio como um organismo vivo, lembrando também que todas as componentes da vegetação estão cobertas de organismos vivos e que um rio é um sistema diverso e dinâmico, cuja diversidade depende também das funções. Sobre o Vale do Sorraia em particular, notou que é diverso na sua estrutura com ilhas e recortes das margens. Falou ainda da mobilidade do rio ao longo dos séculos, da infraestrutura verde que rodeia a área agrícola, importante para a biodiversidade, e das galerias ribeirinhas que acompanham o curso de água.
No campo, entre linhas de arroz e galerias ripícolas
A última etapa da manhã levou o grupo à propriedade do empresário agrícola Pedro Barata, presidente da Associação de Agricultores de Coruche e Vale do Sorraia, que conduziu a visita pelo campo. Em pleno terreno, junto às parcelas de arroz, os participantes puderam observar in loco a cultura que domina a paisagem do vale, bem como as linhas de vegetação que acompanham os canais e valas de rega, as chamadas galerias ripícolas.
Foi nessa transição entre canal e cultura que a sessão da manhã e o percurso pelo Canal Grande, referido no programa da iniciativa, se encontraram: nas margens dos canais, nas valas e nos terrenos adjacentes à Obra de Rega, a circulação da água favorece a multiplicidade de habitats e converte uma infraestrutura agrícola concebida para ordenar a água num importante foco de biodiversidade. Entre as comunidades que ali encontram condições favoráveis contam-se as formigas, determinantes na mobilização do solo, na dispersão de sementes, na decomposição da matéria orgânica e no equilíbrio das comunidades de invertebrados.


