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Famílias de Azambuja vão ao supermercado buscar carne e peixe e a câmara paga no final do mês

Famílias de Azambuja vão ao supermercado buscar carne e peixe e a câmara paga no final do mês

Objectivo é fornecer um complemento ao avio de secos aos agregados mais carenciados

As famílias mais carenciadas de Azambuja têm ajuda para comprar carne e peixe em alguns estabelecimentos do concelho. No fim do mês a câmara municipal paga a conta. O montante do vale que cada agregado familiar recebe varia consoante o número de elementos.

Edição de 17.08.2011 | Sociedade
José Garrote, 52 anos, e a esposa Maria Irene, 46, foram à Loja do Rossio, no centro de Azambuja, e encheram o cesto de compras. Levaram pescada, hambúrgueres, pernas de frango, bacalhau e lulas. Produtos que vão chegar para pouco mais de uma semana. Quem vai pagar a conta é a Câmara Municipal de Azambuja no final do mês. A família foi uma das primeiras a beneficiar da iniciativa da autarquia que decidiu ajudar os agregados mais carenciados a comprar carne e peixe com a colaboração de onze estabelecimentos comerciais do concelho. Para ir às compras José Garrote usou um vale no valor de 36 euros mas o montante varia em função do número de pessoas. Na pequena casa de Casais dos Britos o casal vive com mais quatro filhos ainda menores. Não é o único apoio que recebem. Vão levantar duas vezes por ano ao Centro Social e Paroquial de Azambuja um avio de alimentos secos, como massa e arroz, que bem gerido chega a durar para três meses. “Estamos gratos por esta ajuda da câmara mas claro que precisávamos de mais. Sabemos que não somos a única família a precisar e por isso aceitamos de bom grado”, reconhece José Garrote. Há seis anos teve que abandonar a profissão de pedreiro devido a um grave problema de saúde na coluna e pedir a aposentação antecipada. Maria Irene luta contra uma depressão nervosa crónica e também não tem condições para trabalhar. Por mês José Garrote recebe perto de 700 euros que desaparecem rapidamente. “Só de renda pago 225 euros e depois para as despesas de água, luz, gás e medicamentos vai outro tanto”, assegura. Para ajudar o orçamento familiar o antigo pedreiro trabalha como sucateiro o que lhe rende mais 100 euros por mês. “É muito bom poder ajudar agora que estamos a passar por um período muito complicado”, diz o proprietário da Loja do Rossio, Manuel José Rosa, que arranjou há poucos dias um novo esquentador para a família Garrote. O comerciante que está na Loja do Rossio desde os 11 anos garante que nunca viveu tempos assim. “No pós-25 de Abril existia o dinheiro mas não existiam os produtos e agora não existe o dinheiro mas existe o produto”. A situação está a agravar-se de tal modo que já existem cada vez mais pessoas a pedir não só fiado como até dinheiro, assegura a dona da loja “Frescos e Companhia”, Maria Fernanda Mateus. “Já não são só os idosos a passar mal. Temos agora pessoas na casa dos 35 anos, com vidas aparentemente normais, que não estão a conseguir dar a volta a esta crise”, conta a comerciante que também vende pão e revistas no supermercado para ajudar nas contas. O fricassé de frango que chega aos fins-de-semana à “Frescos e Companhia” e custa apenas um euro esgota por completo. Outro sinal dos tempos actuais é a venda vertiginosa de ovos e salsichas a partir da terceira semana do mês, quando o ordenado da maior parte das famílias já está a acabar. “Na minha infância cheguei a passar mesmo fome. Hoje a minha maior preocupação é que nenhum dos meus filhos passe fome, o que felizmente não tem acontecido. Se for preciso até vou para a rua pedir”, atesta José Garrote, que luta agora por conseguir uma casa com melhores condições.Cem mil euros para impedir que munícipes passem fome Cem mil euros é o valor que a Câmara Municipal de Azambuja tem orçamentado para o pagamento da carne e do peixe que as famílias mais carenciadas podem levantar em 11 estabelecimentos que aderiram ao programa.O objectivo é que o apoio funcione como um complemento ao avio de secos do Banco Alimentar da Luta Contra a Fome de que alguns beneficiam por intermédio de Instituições Particulares de Solidariedade Social. “Ainda pensámos em ajudar também na compra de legumes mas como estamos num concelho rural há muita gente que até tem produção própria”, explica o vice-presidente da Câmara Municipal de Azambuja, Luís de Sousa, que tem o pelouro da acção social. Seis meses após a implementação do programa a autarquia vai fazer um balanço mas a ideia é não deixar a população ficar sem o acesso a alimentos básicos. O protocolo entre a câmara e os estabelecimentos comerciais foi assinado no final de Julho. A medida, que já entrou em vigor, abrangerá aproximadamente 250 famílias, num total de cerca de 600 pessoas.Depois de uma triagem pelos técnicos de Acção Social da autarquia, as famílias seleccionadas vão receber vales para levantar os respectivos bens nas lojas seleccionadas. Para candidatar-se ao apoio os interessados têm que ter mais de 18 anos ou situação de autonomia económica, residência comprovada na área do município de Azambuja e pertença a um agregado familiar cujo rendimento per capita seja igual ou inferior ao valor da pensão social do regime não contributivo da segurança social, ou seja 189,52 euros. “Vamos ser muito rigorosos na selecção destas famílias porque sabemos que existem muitas pessoas a serem apoiadas por entidades públicas e não são as que mais precisam”, acrescentou. Comerciantes contra entrada de grandes superfícies no projecto A Câmara Municipal de Azambuja lançou o convite a todos os comerciantes do concelho para aderir ao projecto social de entrega de carne e peixe às famílias mais carenciadas. Além de várias lojas de comércio local também entraram no projecto duas grandes superfícies, o que desagrada aos pequenos comerciantes. “A autarquia ao colocar nas lojas aderentes grandes superfícies comerciais vai levar as pessoas a deslocar-se quase todas para lá porque muitos têm vergonha da situação em que estão e nos grandes estabelecimentos passam mais despercebidos”, explica Mohamed Karim, dono de um mini-mercado localizado em Vila Nova da Rainha há 22 anos. O comerciante acredita que esta iniciativa poderia juntar o útil ao agradável, ajudando não só as pessoas com parcos recursos como também o comércio local. Manuel José Rosa, comerciante da Loja do Rossio, em Azambuja, chegou a propor a realização de um sorteio entre todos os estabelecimentos que aderiram para os vales não serem todos descontados na mesma loja. Vitorino Mota, do único talho localizado em Vila Nova da Rainha, acabou por desistir do projecto. “Todas as pessoas com as senhas vão às grandes superfícies porque lá a carne e o peixe são normalmente mais baratos. O comércio local já está a morrer aos poucos e esta seria uma excelente oportunidade para nos ajudarem também, mas ao colocarem as grandes superfícies mataram essa possibilidade”, refere. Eduarda Jerónimo, dona do Talho localizado no mercado municipal, louva a iniciativa da autarquia, garantindo apenas que vai ser o mais discreta possível para ajudar os que mais precisam. “Sei que as pessoas que vêm com o vale estão numa situação complicada e não queremos de modo nenhum que sintam que estamos a julgá-las ou a divulgar quem são”. Em resposta enviada a O MIRANTE, a câmara esclarece que “nenhum estabelecimento comercial foi convidado em particular para o projecto”. “A autarquia lançou o repto a todos os comerciantes do concelho e os que aderiram fizeram-no por iniciativa própria”, acrescenta.
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