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Inenarrável Manuel Serra D’Aire

Edição de 04.12.2002 | E-mails do outro mundo
Tens razão quanto ao baile que os nossos políticos nos têm vindo a dar, de que estamos de tanga, de que não temos dinheiro para mandar cantar um cego e não sei quê e não sei que mais. Se essa treta fosse verdade não tínhamos dos maiores centros comerciais da Europa, não teríamos vilazecas do interior com dois e três supermercados e não veríamos tanto automóvel novo topo de gama nas nossas auto-estradas. Muito menos teríamos um seleccionador nacional de futebol a ganhar 35 mil contos por mês ou vedetas de televisão pagas a peso de ouro.Esses sinais não enganam meu caro. Em Portugal vive-se bem, trabalha-se para a engorda, arrota-se de satisfação. Basta aliás ver como os nossos políticos se fazem pagar pelos relevantes serviços que nos prestam e que lhes dão direito a chorudas reformas após uma dúzia de anos de serviço. Isso sim é que é vida. Aliás, e se as coisas fossem bem feitas, alguns deles deviam ser reformados logo após um ano de trabalho. Era calçar-lhes os patins logo que víssemos a trampa que nos haviam saído, mesmo que lhes tivéssemos de pagar o ordenado só para ficarem longe da coisa pública.Mas há excepções, meu caro. É o caso da presidente da Câmara de Salvaterra de Magos, que para além da merecida reforma a que terá direito daqui a uns anos devia estar já a receber um subsídio de risco, tantas são as ameaças a que está sujeita. Depois de ter sido agredida há anos atrás à porta da câmara por desconhecidos que fugiram a coberto da noite, a bloquista, ex-comunista e ex-dissidente do PCP Anita ia agora levando uma trepa de um grupo de ciganos que não gostou de ficar sem a barraca onde teriam montado negócio.Anita poderia mesmo dizer: “O perigo é a minha profissão!”, tantas são as alhadas em que se mete. Aliás, se tivesse um pingo de imaginação e amigos com olhinhos já tinha aproveitado a boleia para lançar mais uma série das célebres histórias da Anita - que fizeram e fazem as delícias de muita criançada – mas agora só para adultos. Com títulos do género: “Anita desancada à porta da câmara”, “Anita barricada no gabinete”, “Anita e o Bloco de Esquerda”.Seria mais um contributo para aumentar o nosso nível cultural, que aliás já pede meças ao de qualquer outro país europeu. Já reparaste que se ouve Beethoven, Verdi ou Vivaldi um pouco por todo o lado: nas tascas, nos campos de futebol, nas assembleias gerais do Benfica, na missa, nas casas de striptease, nos quartéis da tropa, nas repartições públicas. Estamos muito mais cultos, sem dúvida, desde que inventaram esses toques para os telemóveis a que os portugueses aderiram com a vertigem habitual. E a taxa de leitura também subiu imenso. Hoje lê-se em todo o lado, mas sobretudo no trabalho, o que mostra que afinal os portugueses não são os grunhos de que se fala. Desde que a internet e os telemóveis existem, a circulação de mensagens estapafúrdias e de anedotas terá levado mais portugueses a ler do que a leitura obrigatória de Os Maias ou de Os Lusíadas no ensino secundário. E ainda temos aquelas notas de rodapé nos telejornais que são um óptimo exercício. Só falta mesmo as histórias da Anita, que eu nem me importo de escrever. Afinal de contas, se até o Toni e o Jardel já têm direito a livros...Saudações literárias do Serafim das Neves

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