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Preparar um espectáculo de teatro é um autêntico “Episódio da Guerra”

Preparar um espectáculo de teatro é um autêntico “Episódio da Guerra”

Grupo Cénico da Casa do Povo de Pontével encena peça de Marcelino Mesquita

Um grupo de amadores luta com as armas possíveis e impossíveis para levar à cena mais uma produção.

Edição de 02.05.2007 | Cultura e Lazer
A porta está entreaberta. Quem conhece os cantos à casa percorre o pequeno corredor e vai ter à velha sala de espectáculos. As cadeiras sobrepostas em filas, lado a lado. As estruturas metálicas da última peça ainda permanecem no palco de madeira, mas nas mãos dos actores do Grupo Cénico da Casa do Povo de Pontével, Cartaxo, está já um novo guião do espectáculo: “Um Episódio da Guerra” de Marcelino Mesquita. Não foi ao acaso que o grupo escolheu um dramaturgo natural do concelho. No ano em que se comemora o 150º aniversário do autor, o grupo presta-lhe homenagem com a peça que encerra a 2 de Junho o Festével – o 3º Festival de Teatro de Amadores do Concelho do Cartaxo (ver texto ao lado).É uma comédia em um acto escrita propositadamente para ser representada numa récita de beneficência realizada no Pinhal de Azambuja durante a primeira guerra mundial (1914-1918). A peça foi respigada de um baú de conteúdos do grupo que em 1996 levou o espectáculo à cena. Na altura o problema do guarda-roupa ficou resolvido com umas quantas fardas sem uso da GNR e PSP. Ainda o actual encenador não integrava o grupo. Onze anos depois essa é a grande dor de cabeça de Carlos Santos, supervisor de enchimento de gás na CLC. “Pedi ao arquivo e museu da GNR que nos emprestassem as fardas, mas remeteram-me para o chefe de estado-maior. Isso está fora de questão. A resposta iria chegar depois da peça”, diz o encenador.Os adereços estão quase resolvidos. Graças aos bombeiros. Com boa vontade os capacetes de gala dos soldados da paz fazem lembrar os adereços dos soldados. O tempo curto é o maior inimigo do grupo que vive da disponibilidade de quem tem outros trabalhos. A agravar a situação o grupo está em digressão com a peça “A Birra do Morto”, já distinguida este ano com o prémio de melhor encenação. Recorrer a esta altura à costureira seria impossível. Porque tempo e dinheiro são coisas que não abundam.O elenco sobe ao palco. Cozinha e casa de jantar de uma casa de campo. O cenário é simples. Um capitão prussiano, um sargento e dois soldados. Hoje os homens são em número suficiente no grupo e não será preciso recorrer a mulheres para perfazer o número de soldados necessários à peça. Como aconteceu em 1996. Rosália Vieira, 49 anos, funcionária da escola do 1º ciclo, integrou o elenco de então e quase nem se reconhece na foto que transformou a actriz loira num soldado cinzentão de bigode. No grupo há pessoas de todas as idades e profissões. Desde o operário fabril que trabalha por turnos até à planeadora de meios e web designer. Daniela Campino e Tiago Vintém, 22 anos, trabalham em Lisboa. “Chegamos cá e esquecemo-nos de tudo o resto”, confessam os namorados, unidos no espectáculo e na vida real. Nem os horários trocados são razões para desistir. “Quando entro à meia-noite vou daqui directamente para o trabalho”, confidencia Paulo Calisto, 31 anos, operário fabril que tal como a mulher também escolheu o teatro como terapia. Integram também o rancho folclórico. Como a grande maioria dos amadores do grupo desdobram-se pelas associações da terra. Filomena Calisto, 52 anos, membro do coro, do grupo folclórico e do teatro, costuma cruzar-se com o marido à porta de casa nas alturas de maior intensidade artística. O companheiro, motorista de profissão, é quem muitas vezes fica com o sogro e o acompanha à cama enquanto Filomena está nos ensaios. “Desde que deixe comida preparada fica tudo bem lá em casa”, diz a actriz amadora.
Preparar um espectáculo de teatro é um autêntico “Episódio da Guerra”

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