Crónicas do Brasil | 13-09-2022 06:59

Independência ou Golpe?

Vinicius Todeschini

Bolsonaro encarna ( : ) o que existe de pior, carrega dentro de si as sementes do ódio contra as mulheres e os pobres e um ódio ainda mais virulento contra quem se opõe a ele e a sua ignomínia. Os seus seguidores conseguem muitas vezes superar o próprio líder e assim como descreveu Paulo Freire, em seu livro, “Pedagogia do Oprimido”, o capataz é ainda mais cruel que o patrão.

                Uma pergunta desta ordem deveria ser feita por cada cidadão brasileiro que assiste boquiaberto um grupo de milicianos sitiar o país, na mais acintosa tradição do fascismo e do nazismo. Bolsonaro e o grupo que lhe apoia estão ligados à tradição escravocrata que não consegue entender uma sociedade livre, onde existam condições fundamentais para todos, como acesso à saúde e à educação. Para eles o povo não é só um detalhe, mas uma excrescência social que deve ser controlada para não criar concorrências desnecessárias para os seus descendentes, que deverão herdar, segundo eles, o que conquistaram roubando e matando. O Brasil nunca superou completamente à escravidão e grande parte do povo oprimido ainda não acordou para essa dura realidade.

                O sete de setembro serviu para corroborar com mais barbaridades ainda, o estilo agressivo, misógino, machista, elitista desta franja que apoia o golpe. São claras as intenções desse grupo, querem tomar o país à força, porque, em quatro anos no poder, não conseguiram seus intentos de desconstruir a democracia, duramente conquistada e em formação no país. Em 21 anos de uma ditadura vil, que nos afundou em mais desigualdade e injustiças, os militares falharam em conduzir o país a uma situação melhor e o propagado milagre econômico, dos primeiros anos de regime militar, nada mais eram que fogos de artifício e não estrelas de brilho permanente no céu brasileiro. A tragédia que querem reviver em cima de um discurso sem sentido, negacionista e segregador é uma forma de tentar relembrar o que não aconteceu. Os carros caros com bandeirolas do Brasil são sinais de alerta que o país -em sua essência- ainda não mudou, pois, justamente os que deveriam dar exemplo em defesa da democracia, querem somente uma plutocracia sem nenhum risco de evolução para um real sistema democrático, que corrija as distorções e distribua as riquezas produzidas para que o povo se emancipe e saia desta miséria crônica, parando de reproduzir, através de gerações das mesmas famílias, ciclos infinitos de miséria e ignorância.

                Bolsonaro encarna, em sua estupidez e arrogância, o que existe de pior, carrega dentro de si as sementes do ódio contra as mulheres e os pobres e um ódio ainda mais virulento contra quem se opõe a ele e a sua ignomínia. Os seus seguidores conseguem muitas vezes superar o próprio líder e assim como descreveu Paulo Freire, em seu livro, “Pedagogia do Oprimido”, o capataz é ainda mais cruel que o patrão, mesmo tendo sido oprimido pelo mesmo patrão que agora defende. A Síndrome do Oprimido descreve exatamente esse processo e as ações das polícias brasileiras nas favelas, espalhadas em todas as grandes cidades deste país continente, onde os pobres são massacrados nos confrontos com os traficantes, só confirma isso. Quando um governante determina aos policiais que não ajam de forma predatória contra a população pobre, as mídias a serviço das elites criticam-no incansavelmente, assim foi com o ex-governador Leonel Brizola, execrado pelas elites por reconhecer o direito à posse para os habitantes dos morros do Rio de Janeiro, descendentes dos escravos recém libertos que ficaram sem moradia, depois da Abolição da Escravidão. O Brasil foi o último grande país a libertar os escravos. Nada é à toa. O Clã Bolsonaro representa o fim da democracia, o fim da justiça social, o fim da possibilidade de alguém ser respeitado, simplesmente, por ser um cidadão. O apoio de muitos empresários se dá em função da mesma prática, porque carregam dinheiro vivo para lá e para cá, evitando os impostos que deveriam pagar e aperfeiçoando esse velho mecanismo de corrupção e confirmando uma velha prática que continua contaminando todas as instâncias privadas e públicas do país.

                A oposição disputa uma eleição contra o que há de pior no Brasil, contra a cúpula da pústula que não se cansa de produzir mentiras e distorções -plenas de ódio- contra os que querem mudar o país para uma democracia plena e justa socialmente. Os fascistas estão nas ruas, porque agora não existem mais pruridos de se assumirem fascistas e defenderam o continuísmo velado da escravidão e dos privilégios. A comemoração da Independência foi usada por Bolsonaro para espalhar mais confusão, sobrando até para o presidente de Portugal, mas Marcelo Rebelo de Souza suportou o constrangimento de ficar ao lado de Luciano Hang, um dos mais virulentos bolsonaristas, investigado pela Receita e pela Polícia Federal, por se beneficiar de todas as formas do atual governo, de forma impassível.

Vinicius Todeschini 09-09-2022

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