Tradições | 20-11-2023 10:50

Serranos, Campinos e Bairrões

Serranos, Campinos e Bairrões

Locais e Ambientes - Serra de Santo António. Pacíficos de condição, religiosos por hábito, que não por fanatismo ou obsessão, os serranos, a braços com tudo quanto a natureza ali aglomerou de mais agressivo e inóspito, foram, desde sempre, excessivamente amigos de trabalhar.

Locais e Ambientes - Serra de Santo António1

Pacíficos de condição, religiosos por hábito, que não por fanatismo ou obsessão, os serranos, a braços com tudo quanto a natureza ali aglomerou de mais agressivo e inóspito, foram, desde sempre, excessivamente amigos de trabalhar.

De rochas alcantiladas quantas vezes fizeram encosto para as suas cabanas primitivas; sem terrenos para cultivar, arrotearam, romperam as velgas e taliscas, rebentaram a pedra a tiros de pólvora seca, servindo-se da broca de mão e de lança, e, carreando terra de outros locais, a fim de encherem os espaços vazios, conseguiram cultivar magnificas covadas de chão que dá milho, como os melhores campos e várzeas, conservando o viço e frescor ainda no pino do mais ardente verão.

Não dispondo de uma gota de água que brotasse de qualquer engra da serrania, fizeram pias, cavando a terra nos declives das rochas, aproveitando as naturais anfractuosidades, aumentando as capacidades a picão, e a tiro, colocando-lhes peças nas roturas, a fim de obterem depósitos enormes, que lhes conservassem a água que do céu cai durante o inverno, para beberem, para dessedentarem os seus gados e ainda para regarem as suas hortaliças, que são das mais saborosas do nosso país.

Onde houvesse um espaço entre dois penedos, uma vaga fenda entre duas lagens, uma minúscula talisca entre duas rochas, conseguem espetar um tronco de oliveira, amparando-o com esteios de pedra de modo que o vento lho não abane, nem as cabras lhe roam os gomos, para terem, passados anos, mais uma oliveira a dar azeitona de que se faz o mais fino azeite da terra portuguesa. É o azeite da serra de Aire, celebrado por Bulhão Pato na sua receita de migas de bacalhau.

Dados à criação de gados, principalmente cabras, ovelhas, mulas e bois, os serranos supriam assim a improdutibilidade dos terrenos, quási maninhos, onde se estabeleceram, tornando-se, na sua pobreza, os mais ricos habitantes daquelas serranias, a ponto de tratarem de habitantes dos sertões os que moram lá mais para cima, para as serras de São Bento, ou mais para sul um pouco, nos matagais da Paiã.

Tiveram escola desde tempos muito antigos; tiveram sempre a sua missa dominical; construíram, à sua custa, um cemitério, as suas escolas, a sua igreja e as suas estradas, sem que o Estado contribuísse com uma de cinco para todas estas importantes obras; fizeram-se homens, emanciparam-se do poder civil e religioso de Minde, sua antiga freguesia, cresceram em bens e em cultura; começaram a embarcar para o Brasil e para a América; e, se os costumes quase patriarcais da sua aldeia se perderam, apagados pela esponja do tempo, aumentaram nos seus conhecimentos de gentes e terras distantes, modificando radicalmente a maneira de ser daquela terra, cujo pitoresco perdeu muito do seu antigo merecimento.

Os antigos lagares, uns oito se chegaram a contar ali, com as varas, ceiras, alguergues e tarefas, foram substituídos, de um momento para o outro, ganhando o azeite em quantidade o que perdeu em qualidade. E os transportes que dantes se faziam em carros de bois ou ao lombo de muares, já são feitos por carroças, não tardando estas a ceder o seu lugar às camionetas.

As velhinhas simpáticas, de pele enrugada e de cabelos brancos já não cantam, fiando na roda a sua lã, ou na roca as estrigas do linho brando, aqueles versos tão simples e suaves da Paixão do Senhor, porque tudo lhes entra pela porta dentro já fabricado e pronto para se vestirem.

E os velhotes que hoje vemos, em volta do sebento balcão da taberna, perpassando as cartas mais sebentas ainda, já não são os mesmos que, há 40 ou 50 anos, se entretinham contando aos filhos, à lareira, episódios da Patuleia, dos Franceses ou da guerra dos Miguéis, durante longos serões, findos os quais, cuspiam nas mãos e diziam, esfregando-as uma na outra: “–Vamos a dar graças a Deus, que são horas de ir à deita!”.

1 Escrito em Santarém em outubro de 1936, publicado na Revista Lusitana, Lisboa, Vol. 36, nº 1-4, 1938, pp. 73-167.

Luís Duarte Melo

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