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Paulo Caldas não justificou publicamente a sua decisão

Caído em desgraça

Presidente do Cartaxo retira confiança política a vereador do seu partido

Sem qualquer explicação, o presidente da Câmara do Cartaxo, Paulo Caldas (PS), retirou ao vereador do seu partido, Augusto Parreira, os pelouros que lhe tinha confiado, pondo fim à sua situação de vereador a tempo inteiro. O visado pela medida não aceitou bem a decisão e acusou o líder da autarquia de não ser homem de palavra e de ter dupla personalidade. Os dois vereadores da oposição solidarizaram-se com o socialista caído em desgraça.

Edição de 26.02.2003 | Política
O presidente da Câmara do Cartaxo, Paulo Caldas (PS), retirou a confiança política ao vereador do mesmo partido, Augusto Parreira, sem adiantar os motivos que o levaram a tomar essa atitude.Na última reunião de câmara, que decorreu na segunda-feira à tarde, Paulo Caldas informou apenas que retirava as competências que tinha delegado ao vereador há um ano e dois meses. Sem dar qualquer esclarecimento, alegando tratar-se de “uma questão interna”, Paulo Caldas disse sentir “apreço pela forma honesta” como o vereador “sempre exerceu a sua função em prol do desenvolvimento do concelho”.O vereador exigiu que o presidente explicasse os motivos que o levaram a ter esta atitude, garantindo não existirem razões objectivas para o afastamento. “Eu, o executivo e a população precisamos saber a verdadeira razão que esteve na base da sua decisão, até mesmo para que não surjam boatos lançados por pessoas próximas de si, como aqueles que já ouvi. Com a credibilidade e honra das pessoas não se brinca”, afirmou.O vereador pediu ainda que ficasse claro se “a decisão teve a concordância de todos os membros do executivo”. Questionou ainda Paulo Caldas sobre o porquê do interesse na sua situação na Caixa Geral de Aposentações. “Foi o senhor ou alguém mandado por si que ilegalmente, sem a minha autorização, andou a vasculhar a minha vida privada?”, interrogou.Augusto Parreira disse ainda que Paulo Caldas lhe terá proposto a reforma, adiantando que nunca aceitaria reformar-se como autarca. “Entrei para a política para defender princípios e valores, porque gosto da intervenção pública e da minha terra. Não estou na política por interesse”.No discurso manuscrito, Augusto Parreira teceu ainda duras críticas que o autarca socialista se escusou a rebater. “Ao longo destes anos em que cumpro por vontade popular as funções de vereador, tive oportunidade de trabalhar com presidentes de grande dimensão humana, competência, democratas e verdadeiros socialistas como Conde Rodrigues e Francisco Pereira. São homens de palavra, que honram e sempre honraram os seus compromissos. Pensava que com o actual presidente se verificasse o mesmo, mas enganei-me”.O vereador falou ainda sobre a dedicatória feita no livro escrito pelo autarca em que Paulo Caldas demonstrava acreditar no trabalho de Augusto Parreira. “Vejo agora que era tudo falso. Como é que consegue manter esta dupla personalidade? O senhor presidente não pode gerir a câmara com caprichos e estados de espírito”, disse. OPOSIÇÃO SOLIDÁRIAOs dois vereadores socialistas presentes na reunião de câmara, Pedro Ribeiro e Elvira Tristão, que viram agora as suas competências redobradas, escusaram-se a comentar a decisão do presidente da Câmara.Os vereadores da oposição, Luísa Pato e Vasco Cunha (PSD), mostraram-se solidários para com o vereador socialista.Vasco Cunha classificou o sucedido como “a mais grave crise política que alguma vez sucedeu no concelho”. O vereador social democrata questionou ainda a atitude do presidente que retirou a confiança política a alguém que a tinha merecido algum tempo antes. “O que faz sentido em determinada altura deixa de fazer sentido um ano depois sem que sejam adiantadas as razões”, criticou.Em comunicado a Comissão Concelhia do PSD do Cartaxo considera a atitude como um “acto autocrático” que “desprezou as mais elementares regras democráticas de explicação à oposição, à opinião pública local e ao vereador em causa”.A vereadora Luísa Pato manifestou também o desagrado pelo facto de não ter sido apontada qualquer razão para o sucedido. “Conte com solidariedade, não política, mas como mulher que anda na política”, afirmou.Augusto Parreira exercia funções de vereador a tempo inteiro na autarquia há cerca de dez anos. O vereador detinha até aqui os pelouros da divisão de águas e saneamento, freguesias, Bombeiros e Protecção Municipal, mercados e feiras e serviços de higiene.Augusto Parreira disse ao nosso jornal que irá manter a sua função de vereador sem pelouros porque a população assim o quis. A partir de 17 de Março, altura em que cessa funções como vereador a tempo inteiro, irá retomar a sua actividade como professor efectivo de ensino especial na escola de Vialonga.ComentárioOlha que pena!Na última reunião do executivo da Câmara Municipal do Cartaxo verificou-se uma situação que parece insólita. O presidente da autarquia, Paulo Caldas, resolveu anunciar a retirada de pelouros a um vereador do seu partido e não adiantou explicações. Augusto Parreira era vereador a tempo inteiro e a partir de Março vai ocupar o lugar para que foi eleito sem qualquer remuneração ou pelouro especial.Quando se esperava que o vereador em causa viesse dar explicações para o sucedido, já que quem lhe retirou os pelouros não quis adiantar as razões, eis que a vítima, num discurso escrito, resolve perguntar, em público, ao seu presidente, o que certamente já lhe teria sido respondido em privado. É evidente que Augusto Parreira perdeu a confiança politica do seu presidente e camarada de partido. Quem resolve apear assim um vereador a meio da caminhada só pode ter uma explicação: o homem não cumpriu os seus objectivos, está a mais na equipa, vamos pô-lo a andar para o substituir o mais rápido possível por outro eventualmente menos cansado e com mais vontade de mostrar trabalho.Augusto Parreira, a vítima, surpreendeu tudo e todos fazendo aquilo a que se chama a figura de anjinho. O seu líder acabava de anunciar um grande disparate e ele queria ser o primeiro a ouvir da sua boca as razões para o despedimento anunciado.Quem conhece o presidente da Câmara do Cartaxo sabe que ele disse, com certeza, palavra por palavra a Augusto Parreira, os motivos da retirada dos pelouros. Se Augusto Parreira tinha alguma coisa a dizer da injustiça do acto devia aproveitar a reunião para puxar pelos galões e não para se fazer de vítima. Afinal ele vai continuar no lugar de vereador com a confiança política do seu presidente.Paulo Caldas, o líder, cumpriu o seu dever. Só há uma razão para mudar a equipa a meio do jogo. Cada um que tire as suas conclusões. Augusto Parreira não soube aproveitar a ocasião para dizer preto no branco o que a gente sabe que ele sabe. E foi pena. JAE
Paulo Caldas não justificou publicamente a sua decisão

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