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“Às vezes apetece-me tirar o espartilho da política para lutar por coisas que considero importantes”

“Às vezes apetece-me tirar o espartilho da política para lutar por coisas que considero importantes”

José Alho, vice-presidente da Câmara de Ourém e ex-dirigente da Quercus diz-se desiludido com a passagem por cargos públicos

Está empenhado na gestão da Câmara de Ourém e promete não dar tréguas a quem quiser destruir o ambiente. Ex-militante da Quercus conta que aceitou ser director do Parque Natural das Serras d’Aire e Candeeiros quando os seus companheiros o “afastaram”. Reconhece que alguns deles se venderam e jura que não lhes seguirá o exemplo. Considera que o Monumento das pegadas de dinossauro, que custou uma fortuna, não serve para nada.

O processo do IC9 é muito contestado. Provavelmente o José Alho da Associação Ambientalista Quercus já tinha ido para a frente das máquinas. No entanto o autarca socialista manteve-se calado e só agora é que aparece a acenar com a ameaça de uma providência cautelar. Não se trata de uma situação de ir para a frente das máquinas. Temos que ser realistas. Não estamos a falar de uma área natural. No concelho de Ourém o traçado não passa por terrenos com esse valor. O IC9 não é mau, até porque tira o trânsito de pesados da cidade. O que está em causa tem a ver com questões simples relacionadas com o facto de o PDM obrigar a que existam passagens com oito metros de largura e o consórcio que está a construir o itinerário, por teimosia absurda, insiste em fazer túneis ou passagens com cinco metros. Em 2003, era então presidente da Liga para a Protecção da Natureza, denunciou a contaminação dos aquíferos do parque natural das Serras d’Aire e Candeeiros pela auto-estrada. Já conseguiu resolver a situação?O MIRANTE fez uma primeira página dessa situação e a única visibilidade que houve dessa notícia e das intervenções que tive enquanto gestor público foi uma atenção para a limpeza das bacias de retenção das águas contaminadas que estavam abandonadas. Mas continua a fazer falta a bacia de retenção que estava prevista no projecto inicial e a monitorização regular da qualidade da água. A filiação partidária, em tempo de Governos PS, e a visibilidade pública não chegaram para convencer a Brisa?O que quer que diga? Só posso confirmar. Há Estados dentro do Estado. Sabe melhor que ninguém que é impossível fazer com que as pedreiras cumpram as regras ambientais. Basta olhar para as nossas serras. Como pode dizer, sem trincar a língua, que vai pôr as pedreiras na ordem no concelho de Ourém, numa altura em que, mais que nunca, o município precisa de receitas e de empresas que gerem riqueza e postos de trabalho? O que assumi foi fazer um levantamento das situações irregulares. Ainda agora foi levantado um auto a uma pedreira na zona de Fátima que andava a fazer aterros em área de reserva ecológica nacional. As pedreiras estão na zona de Fátima e esta é uma zona com vocação turística que é o que garante mais postos de trabalho às pessoas da região. Em termos de revisão do PDM - Plano Director Municipal a proposta é confinar a indústria extractiva às zonas que já estão consignadas para o efeito. Quantas alterações ao Plano Director Municipal (PDM) já pediram para desafectar terrenos de zonas de reserva agrícola ou ecológica?Fizemos uma coisa que nos orgulha. Quando entrámos na câmara tínhamos 28 processos de desafectação, de alterações parciais, de planos de pormenor, que vinham do anterior mandato e circunscrevemos essas situações ao que era prioritário. A alteração do PDM, alteração parcial do plano de urbanização de Fátima, plano de urbanização de Ourém e terminámos processos que estavam em fase final como a alteração parcial de Pias Longas, Tapada e Parque de Negócios de Fátima. Quer dizer que não vai haver mexidas nas reservas agrícolas e ecológicas?Vamos em sede de revisão do PDM regular as situações. Porque é perfeitamente idiota termos, entre casas construídas, terrenos classificados como reserva agrícola ou ecológica. O que tem de haver é um tratamento integrado, situação que não houve no PDM que foi publicado em 2002.O biólogo que nasceu na véspera de Natal mas que não é dado a assuntos religiososJosé Manuel Pereira Alho nasceu na véspera de Natal de 1961. É natural de Atouguia no concelho de Ourém. É biólogo com Curso de Formação Avançada em Gestão Estratégica, Controlo de Gestão, Marketing e Comunicação e Gestão de Projectos. Além de exercer o cargo de vice-presidente da Câmara de Ourém, é professor adjunto no Instituto Politécnico de Leiria, onde continua a dar aulas apesar de a legislação impedir que receba remuneração. Pai de uma filha de 21 anos que está a tirar um curso na área da ciência política e que não é filiada em qualquer partido, José Alho entrou para militante do PS em 1999. Alia a formação académica ao gosto pela fotografia. Gosta de percorrer os campos a fotografar a natureza. Confessa que nunca fez promessas a Nossa Senhora de Fátima. “Não tenho o dom da fé, apesar de ser proveniente de uma família católica profissional”, diz. Tem um vasto currículo em funções públicas. Coordenou o Programa de Intervenção no Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurio na Serra de Aire, foi director do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, da Reserva Natural do Paul do Boquilobo e director-adjunto do Departamento de Gestão de Áreas Classificadas do Litoral de Lisboa e Oeste do Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade. Foi presidente do Instituto de Promoção Ambiental, adjunto do governador civil do distrito de Santarém e director regional das Florestas de Lisboa e Vale do Tejo da Autoridade Florestal Nacional. Começou a ser conhecido publicamente quando era activista da associação ambientalista Quercus, onde foi dirigente regional e nacional. Foi presidente da Liga para a Protecção da Natureza. É membro do Conselho Deontológico e Profissional da Ordem dos Biólogos. Foi professor na então Escola Preparatória de Ourém onde exerceu o cargo de vice-presidente do conselho directivo de 1992 a 1995. Tem vários livros publicados em co-autoria como: “Desertificação, sinais, dinâmicas e sociedade”; “Ética e Políticas Ambientais”; “Biologias na Noite”; “Ambiente, Ciência e Cidadãos”, entre outros. É uma pessoa informal. Costuma almoçar no refeitório da câmara explorado pelo fundo social dos funcionários porque é bom, barato e rápido. A sua bebida de eleição é a água. Quando lhe perguntamos se alguma vez teve conflitos, responde: “Algumas pessoas podem ter por mim alguma antipatia por condicionalismos que fiz observar, como por exemplo no caso das pedreiras do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros. Outros reconhecerão o papel importante na defesa do desenvolvimento equilibrado”.“Lamento que alguns tenham usado percurso ambientalista para outras coisas”Alguns activistas de organizações como a Quercus, onde também militou, acabaram a trabalhar para empresas que criticavam ou para o Estado. Foram domesticados?Os primeiros ambientalistas ajudaram a combater o que estava mal. Foram uma voz crítica num momento em que as preocupações ambientais eram praticamente inexistentes. Tenho a honra de fazer parte dessa geração. Éramos vistos como espécies raras. Tipos que estavam contra a corrente por defenderem ideias que para a maioria das pessoas e para os políticos profissionais eram estranhíssimas. No final dos anos 80 quando começámos a ter expressão éramos depreciados, chamavam-nos totós. Hoje temos políticos que trauteiam expressões cujo sentido desconhecem, como desenvolvimento sustentável. A cartilha defendida pelos ambientalistas foi assumida pela estrutura de decisão política. Não respondeu à pergunta. Quando estava na Quercus destacou-se no combate contra empresas, autarquias e contra o próprio Estado mas ao fim de algum tempo estava a trabalhar para o Estado. Não me diga que decidiu vencer o sistema por dentro?Respondo a isso com a expressão que usei quando tomei posse como director do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros. Deixei de ser um franco-atirador para passar a dispor de um exército. Era importante que pessoas como eu, lutadores de ideais, tivéssemos oportunidade de desenvolver esses ideais na máquina do Estado. Se me perguntar se isso foi pacífico, responder-lhe-ei que não. As coisas nem sempre correram bem. Às vezes correram mesmo de forma ridícula. Ou por falta de capacidade financeira ou por falta de meios técnicos para dar respostas no terreno.Ficou desiludido? Não é fácil abdicarmos da nossa vida pessoal para nos empenharmos a fazer algo em que acreditamos, como o projecto do Parque Natural das Serras d’Aire e Candeeiros e vermos, passados uns anos, todo esse esforço esquecido, abandonado. Isso causa-me alguma dor. Se abdicou da sua vida pessoal foi porque quis, não é justo estar a lamentar-se.Vou confessar uma coisa pela primeira vez. Em 1996 estava em exclusividade dedicado à Quercus a coordenar um programa inovador de turismo de natureza. Na altura foi-me feito reiteradamente o convite para dirigir o Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros. O meu nome era consensual não só ao nível do Ministério do Ambiente mas também dos autarcas. Entretanto há um processo para a escolha de uma nova direcção para a Quercus e numa assembleia-geral foi-me dito que não contavam comigo para a direcção nacional. Vi-me confrontado com o facto de uma associação que ajudei a criar e pela qual tanto lutei não me reconhecer como elemento válido para continuar na direcção e com um convite para o sector público. Foi então a Quercus que o empurrou para as funções públicas e políticas…É a sua dedução. O tempo da militância já lá vai ou ainda sonha com o regresso à pureza inicial? Já regressei uma vez. Fiz esse percurso entre 2002 e 2005 quando fui presidente da Liga para a Protecção da Natureza. Neste momento tenho um compromisso de natureza diversa. Não se é eleito impunemente. Aceitei integrar a equipa de Paulo Fonseca e fomos eleitos para governar o município de Ourém. Quero levar esse compromisso até ao fim em respeito pelos eleitores. Mas quantas vezes não me apetece tirar o espartilho da política e dar corpo a lutas que considero importantes. O seu futuro não é ser consultor e dar pareceres na área do ambiente a empresas que precisam de descobrir caminhos para passar pelo meio das teias da lei?Não me revejo num futuro desses. É verdade que outros ambientalistas o fizeram mas cada um assume as suas opções. Se alguém me perguntar uma opinião posso dá-la, mas não contem comigo para arranjar formas de contornar a lei. Lamento que algumas pessoas tenham usado o percurso ambientalista, que não foi individual mas colectivo, para outras coisas.Deixou de ser relacionar com essas pessoas?Não sou pessoa de fazer uma lista negra, agora não conto com elas para projectos comuns. O senhor também aceitou ir trabalhar para o Estado.Não é pelo facto de uma pessoa ser ambientalista que lhe deve ser retirada a oportunidade profissional. O que eu critico é a utilização de conhecimentos para ajudar alguém a fintar as regras e a destruir o ambienteAlguma vez lhe foi feita uma proposta para um emprego no sector privado? Uma ou outra vez fiz pequenos trabalhos de consultadoria. Não tenho nada contra o sector privado mas trabalhar a tempo inteiro para o privado é coisa em que, nesta altura, não me seduz. Isso não quer dizer que rejeite uma proposta que vá de encontro aos meus princípios de vida e do que gosto de fazer. Só mudaria do público para o privado se essa fosse uma forma de cumprir alguns dos princípios pelos quais tenho lutado toda a vida, como a verdade; a coerência; o desenvolvimento sustentável; a garantia da equidade entre cidadãos; a liberdade…Solução para monumento das pegadas de dinossauro pode passar por privadosGastou-se muito dinheiro na preservação das Pegadas de Dinossáurio na pedreira do Galinha e pouco ou nada foi feito para atrair visitantes para além das óbvias visitas das escolas. Não há promoção do Monumento, nem sequer em Fátima na altura das grandes peregrinações. E isto é uma verdade indesmentível. O objectivo é apenas preservar e o Orçamento de Estado que aguente? Gastaram-se 900 mil contos (cerca de 4,5 milhões de euros). Como cidadão e pessoa que pôs aquele projecto a andar partilho essa crítica. Em 2002 havia um projecto aprovado de cerca de 1,5 milhões de euros, com fundos comunitários e que foi extinto por falta da comparticipação nacional. A ideia era fazer campanhas publicitárias, um centro de interpretação a sério. Nada foi retomado em termos de revitalização. A única coisa que se faz actualmente é manter o espaço de cara lavada. Como autarca já fez alguma coisa para mudar esse cenário? Apresentei uma proposta ao secretário de Estado do Ambiente do anterior Governo para uma parceria em que a Câmara de Ourém tomava conta da gestão do monumento e da sua valorização. Houve boa receptividade mas já passou mais de um ano e nada aconteceu. Isto deixa-me triste. Não seria melhor entregar o monumento à gestão privada?As questões patrimoniais e de conservação da natureza devem ter uma componente de liderança pública. E o lucro não é muitas vezes compatível com a valorização patrimonial. Mas a entrada de privados num negócio destes, salvaguardando-se de forma inequívoca os valores públicos, podia ser uma solução e desejável. É uma coisa revoltante termos milhões de visitantes em Fátima e isso não ter expressão no Monumento Natural das pegadas de dinossauro.
“Às vezes apetece-me tirar o espartilho da política para lutar por coisas que considero importantes”

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