Desporto | 15-05-2026 15:00

Na Es-Passo do Entroncamento o ballet dança-se na ponta dos pés

Na Es-Passo do Entroncamento o ballet dança-se na ponta dos pés
Es-Passo de Dança, Escola filiada da American Academy of Ballet, lecciona aulas de ballet, dança contemporânea, barra de chão e ballet adultos - foto O MIRANTE

No Entroncamento, a Escola de Ballet Es-Passo de Dança prepara-se para levar 16 alunas ao All Dance Europe, na Grécia. Entre disciplina, amizade e rigor técnico, a professora Susana continua a defender que o ballet é uma arte exigente, física e emocionalmente, onde cada conquista é feita em grupo.

Há uma ideia, nem sempre justa, de que o ballet é feito de leveza. De movimentos bonitos, tutus, pés em pontas num arco perfeito e sorrisos serenos. Mas basta entrar numa aula da escola Es-Passo de Dança, no Entroncamento, para perceber que essa leveza é apenas a parte visível de um trabalho mais profundo. Por trás de cada gesto há disciplina, dor, repetição, concentração, construção pessoal e uma exigência que começa nos pés e termina, como dizem as alunas, “na ponta do cabelo”, num coque que se quer impecavelmente penteado.
A professora Susana Valério sabe-o melhor do que ninguém. Começou no ballet por volta dos 12 anos e rapidamente percebeu que queria fazer dele a sua vida. Dá aulas desde 1993 e está no Entroncamento há 26 anos. O Es-Passo de Dança abriu portas em 2000 e, desde então, tem formado crianças e jovens que encontram no ballet muito mais do que uma actividade extracurricular. “Aprende-se amizade, respeito, educação, carinho”, explicam as alunas, sentadas em meia-lua no final da aula. Aprende-se também a conhecer o corpo, a respeitar limites, a ouvir correcções e a perceber que uma crítica não é um ataque pessoal, mas uma ferramenta para evoluir.
Na sala estão as alunas da segunda turma de competição, jovens entre os 15 e os 19 anos. Há também outra turma, com elementos mais novos, que treina de manhã e reúne crianças entre os 10 e os 12 anos. São grupos diferentes, mas unidos pelo mesmo compromisso: dançar com rigor, crescer em conjunto e representar a escola em palco e em competição. Madalena Valério, de 18 anos, praticamente nasceu dentro da escola. Filha da professora Susana, começou ainda muito pequena, numa turma de movimento para bebés. “Ainda tinha fralda”, recorda a mãe e professora, explicando que aos três anos iniciou o ballet e nunca mais saiu. Para Madalena, a dança foi sempre uma presença natural e uma paixão que foi crescendo. Quando lhe perguntam o que mais a fascina no ballet, responde sem hesitar: “Tudo, desde as competições, aos espectáculos, o convívio, o trabalho em grupo”.
No ballet quase nada é deixado ao acaso. Cada movimento tem uma intenção, uma posição correcta, uma linha que precisa de ser respeitada. Há liberdade, sim, mas dentro de uma linguagem exigente. “Não é cada uma fazer o que quer”, dizem. Há uma técnica a cumprir, nomes a decorar, passos a interiorizar e uma memória corporal que se vai construindo aula após aula. Maria Inês Nogueira, de 16 anos, conhece bem esse processo. Começou em criança, saiu para o triatlo e regressou ao ballet aos 14 anos. O “bichinho”, conta, nunca desapareceu. O regresso foi quase um reaprender do zero. A força física e a coordenação ajudaram, mas a delicadeza dos movimentos exigiu tempo. “A técnica aprende-se mais rápido do que a parte da delicadeza. Isso vem com o tempo. Vamos percebendo onde estamos bem e onde estamos mal”, explica.
Ao longo dos anos, a escola cresceu. Hoje reúne habitualmente entre 60 e 80 praticantes. No início fazia apenas um espectáculo anual, de encerramento. Agora apresenta, pelo menos, três espectáculos por ano, além de exames, apresentações e competições. A evolução, diz a professora, nota-se no palco e na atitude das alunas. A competição voltou a ter um lugar importante no percurso da escola. Este ano, o Espaço de Dança foi seleccionado para participar no All Dance Europe, na Grécia, que se vai realizar em Julho. A comitiva levará 16 elementos e nove coreografias, entre ballet clássico, neoclássico e danças tradicionais. Não é a primeira vez que a escola chega a esta fase. No ano passado, por exemplo, participou na edição realizada em Espanha, e regressou com prémios: um primeiro lugar em solo e um primeiro lugar em grupo. Esses resultados permitiram também o apuramento para o mundial, em Orlando, embora a escola não vá participar este ano por envolver custos muito elevados. A ida à Grécia representa, por si só, um desafio enorme. Só a viagem e a estadia deverão rondar os 800 euros por pessoa. Com alimentação e inscrições, o valor poderá ultrapassar os mil euros por aluna. A professora espera conseguir algum apoio por parte do município, embora reconheça que, por se tratar de uma escola privada e não de uma associação, o processo possa ser mais difícil.

Dançar por escolha própria faz a diferença
Carolina Caramelo, tem 19 anos e estuda actualmente na Escola Superior de Dança. Começou o ballet aos 10 anos, depois de ver um vídeo de uma bailarina e pedir à mãe para dançar. No Es-Passo de Dança a paixão cresceu e agora pondera fazer mestrados em criação coreográfica e em ensino, para manter portas abertas num meio que continua a ser difícil. Até porque a dança, em Portugal, ainda é pouco valorizada, nota a professora que a considera “o parente pobre das artes”. E defende que o ballet, embora seja uma arte, tem uma exigência física comparável à de modalidades de alta competição. “O esforço requerido é igual ou maior do que em muitas outras modalidades”, afirma, explicando que o ballet pode ser praticado por muitos corpos, mas o nível profissional continua a impor padrões muito específicos. Em escolas de outros países há critérios rigorosos de peso, medidas e proporções. Aqui, não se trabalha com esse nível de selecção, mas há consciência de que alguns corpos se adaptam mais facilmente do que outros. Ainda assim, a professora explica que tudo se trabalha: a força, a elasticidade, a coordenação, a postura, a expressão. O maior desafio, sobretudo nas crianças mais pequenas, é muitas vezes a disciplina. Estar calada, ouvir, aceitar regras, perceber que a sala de aula não é uma extensão de casa.
Pela escola têm passado também rapazes, embora ainda poucos. A professora lamenta que ainda existam preconceitos em torno dos rapazes que escolhem o ballet. Fala de casos de bullying e de pais que resistem à escolha dos filhos por associarem a dança a estereótipos ultrapassados. Para Susana, o que importa é a criança gostar, ter vontade e sentir-se apoiada. Seja rapaz ou rapariga, o essencial é que esteja ali por escolha própria.

Na ponta dos pés também se constrói carácter

A história da Es-Passo de Dança demonstra uma realidade cheia de simbolismo. Uma escola que cresceu ao longo dos anos e prepara agora 16 alunas para o All Dance Europe. Esta participação é a consequência de uma cultura de trabalho assente na tarefa e não no resultado. Na disciplina e, sobretudo, na convicção. É aqui que a dimensão psicológica se torna decisiva. A disciplina não deve ser vista como uma prisão, mas como uma forma de liberdade. Quem treina com regularidade, cumpre horários, aceita regras e aprende a ouvir correcções, está a construir ferramentas para a vida. Uma pessoa, jovem ou adulto, que percebe que a melhoria depende da consistência, desenvolve também uma relação diferente consigo próprio. A auto-estima não nasce dos elogios, ou pelo menos não deveria ser essa a sua base. A auto-estima tem que ter como fundação o respeito por aquilo que prometemos e conseguimos cumprir.
No desporto, na dança ou na vida o progresso raramente é imediato. Quem assina este texto sabe do que fala porque teve de errar muitas vezes para perceber aquilo que quer e gosta de fazer. E o mais interessante é que ainda não descobrimos, nem sabemos se vamos descobrir. Mas de uma coisa temos a certeza: o talento pode abrir portas, mas é a constância que permite chegar ao mais alto rendimento.
Bernardo Emídio (Texto mais desenvolvido na edição online de O MIRANTE)

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