Opinião | 14-02-2026 15:14

Alice Pestana (a Caëil): cinco vezes nada?

Alice Pestana (a Caëil): cinco vezes nada?

Se o único Nobel das letras lusas ficou mal impressionado com Santarém, Alice Pestana, aparentemente não teve tempo para tanto. Terá dito, já em Madrid, tal qual Mário Viegas, “ator do mundo”, “Santarem buena madrasta, mal madre?”. Talvez não. Nunca renegou ou omitiu Santarém, por pouco amor que tivesse. Saiu do burgo, seguramente antes dos cinco anos, não tendo notícia de ter voltado à “cidade com as pessoas todas dentro de si próprias”.

“Recusar a qualquer desculpa” assim escreveu José Relvas de um atraso de meses na correspondência. Mais uma vez recorre o escriba a essa adágio porque no que toca a crónicas a disciplina se lhe escapa, entre afazeres académicos, profissionais e o dia-a-dia familiar. Já nos contava Carlos Amado, mentor museológico deste aprendiz de cronista, pintor mão cheia, as confidências de “Mestre Marinho”: “perdemos demasiado tempo no doméstico”. Quebrando as juras e os evangelhos, fica a promessa de aqui falar desses e de outros pintores(as) de Santarém.

Em texto rápido, voltamos à bela, já dada à estampa aqui em O Mirante, em crónica onde se evocava Saramago. Se o único Nobel das letras lusas ficou mal impressionado com Santarém, Alice Pestana, aparentemente não teve tempo para tanto. Terá dito, já em Madrid, tal qual Mário Viegas, “ator do mundo”, “Santarem buena madrasta, mal madre?”. Talvez não. Nunca renegou ou omitiu Santarém, por pouco amor que tivesse. Saiu do burgo, seguramente antes dos cinco anos, não tendo notícia de ter voltado à “cidade com as pessoas todas dentro de si próprias”.

Se Alice não voltou a Santarém, pode Santarém voltar à Alice? No modesto entender do historiador que aqui vos fala, pode e deve.

Recordemos, para quem não viu a palestra de 4 de fevereiro último no Centro de Investigação Professor Doutor Veríssimo Serrão (CIJVS), nem neste jornal leu o texto já aludido. Alice Pestana, natural de Santarém, nasceu em 1860, dedicou-se às letras, à pedagogia e à paz. Escritora, professora, cronista e jornalista, veio a casar aos 42, com Pedro Blanco e a rumar a Madrid. Aí, fez carreira na educação, ligada ao movimento da “escola livre” de inspiração krausista. Militante da educação feminina como motor do desenvolvimento, ainda na monarquia estudou as escolas secundárias europeias a pedido do governo português. Financiada por instituições espanholas estudou as reformas republicanas do ensino em Portugal, naturalmente, já depois de 1910. Dedicou-se, sobretudo depois de 1914, às “crianças delinquentes”. De modo a que essas não fossem tratadas por criminosas e ao invés com crianças, sendo reabilitadas pelo poder da educação. Fez parte de uma geração europeia a julgar possível abolir a guerra, pontuada por Sebastião Magalhães Lima, primeiro português a ser nomeado para o Prémio Nobel da Paz.

O historiador Miguel Mochila, na Universidade de Puerto Rico, dedicou-lhe artigo, cujo título é um trocadilho: “quatro vezes nada uma escritora, portuguesa, feminista em Espanha”. Acrescentámos “escalabitana”, cinco vezes nada? A resposta só Santarém, de que dizem ter nome de mulher, pode dar. Reitera o escriba a proposta de renomear a Escola Básica do Pereiro, por Escola Básica Alice Pestana. Aliás, quantas mulheres temos na toponímia?

Reconhecida em vida em Portugal e Espanha nos círculos académicos, foi das mais populares autoras de ficção da sua geração sob o pseudónimo Caïel. Aproveitamos a oportunidade para publicar aqui uma carta inédita a Albino Forjaz Sampaio, por nós adquirida no Kronosbazar (Caldas da Rainha) e voltar a agradecer ao Manuseado, alfarrabista de Santarém, que nos “desvendou a bela Alice”.

P.S.: Ao investigador procurámos saber se Alice Pestana também tinha sido nomeada para o Prémio Nobel da Paz. A Academia Nobel só divulga os nomeados passado 50 anos, até ao momento só se conhecem dois portugueses, para além de Magalhães Lima, o Movimento das Forças Armadas (MFA) foi nomeado em 1975.

“Carta de Alice Pestana a Albino Fojaz Sampaio”

[fl. 1] Madrid, 11-10-904

Hortalesa, 85

“Excelentíssimo Senhor / Li de um folêgo o interessante folheto que Vossa Excelência teve a bondade de enviar-me.

Os dias passam-me vertiginosamente no meio de muito trabalho. Por absoluta falta de tempo não enviei já os meus agradecimentos, porque desejava acresentar algumas palavras com as minhas impressões.

Não conhecia o [fl. 1v.] soneto de Vossa Excelência. Li-o agora vários vezes e gostei. / Não posso avaliar da versão sueca e allemã por não conhecer os idiomas. Todas as outras me parecem muito inferiores ao original, preferindo, ainda assim, a inglesa. Todas peccam nos tercetos a parte mais difficil. Nenhum desses arremedos tem nos tercetos principalmente no último, a graça, e espontaneidade da original.

Acceite Vossa Excelência os mais vivos agradecimentos [fl. 2] por oferta tão delicada e apreciável e queira dispôr do limitado prestimo sou(?) de Vossa Excelência (?) agradecida / Alice Pestana”

Ref.ª:

José Raimundo Noras, “Alice Pestana, aliás Caïel, a “santarena adormecida”, em O Mirante, 10/11/2023, disponível em linha em: https://omirante.pt/opiniao/2023-11-10-Alice-Pestana-alias-Caiel-a-santarena-adormecida-17f04afc

Miguel Mochila, “Alice pestana, cuatro veces nada una Escritora Portuguesa Feminista en España” disponível em linha: https://doi.org/10.5944/rei.vol.11.2023.38142

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias