Entrevista | 15-05-2026 10:00

João Joaquim Isidro dos Reis: “tenho orgulho mas incomoda-me responder por uma herança que não construí”

João Joaquim Isidro dos Reis: “tenho orgulho mas incomoda-me responder por uma herança que não construí”
João Joaquim Isidro dos Reis gere quinta centenária no Pinheiro Grande e tem a seu cargo uma ganadaria - foto O MIRANTE

A Quinta dos Arneiros, na Chamusca, é casa de uma família que já vai na quinta geração. João Joaquim Isidro dos Reis é o seu herdeiro directo. Nesta conversa com O MIRANTE fala da sua ganadaria, viaja pela história de uma família antiga, cujo maior símbolo é precisamente o seu bisavô, de quem herdou o nome, que esteve na origem da construção da Ponte da Chamusca. Aos 69 anos, que completará em Junho, assume que gostaria de ter feito mais, mas garante que fez o que pôde para manter a casa, a terra, os animais e uma herança que não sente como privilégio, mas como responsabilidade. Uma entrevista de vida a um homem que honra a família com o seu coração de ouro, a sua humildade e sinceridade. O título desta conversa roubado da entrevista não deixa dúvidas.

A história da família Isidro dos Reis na Chamusca tem muito João e Joaquim? É verdade, e vai continuar porque já tenho um filho que se chama Joaquim. É uma tradição familiar. Eu sou quinta geração aqui em casa. Não sei dizer se são 300 anos, mas é uma história longa, muito longa.
O primeiro Joaquim de que fala é o trisavô que teve de fugir dos políticos? Sim, é o meu trisavô. A história que sempre ouvi é que ele se escondeu em Azeitão debaixo de um monte de carvão e, de madrugada, conseguiu sair disfarçado para ir ao encontro de um amigo, o Duque de Palmela. Depois foi para a Lagoalva, em Alpiarça, que na altura tinha certas prerrogativas e dava protecção. Esteve lá anos, até vir a amnistia. Depois da amnistia foi a Azeitão, vendeu o que tinha e comprou as primeiras propriedades na Chamusca.
A Chamusca foi uma escolha da família? O meu bisavô deixou Azeitão depois dessas peripécias todas, do tempo das guerras civis, dos miguelistas e dos liberais. Comprou casa, comprou propriedades, fixou-se aqui. E isso marcou tudo. A ligação da família à Chamusca nasce muito dessa escolha. Depois, cada geração teve a sua vida, os seus problemas, as suas responsabilidades.
Sente essa herança como um peso? Sinto. Não gosto de responder por aquilo que os outros fizeram, porque cada um tem, ou teve, a sua vida e o seu mérito. Mas também não posso fingir que isso não existe. O nome da família traz uma responsabilidade. Aquilo que me pesa mais não é tanto o que fiz, é aquilo que não fiz. Gostava de ter feito mais. Gostava de ter feito mais pela casa, pela Chamusca.
Está a ser muito humilde... Não sei se é humildade. É a noção das coisas. A herança não desaparece, mas também não chega. Uma pessoa tem de fazer o seu caminho. Não sou um estudioso da obra do meu bisavô. Quem estudou bem a Ponte e esse período foi Álvaro Amaral Netto. Eu vou guardando, vou tentando não perder. Sempre acreditei que Deus tem sido meu companheiro.
Em casa falava-se muito do seu bisavô? Falava-se, mas não era uma coisa tão valorizada. Falava-se da Ponte, sim, falava-se do meu bisavô, mas não se vivia todos os dias com isso. A Ponte foi importante porque deu um contributo ao crescimento da Chamusca. Foi um factor de desenvolvimento. Ligou, aproximou, permitiu outra dinâmica. Mas não sou daqueles que anda permanentemente a falar disso.
Tem documentos ou fotografias dessa época? Tenho algumas coisas. Ainda há pouco tempo estive a ver uma fotografia em que aparece o meu bisavô com o senhor José Eliseu Fragoso, que era o dono do terreno onde assentou a Ponte do lado da Chamusca, e com outras figuras da época. Tenho também correspondência antiga, caixas com papéis, documentos que vou encontrando e guardando.
A Ponte da Chamusca chegou a ser inaugurada? Não. A Ponte da Chamusca nunca foi inaugurada. Primeiro terá havido a ideia de chamar-lhe D. Carlos, depois D. Manuel, mas nunca se concretizou. De certa maneira até houve coerência: não foi inaugurada por uns para depois ser rebaptizada por outros.

A história da sua família cruza-se com outras famílias antigas da Chamusca. Muito. Há ligações aos Amaral Neto pelo lado da minha bisavó. Depois havia outros ramos, tias, tios, primos, ligações aos Félix Pereira, aos Vasconcelos, aos Seixas. É uma heráldica riquíssima, se quisermos usar essa palavra.
O que une essas famílias e essas gerações? Acho que é o amor à Chamusca. O meu bisavô, os Amaral Neto, outras pessoas da terra, cada um à sua maneira, deram contributos para o progresso da Chamusca, na agricultura, na política, na cultura, entre outros. A Chamusca teve figuras muito fortes. Sem desprezar ninguém, foi uma comunidade culturalmente mais rica do que é hoje. Mas acredito que pode voltar a sê-lo.
Acredita mesmo nisso? Acredito. Espero que aconteça na geração dos meus filhos. O meu filho vem cá todos os fins-de-semana e está muito ligado. Quer tomar conta. E eu digo-lhe: espera, ganha primeiro experiência lá fora, ganha dinheiro, aprende, e depois vens cumprir a tua missão.

“A minha ganadaria começou oficialmente em 2011 e eu quis que fosse na Chamusca”

A tradição do gado bravo já existia na família? Sim, havia uma tradição antiga de vacas bravas cá em casa, mas essa primeira ganadaria acabou em 1975. Depois voltei a criar. A ganadaria actual começou em 1996, mas só fixei a antiguidade em 2011. E quis que fosse na Chamusca. Era uma questão de honra para mim.
Quantos animais tem actualmente? Tenho à volta de cinquenta e tal fêmeas. Depois há os machos, os que vão saindo, os que ficam. Normalmente vendo um curro por ano. É uma fazenda pequena. Tenho de gerir conforme os anos, conforme a chuva, conforme o pasto. Há anos em que há pasto, outros em que é preciso comprar. E comprar palha, ração, tudo isso custa dinheiro. Ainda agora estou atrasado com contas de palha. Tenho corrido em várias praças, sobretudo nas menos importantes, mas sempre com o meu ferro e o meu nome. Estou a vender muitos animais por volta dos dois anos, para recriar, sobretudo para fugir aos custos da ração.
E ainda assim mantém essa paixão. Mantenho. Mas é uma paixão difícil, às vezes mal tratada pela realidade. A Quinta e a parte agrícola foram sempre a minha menina dos olhos. Tive insucessos, dificuldades, houve momentos em que quase não conseguia, mas fui equilibrando. Nunca fui uma pessoa de gastar dinheiro em luxos. Nunca toquei em dinheiro da Casa para ir fazer uma viagem ou para divertimentos. Não é que não me tenha divertido na vida, mas as responsabilidades da Quinta estiveram sempre primeiro.

“O Zé Álvaro é o meu campino, o vaqueiro, o meu braço direito”

Quem o ajuda no trabalho da ganadaria? O Zé Álvaro Alves. Ele é tudo: campino, vaqueiro, o meu braço direito. E é a terceira geração da família dele cá em casa.
É uma relação de confiança antiga. Muito antiga. E é preciso ter sorte. Sem uma pessoa de confiança era muito complicado. A tempo inteiro, com tudo o que isto exige, hoje seria quase impossível arranjar alguém. O Zé é esperto, aprendeu muito, tem a escola dos homens que trabalharam nas propriedades da família. Eu herdei do meu avô Joaquim uma tradição de gente ligada às vacas. Havia essa passagem de conhecimento. Eu aprendi com eles e o Zé também. O trabalho com gado bravo exige tempo, paciência, instinto. Não se aprende num manual. Aprende-se a ver, a fazer, a errar, a ouvir os mais velhos. O Zé tem isso. E eu valorizo muito.

“O 25 de Abril foi a prova de fogo da minha geração”

A sua juventude foi marcada pelo 25 de Abril. Tinha 18 anos nessa altura. Como viveu esse período? Foi uma prova de fogo. Antes disso até tive uma breve incursão na esquerda. Era jovem, estava em Lisboa, havia aquele ambiente propício. Ao princípio até gostei da ideia do 25 de Abril, como muita gente. Mas depois as coisas começaram a complicar-se.
Recorda-se de algum momento em particular? Lembro-me do 28 de Setembro. Vinha de Lisboa com minha mãe, e houve aquele ambiente de euforia, de manifestações, de grupos na rua. A Chamusca foi sempre uma terra onde me dei com toda a gente. Tenho amigos em todos os quadrantes. Não é a política que faz ou desfaz uma amizade, pelo menos para mim. Mas nessa altura havia uma espécie de delírio colectivo. Via-se que as coisas estavam a mudar muito depressa.
A família chegou a temer a nacionalização das propriedades? Sim. E a situação era difícil. A minha tia, irmã da minha mãe, ainda era viva e isso acabou por ter importância na pontuação da reforma agrária; salvou-nos da nacionalização. Também não fomos ocupados, em grande parte graças ao pessoal da casa, a pessoas como o Bernardino, o Zé e outros, que tiveram um papel importante. Nessa altura a família tinha feito investimentos pesados na plantação de vinhas. Foram seis anos de investimento. Metemos cerca de cinquenta e tal hectares de vinha. Isso custou uma fortuna e foi feito com crédito. Depois do 25 de Abril, a banca começou a pressionar muito. O Banco Totta na Chamusca foi um inferno. Andavam atrás das pessoas, havia uma pressão enorme. E aí venderam-se coisas.
Foi uma decisão precipitada? Não diria que foi apenas precipitada. Havia precipitação, claro, porque o ambiente era muito incerto, mas havia também pressão financeira real. As dívidas existiam, os investimentos tinham sido feitos, a banca apertava. É fácil olhar para trás e dizer que se devia ter feito de outra maneira. Na altura, com a informação e o medo que havia, as decisões eram muito difíceis.
Isso abalou a família? Abalou. O 25 de Abril abalou muita gente e muitas famílias. Mas também não quero fazer disso uma narrativa de vítima. Cada tempo tem as suas dificuldades. Nós tivemos as nossas.
Chegou a recorrer ao penhor de jóias da família para conseguir liquidez? Sim, foi uma forma de gerir. Infelizmente a Caixa Geral de Depósitos e o Montepio já não trabalham nessas áreas, o que é uma pena.
Estamos a falar de jóias muito antigas? Sim, jóias da família. Algumas estiveram no prego, algumas foram sendo recuperadas, outras ainda estão penhoradas. Fui fazendo muita ginástica para manter o que podia. Às vezes era mais simples do que andar atrás dos bancos a pedir dinheiro emprestado, com fiadores, impostos, papéis e mais papéis. Quando me pedem fiador, digo logo que não. Não gosto de pôr ninguém nessa posição.
Tem orgulho em ter conseguido aguentar parte desse património? Tenho, mas com muita consciência das falhas. Costumo dizer que sou o pior da geração. Talvez esteja a ser injusto comigo próprio. Fiz o que pude, mas gostava de ter feito mais e de ter segurado mais coisas. Ainda assim é importante ter mantido algumas coisas da família, não por vaidade, mas porque são memórias.
Identifica-se com o ditado popular que diz que uma geração cria, outra mantém e a terceira gasta? Não é bem assim. Esses ditados simplificam muito. Eu nunca toquei em dinheiro para luxos. A Quinta foi sempre prioridade. Tive e tenho uma vida regrada. Não quer dizer que não tenha vivido, mas havia sempre a responsabilidade da casa, da terra, dos animais. Isso nunca saiu da minha cabeça.
Sente que se fez a si próprio? Em parte, sim. Fui muito mimado em pequeno, é verdade, mas a partir dos 16 anos as coisas mudaram. O meu pai e a minha mãe separaram-se quando eu era pequeno. Eu lembro-me do meu pai, mas durante muitos anos quase não o vi. O meu avô acabou por ocupar muito esse espaço. Depois, aos 11 anos, o tribunal autorizou visitas e comecei a ver mais o meu pai. Mas a vida obrigou-me a fazer-me homem mais cedo.
Onde estudou? Em Lisboa. A minha mãe tinha casa na Lapa e vivíamos muito por lá. Entrei na Faculdade de Direito, mas aquilo era tudo menos Direito. Depois concorri à Católica e não entrei. Entrei na Universidade Livre, mas entretanto fui chamado para a tropa e já não continuei.
E começou a trabalhar em que área? Numa grande empresa na área das vendas. Comecei com clientes do Estado e depois fui ganhando experiência. Mais tarde acabei no marketing. Os chefes chegaram a mandar-me para Inglaterra para tirar um curso. Foi uma experiência muito boa.
O seu pai também o mandou estudar línguas para fora do país. Sim. O meu pai tinha muitos contactos e amigos. Aos 14 anos mandou-me pela primeira vez para a Irlanda, no Verão, para melhorar as línguas. Fui duas vezes para a Irlanda. Aos 16 fui para Inglaterra. Foram férias de estudo, aulas, diplomas. Fiz amizades que ainda hoje duram. Depois fui também para a Alemanha, estudar alemão.
E em 1975 voltou à Alemanha por causa da instabilidade política em Portugal? Sim. No dia 2 de Março de 1975 o meu pai mandou-me para a Alemanha. Tinha um amigo Almirante que lhe disse que estava na altura de mandar o filho para fora. Uma semana depois foi o 11 de Março. Estive lá cinco meses, mas depois disse que não podia ficar mais tempo, porque a minha mãe estava cá sozinha. Voltei.
O seu pai tinha ligações empresariais muito importantes? O meu pai, Augusto Gonçalves Sousa Coelho, era administrador da casa bancária Mendes Godinho. Era uma pessoa com contactos e com uma vida muito diferente da minha. Mas a minha vida acabou por ficar muito centrada aqui, na Chamusca e na Quinta dos Arneiros.

“A Chamusca já foi uma comunidade mais rica, mas pode voltar a sê-lo”

Disse que a Chamusca foi culturalmente mais rica do que é hoje. O que quer dizer com isso? Quero dizer que houve uma vida comunitária maior e mais rica. Havia mais figuras, mais iniciativas, mais discussão, mais vida associativa e cultural. Não estou a dizer isto para desprezar ninguém do presente. Mas sinto que a Chamusca já teve outra energia. Tinha pessoas com capacidade de puxar pela terra, de criar coisas, de deixar obra.
E o que falta hoje? Talvez falte massa crítica, mais gente a envolver-se, talvez falte tempo. As terras do interior, ou do Ribatejo mais rural, foram perdendo população, serviços, dinâmica. Mas isto não é definitivo. Pode voltar. Há jovens formados, há pessoas com vontade, há novas áreas de actividade. É preciso é que a ligação à terra não se perca.
Os seus dois filhos mantêm essa ligação? Mantêm. O meu filho está muito ligado à Quinta e à terra. Trabalhou, ganhou experiência, e vem cá todos os fins-de-semana. Quer tomar conta disto como já lhe contei.
Isso tranquiliza-o quanto ao futuro? Tranquiliza, porque uma casa destas não é só património. É continuidade. Não quero obrigar ninguém a nada, mas fico contente por ver a ligação. Se eles puderem pegar nisto com mais preparação, melhor. Eu fiz muita coisa por intuição, por necessidade, por paixão. Eles têm formação, têm outros mundos.
Quando olha para trás, o que pesa mais? Pesa-me não estar à altura de algumas coisas. Detesto sentir que não estive à altura. Normalmente tento não deixar que isso aconteça, mas há sempre a sensação de que podia ter feito mais. Mais pela Quinta, mais pela memória da família, mais pela Chamusca. Não é uma angústia permanente, mas aparece.
O nome Isidro dos Reis ainda abre portas ou traz mais responsabilidades do que vantagens? Traz sobretudo responsabilidade. Não quero viver do nome. O passado existe, mas não faz o trabalho por nós. E há uma coisa que me incomoda: responder por uma herança que não fui eu que construí. Tenho orgulho, claro, mas também pudor. Não quero parecer aquilo que não sou. Prefiro que me julguem pelo que fiz, mesmo com falhas.
Mas a sua vida e o seu trabalho já é uma forma de preservar essa herança. Talvez. Preservei o que consegui. Guardei papéis, mantive a Quinta, mantive animais, mantive a ganadaria, mantive algumas jóias e memórias. Não é pouco, mas podia ser mais. Às vezes as pessoas de fora pensam que isto é tudo muito bonito, mas não vêem as contas, as dívidas, a ginástica, a preocupação. A vida no campo, com uma casa antiga e uma ganadaria, é muito exigente.

Entrevista de JAE (ler crónica de Última Página que é uma continuação do trabalho editorial desta entrevista)

João Joaquim Isidro dos Reis na Quinta dos Arneiros - foto O MIRANTE

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