Opinião | 04-10-2023 19:58

David contra Golias

Aeroporto Alcochete / ponte Chelas-Barreiro: O desmontar da feira (das vaidades) em 2010-2011

É preciso dizê-lo com toda a frontalidade. Foi a troika que salvou o país da vaidade do “sistema”

A cavalgada de projetos mirabolantes à escala e finanças do país − na gíria económica “exuberância irracional” – levou o país até à maior ponte do mundo. Para chegar mesmo ao topo da exuberância era apenas preciso um toque de magnificência.

E foi assim que surgiu o primeiro terminal asiático da Europa Ocidental em CT Alcochete. Com ele, éramos, finalmente, os primeiros em tudo: o maior aeroporto em área, o aeroporto mais distante do centro (por ferrovia), a maior cidade-aeroportuária, a maior ponte para lá chegar e, por fim, o maior terminal europeu por milhão de passageiros.

A ambição completamente satisfeita. Luxo asiático na Europa ocidental. Hoje parece inacreditável como se atingiu o pico mais alto da “exuberância irracional” ao mesmo tempo que o país entrava em bancarrota.

Depressa se descobriu que a ambição-vaidade era um (grande) saco roto

O estudo do LNEC foi, no âmbito e na forma, delineado pela dupla Matias Ramos-Rosário Partidário, qualquer deles sem conhecimento do negócio aeroportuário. A ligeireza (ou esquecimento) era a tónica na abordagem aos problemas ambientais e, no custo, os bolsos não tinham fundo, a dívida não era para pagar.

Vejamos o que veio a lume após a indicação do LNEC (equipa) a favor do aeroporto em Alcochete:

Afetava-se um vasto conjunto florestal com certificado ambiental e o maior aquífero nacional, reserva estratégica num futuro de secas extremas. O impacto de um novo campo de tiro de 7.500ha nem se conhecia (nem havia sítio).

Às contas erradas os portugueses já estavam habituados, o volume de terras triplicava, a drenagem da plataforma era muito mais avantajada e para chegar ao aeroporto na margem sul era preciso uma ponte gigantesca que não entrava nas contas do aeroporto.

A estação ferroviária (terminal) precisava de um ramal próprio e o corpo era subterrâneo. E o formato do luxuoso terminal aeroportuário não era adequado à separação do tráfego low cost do tráfego full service.

Tudo grande (ambição) e luxuoso (vaidade) e, o melhor de tudo, a dívida nem sequer era para pagar.

E depressa se descobriu que a ambição-vaidade era outro saco roto na defesa do país

O LNEC (equipa) “esqueceu-se” de colocar os custos e o prazo dos conexos projetos militares devidos ao uso civil do campo de tiro, o que o Estado Maior da F. Aérea teve de lhe lembrar (anexo AIA de CT Alcochete-dezembro 2010), citamos:

“compensará financeiramente a Força Aérea pela disponibilização do CTA, suportará os encargos com a desmilitarização e construirá o Terminal Militar no NAL. Os custos com a construção do novo Campo de Tiro, com as intervenções na BA6 e no CTA, serão suportados pela verba com que a NAER/ANA compensará a Força Aérea”.

E, citamos, “dotar as pistas 01-19 com as características físicas e as ajudas rádio à navegação aérea equivalentes às existentes nas pistas 08-26” e, ainda, “efetuar o prolongamento das pistas 01/19, para que as suas distâncias declaradas sejam semelhantes às das pistas 08/26”.

Foi preciso chegar a troika para se ver o caricato da ambição-vaidade do “sistema”

De repente, em vez de um mega pacotão com as maiores obras do mundo, bastava-nos uma solução dual com dois existentes aeroportos para atender a procura de Lisboa. E nada de mega ponte. Foi a sequência lógica da entrada da troika em 2012.

Aeroporto CT Alcochete: O que torto nasce, mal ou tarde (ou nunca) se endireita

Episódio 3: O primeiro-ministro José Sócrates – o mentor de CT Alcochete – arquitetou um “sistema” de falta de imparcialidade cujos tentáculos se estendem até ao presente

O “sistema”, para operacionalizar a vontade do mentor, focou-se na fase embrionária em que os critérios são maleáveis, as métricas enviesáveis e se pode lançar “palpites” para a fogueira, de modo a disfarçar a falta de imparcialidade. Principalmente, nada de empresas internacionais com expertise do assunto.

O LNEC, sem expertise aeronáutica, foi, pasme-se, a entidade escolhida por José Sócrates para o estudo de uma grande HUB intercontinental para Lisboa

Sem recursos humanos para o cerne do estudo, o diretor do LNEC foi, à pressa, buscar os assessores “teóricos” que estavam mais à mão. Para o modelo-referência do aeroporto, foi ao “Ministério do Ambiente, do Ordenamento do Território e Desenvolvimento Regional” e para critérios decisórios foi buscar Rosário Partidário ao IST-departamento de engenharia civil e arquitetura porque, o que ele (Matias Ramos) queria para o estudo , citamos a própria, “só ela em Portugal podia dar”.

O que significa que, “à portuguesa”, as traves-mestras da decisão de um grande HUB intercontinental ficaram a cargo de conhecidos, nenhum com expertise do negócio aeroportuário.

A falta de imparcialidade metodológica estendeu-se às estruturas corporativas

A tarefa do LNEC (equipa) devia ser equidistante. Era um comparativo entre soluções de outrem. Mas não foi assim, estabeleceram-se critérios decisórios que levavam à decisão que o mentor-mor (José Sócrates) queria.

O diretor do LNEC, que devia ser o isento juiz entre duas soluções em compita, projetou-se na comunicação social como o pai (adotivo) da solução de outrem. E, pior ainda, saltou logo a seguir para bastonário da Ordem dos Engenheiros (período 2010-2016), onde não foi imparcial; é público o seu apoio a Alcochete.

O que significa que, de 2007 a 2016, um acérrimo defensor do HUB CT Alcochete esteve à frente das duas mais relevantes estruturas corporativas da engenharia nacional o que, inevitavelmente, acabou por condicionar as direções seguintes, que se viram de algum modo coagidas a prosseguir o apoio.

David contra Golias: É contra o poderoso “sistema” que não quer perder a face (mesmo que isso signifique para o país um sobrecusto superior a dez mil milhões de euros) que o HUB Alverca-Portela se posiciona. É uma vez mais “David contra Golias”.A razão contra a força.

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