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O pintor de construção civil desiludido com os calotes

Há um ano Alexandre Oliveira decidiu estabelecer-se por conta própria

Deixou a escola aos 14 anos porque queria “ganhar dinheiro”. Hoje é pintor da construção civil, trabalha por conta própria e acredita que a Festa dos Tabuleiros é que vai salvar o ano.

Edição de 02.05.2007 | Identidade Profissional
Alexandre Oliveira passa a lixa com afinco sobre a madeira do balcão. Com o pincel retira o pó e prepara o verniz que irá dar o toque final à peça. Trabalhar com celulosos e sintéticos (vernizes) é o que o pintor da construção civil, residente em Tomar, menos gosta de fazer. “São produtos muito tóxicos”, justifica.Largou os livros escolares há 16 anos, quando acabou o então segundo ano do ciclo (hoje sexto ano de escolaridade) porque queria ganhar dinheiro e não gostava muito de estudar. Um vizinho dos pais conseguiu-lhe o primeiro emprego, em artes gráficas. Durante três anos trabalhou na composição de jornais numa tipografia de Tomar, numa altura em que ainda se trabalhava com chumbo. “Eu é que derretia o chumbo numa máquina que depois ia servir para fazer as letras”.Ao fim de três anos decidiu enveredar por outros caminhos, porque o dinheiro era pouco ao fim do mês. Sem medo de “dar no duro” foi para a construção civil, como servente de pedreiro. Muitos dos tijolos que compõem hoje os edifícios do Instituto Politécnico de Tomar foram levados por ele. Mas ainda não era bem aquilo que Alexandre pretendia e pouco, depois, experimentou a pintura de casas.Foi contratado por uma das maiores empresas de Tomar que estão no sector e foi através dela que conheceu grande parte do sul do país. Começou por pintar escolas no Gavião e em Portalegre. “Em Portalegre pintei 18 escolas, acho que pintei todas as que existiam no concelho”. Nunca mais largou a profissão que, apesar de não ser também “pêra doce”, é menos desgastante do que a construção civil. No concelho de Loures trabalhou numa urbanização “maior que a cidade de Tomar”, a pintar interiores e exteriores. Na altura dormiam nas garagens dos prédios, “em qualquer barraca”, muitas vezes sem as mínimas condições. Mas no Alentejo e Algarve o patrão alugava já apartamentos para os funcionários e as refeições eram feitas em restaurantes, a custas do empregador.Pintar não é chegar, passar o rolo pela tinta e fazê-lo rolar numa parede. Primeiro tem que se lavar toda a zona a pintar, com uma máquina que injecta água a pressão para retirar restos de tinta e sujidade. Depois passam-se as paredes com a chamada tinta primária, cujo objectivo é fazer o isolamento de modo a protegê-las de fungos e algas. Só depois se dá o acabamento final, que pode levar várias demãos de tinta, dependendo do estado das paredes e da cor que o cliente pretende. Entre cada demão há que respeitar também o tempo de secagem da tinta.Há cinco anos Alexandre tirou um mini-curso (seis meses) de pintura e decoração em Lisboa e há um ano decidiu estabelecer-se por conta própria. “Já andava farto de correr o país”, diz. Não se arrepende mas considera que o negócio está fraco. “A crise é geral, afecta todos os sectores”. Além disso há que contar também com “os calotes”, já que algumas pessoas demoram “algum tempo” a pagar o serviço.O pintor da construção civil tem no entanto boas perspectivas de negócio para este Verão. Por causa da Festa dos Tabuleiros. “Vêm milhares de pessoas a Tomar e as pessoas querem ter as suas habitações bonitas. E há muitos residentes que têm nessa altura convidados e uma casa pintada fica sempre mais bonita”, diz Alexandre, adiantando que na última festa, há quatro anos, trabalhou o mês de Junho quase de sol a sol. “Espero que este ano também assim seja. Aliás, devia haver todos os anos Festa dos Tabuleiros”. Se não conseguir equilibrar as suas contas até final do Verão, Alexandre diz que irá dedicar-se a outra coisa por uns tempos, para ganhar dinheiro. “Nem que seja a conduzir camiões de longo curso”.

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