Opinião | 19-01-2024 16:57

Tancos, o cais da discórdia

Tancos é uma localidade modesta, mas com um passado de que muito se orgulha.

Possui um importante património edificado de que se destaca a Igreja Matriz, a Igreja da Misericórdia e a Capela de N Sr.ª da Piedade. Mas, para além do património religioso, tem ainda um outro – o seu enorme cais - que constitui uma importante mais-valia, outrora do ponto de vista comercial e hoje do ponto de vista histórico, patrimonial e paisagístico, não apenas pelos vetustos muros que o enquadram – ruínas dos antigos armazéns que apoiavam a febril atividade do seu porto – mas também pela deslumbrante vista sobre o Castelo de Almourol.

Consciente do valor desse património, a Câmara Municipal classificou o cais de Tancos como património municipal, ainda que tal classificação tivesse sido muito restrita, abrangendo apenas o cais, cujo valor histórico é incontestável, mas não incluindo nessa classificação as estruturas envolventes que lhe deram vida e que estão materializadas nos muros dos antigos armazéns do Cais de Tancos.

Contudo, mais do que proteger o cais, que não está ameaçado, importa proteger todo o conjunto constituído pelo cais, pelos muros dos antigos armazéns e pelo património paisagístico do local, que é único e que, sem essa proteção pode ser irremediavelmente comprometido.

Daí que a população de Tancos ande apreensiva quanto à possibilidade de esses interesses patrimoniais e paisagísticos poderem vir a ser lesados irremediavelmente com a possível construção de uma moradia com 1º andar a sobressair dos muros em causa e a provável destruição parcial de muros para acesso a uma garagem.

Curiosamente, o Município de Vila Nova da Barquinha foi pioneiro na criação de Planos de Proteção e Salvaguarda das suas zonas históricas, nomeadamente de Tancos, um interessante instrumento de proteção do património e de planeamento urbanístico, que definia detalhadamente, caso a caso, o tipo de construção que se podia fazer dentro desse perímetro urbano. Era um documento exigente e que, segundo alguns, espartilhava em demasia as possibilidades de recuperação do património edificado, contribuindo supostamente para o desinvestimento local por parte de privados. Daí que o mesmo tenha sido revogado, recentemente sem ter sido construída uma alternativa que minimizasse os seus inconvenientes, abrindo assim a porta à possibilidade de atentados urbanísticos.

Tendo presente essa revogação a Câmara Municipal, através do seu Presidente, pessoa ligada às questões da história local e do património, pode dizer agora com toda a propriedade que, neste momento, “o prédio em questão não está limitado por qualquer direito natural, legal, normativo ou regulamentar”[2].

E nem o facto de a aprovação pela DGPC estar condicionada “à realização de diagnóstico arqueológico” sossega a população porque, na sua curiosidade natural, as pessoas não deixaram de se aperceber que as sondagens arqueológicas estão a desvendar, a profundidades diversas, mas ainda acima do nível do cais atual, a existência de estruturas, de pisos empedrados, de zonas lajeadas, etc. que poderão ser importantes para a compreensão daquele sítio histórico e que ameaçam ser destruídas se a edificação for avante nas condições previstas.

E, quem conhece a história do Cais de Tancos, sabe que abaixo do cais atual existirá um cais manuelino, o que significa que as sondagens que estão a ser feitas não poderão/deverão parar a nível do cais atual, mas ir mais fundo para revelarem a história do local.

Acresce que aquele porto e cais está situado numa zona envolvida por sinais da presença romana – embasamento do Castelo de Almourol e um letreiro existente neste; os vestígios de uma villa na Quinta do Arripiado de Baixo – local fronteiro, do outro lado do Tejo - e as ruínas de uma outra possível villa descoberta pelo autor em 1992, na Quinta da Lameira/ Pedregoso, nas proximidades de Vila Nova da Barquinha [3], pelo que não constituiria grande surpresa se o aprofundamento das sondagens nos viessem a revelar novos dados de interesse no tocante à presença romana.

Por tudo isto, este caso deverá merecer um cuidado especial por parte da edilidade e das entidades que tutelam o Património, pois salvaguardar tanto pode passar por proibir ou condicionar (como, por exemplo: exigir a manutenção dos muros ou o afastamento da zona a edificar acima dos muros, a uma certa distância destes, bem como determinadas caraterísticas da construção que não choquem com o edificado atual), como por criar alternativas ou conservar o que existe noutras condições.

Exige-se, pois, um diálogo franco e aprofundado entre todos os intertessados (Câmara Municipal, Junta de Freguesia, DGPC, proprietário do terreno e a denominada Associação do Património de Tancos), por forma a encontrar a melhor maneira de conciliar os interesses em presença.

O Sr, Presidente da Câmara, pessoa que considero, certamente que estará a cumprir o seu último mandato e, dependendo da sua ação, poderá ficar recordado como o edil que abriu irremediavelmente as portas à destruição desse património histórico-cultural e paisagístico de Tancos ou como o autarca que teve a visão do que isso representa para a população e lançou as bases para um espaço-memória do passado do cais de Tancos.

A História nos julgará!

Júlio Manuel Pereira[1]


[1] Mestre em Pré-História e Arqueologia, investigador de História Local

[2] MedioTejo Net de 9/1/2024

[3]PEREIRA, Júlio Manuel (1992) – Finalmente…Descobertos Indícios da Presença Romana no Concelho – in O Biface, nº 1, folha de divulgação policopiada. novembro – Núcleo de Arqueologia de Vila Nova da Barquinha.

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