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“Ser irreverente e polémico é o projecto da minha vida e eu não consigo ser diferente”

“Ser irreverente e polémico é o projecto da minha vida e eu não consigo ser diferente”

José Cid actua na Praça de Toiros de Santarém a 17 de Junho e leva convidados. José Cid aceita a exposição mediática de revistas, jornais e redes sociais porque um artista não pode estar escondido. Corre riscos mas não vira a cara. Após mais de cinquenta anos de carreira continua a gostar de cantar ao vivo. Recebeu O MIRANTE na sua casa da Chamusca e não fugiu a nenhuma pergunta. Contou histórias, riu, brincou, recitou poesia, trauteou canções e foi irreverente. Confessou que acredita na reencarnação e que quando respira o ar do Ribatejo pela manhã sente que nunca na vida irá precisar de viagra... por muitos anos que viva.

Edição de 08.06.2016 | Entrevista

Canta num dos temas do CD “Menino Prodígio” a canção “De mentirosos está o cemitério cheio” em que critica os que dizem que “a vida são sempre vitórias e aplausos pelo meio”. No entanto, quem o ouve falar fica com a ideia de que consigo está sempre tudo bem. Toda a gente tem altos e baixos na vida e eu também.
Esteve alguns anos afastado da ribalta. Mas não estive parado. Nos anos 90 gravei “Camões, as Descobertas e Nós” com o Pedro Caldeira Cabral, Carlos do Carmo, Jorge Palma e Paulo Bragança. Depois fiz o “Vendedor de Sonhos”. A seguir gravei “Pelos Direitos Humanos”. Há gente que nem sequer ouviu falar disto. E também gravei um álbum só com poesia de Frederico Garcia Lorca por quem sou vidrado. Chama-se “Ode a Garcia Lorca”. Ou seja, gravei álbuns extraordinários que quem tem, tem e quem não tem não os vai ter, mas não eram álbuns com mercado.
Foi uma retirada premeditada? Olhe que de mentirosos está o cemitério cheio... Em parte foi premeditado. Eu naquela altura voltei às minhas origens. Fiz álbuns de enorme qualidade musical que passaram despercebidos e continuei a cantar. Com menos visibilidade mas sempre com bons músicos. Isso fez-me sentir bem.
Quem o foi resgatar a um certo esquecimento e o colocou de novo em concertos com muito público e com música mais comercial, digamos assim? A rádio nunca passou muita música minha. Nem música portuguesa em geral. Mas com o advento da “net” e do “youtube” muitas pessoas começaram a descobrir-me e a ouvir-me, particularmente as novas gerações.
A internet é um pau de dois bicos, nomeadamente as redes sociais. Expõem tudo e mais alguma coisa, devassam muitas vezes de forma impiedosa. Antes das redes sociais já havia os jornais e as revistas. Ao longo da minha longa carreira tenho sido muito amado mas também muito criticado. Mas eu sou artista e um artista não pode estar escondido. Eu aceito a exposição. Corro riscos mas tenho que aceitar que fazem parte desta vida.
Não se cansa de ser sempre irreverente, controverso e do contra? Qual quê?!! Ser irreverente, controverso e politicamente incorrecto é o projecto da minha vida!! Eu sou assim, não posso ser de outra maneira!!
E o espectáculo tem que continuar. É isso? Não sou só eu e não é só o meu público. São vinte pessoas que trabalham comigo. Um deles é o meu braço direito que é aqui da Chamusca, o João Lucas. É ele que guia o camião, que leva os instrumentos...é o que se chama um “roadie”. Ele aprendeu ao longo do tempo a ser um “roadie”. A mulher também o ajuda. O neto também vai com ele. E tenho dez músicos que trabalham comigo e quatro técnicos. Eu sinto-me responsável pelas pessoas que trabalham e que tocam comigo.
Ao fim de tantos anos não se sente cansado? Nem um bocadinho. Eu adoro actuar ao vivo. Conheço colegas meus para quem actuar ao vivo é uma chatice. Eu é ao contrário. Acho divertidíssimo. Vou conhecer pessoas, paisagens, vou-me rir com os músicos na viagem, aproveito para conversar com a minha mulher, vou inclusivamente perspectivar a minha vida em termos futuros. Aquele tempo de viagem é muito bom para pensar na vida.
Gravou para o álbum “Menino Prodígio” um poema do José Régio, “Poetas (Há certos Reis)” que a certa altura diz: “Há certos reis nas arenas, de circos e diversões que fazem rir ou dão-nos pena, com as máscaras grotescas de palhaços e bufões.”. O que tem a ver consigo? Eu achei sempre que este poema é uma forma de desmascarar pessoas, de separar o trigo do joio. José Régio é um homem que passou ao lado de uma consagração pública, muito injustamente.
O José Cid não é palhaço nem bufão? Eu não sou palhaço nem bufão mas se for preciso fazer figura de palhaço ou de bufão faço. Eu sou um artista. Não tenho o mínimo preconceito em o fazer. Eu sou capaz de simular coisas. De projectar coisas. De ser cáustico. De ser irónico....satírico.
(José Cid faz uma observação sobre um tremor na vista do jornalista e oferece-se para ir buscar umas gotas. Quando lhe é explicado que se trata de um tique nervoso fala num calmante que já usou)
Quando tive alguns grandes dramas na minha vida tomei Bialzepam 6. É uma coisa muito antiga.
Não tomou Prozac? Já tomei uma vez Prozac e chegou...
Foi assim tão mau? Senti que tinha desaparecido de dentro de mim e que era apenas o meu esqueleto. Era um José Cid de ossos. O Prozac tira-te tudo o que tens lá dentro e não te revolve nada. Entrega-te completamente ao teu psicólogo ou ao teu psiquiatra.
E o Viagra, já experimentou? Aquilo a que chamam o comprimidinho azul? Não...nem a minha mulher deixava. Nem para experimentar. Mas, de um modo geral, nós os homens aqui da beira Tejo acordamos com mais energia e essa energia transmite-se às coisas todas, independentemente da idade de cada um. Mas sei de pessoas da minha geração que por causa dessa brincadeira do comprimido azul já tiveram umas ‘trombosanadas’.
Tem alguma coisa determinada para a altura da sua morte? Eu acredito completamente na reencarnação. Há um poema da Sophia de Mello Breyner Andresen que fala disso de uma forma lindíssima. (Diz de cor as duas primeiras quadras do poema “Um Dia”).
“Um dia, mortos, gastos, voltaremos / A viver livres como os animais / E mesmo tão cansados floriremos / Irmãos vivos do mar e dos pinhais / O vento levará os mil cansaços / Dos gestos agitados, irreais / E há-de voltar aos nossos membros lassos / A leve rapidez dos animais”.
E como gostava de reencarnar? Eu, tal como ela neste poema, acredito que um dia, principalmente para quem sempre viveu no campo, vamos voltar como folha; como nuvem; como gota de água; como cheia; como cavalo... havemos de voltar numa forma assim. Há até quem diga que aquilo que somos agora é a reencarnação do que fomos antes. Tenho pena pelas pessoas que morrem mas sei que esta passagem pelo planeta Terra é efémera. Sessenta anos, setenta, oitenta... em relação a uma eternidade, não é nada.
Quer ser sepultado na Chamusca? Eu não quero ficar no cemitério. Não quero o meu corpo comido pela bicharada. Eu quero ser incinerado. E quero que as minhas cinzas sejam deitadas ao rio Tejo, depositadas no cimo de um monte ou espalhadas num jardim onde nasçam rosas. Eu tenho decisão sobre mim próprio e quero evitar essa coisa pesada que são os cemitérios.
Tem cavalos, cães e provavelmente outros animais. Como vê os projectos de lei sobre o estatuto dos animais? Cuido dos animais, não os maltrato e sou contra maus-tratos a animais mas primeiro está o homem. Os políticos devem preocupar-se em cuidar do homem primeiro. As pessoas estão primeiro.
Como vai este país? Portugal tem sido mal gerido de há muitas décadas a esta parte. Já antes do 25 de Abril era assim. Portugal não tem tido gestores ao nível da qualidade do seu povo. Somos um povo extraordinário, em termos gerais, mas temos sido mal aproveitados. Houve gente que andou a destruir Portugal.
Tem opinião sobre o novo Acordo Ortográfico? Isso é impensável. Cada povo que fala e escreve o português fá-lo à sua maneira. E todos nos entendemos em português. Não precisamos deste novo acordo ortográfico. A língua é viva e muda dia a dia sem ser por imposição de qualquer lei.
É a favor da tauromaquia? Tenho ali uma fotografia na parede comigo a tourear a cavalo. Sou defensor da tradição tauromáquica portuguesa e da tourada à portuguesa, que é uma tourada corajosa. Os forcados agarram o touro pelos cornos, de mãos limpas. Sem qualquer protecção. Os nossos cavaleiros são extraordinários cavaleiros. Mostram nas praças a arte de bem cavalgar e têm uma arte de lidar o toiro extraordinária. A forma como o touro sai das arenas portuguesas é digna, não é como em Espanha onde é morto na praça e o seu corpo arrastado por uma parelha de mulas. E a tourada espanhola é protegida pelos poderes públicos, que a consideram uma actividade cultural.

“O Zeca Afonso também devia estar no Panteão Nacional como a Amália”

Gravou “Menino Prodígio” no seu estúdio analógico. Músicos e cantores de todas as idades falam desse famoso estúdio. Os computadores uniformizam tudo. Corrigem as imperfeições de tal forma que qualquer um põe a vizinha a cantar mesmo desafinada e depois corrige de tal forma que quando ela vai ouvir pensa que canta tão bem como a Adele. A gravação analógica separa o trigo do joio. A única coisa que podes fazer são “takes”, repetições de partes que não ficaram perfeitas. Hoje a nova tendência em Inglaterra é já o analógico. Mas, atenção, eu também utilizo o digital.
O maior artista é o José Cid. Não há espaço para mais ninguém? Tantos artistas bons que já tivemos e continuamos a ter. Lembro-me por vezes do Zeca Afonso. Para além de ter sido o maior compositor português do século passado. Ele devia ter tido a homenagem pública que merecia. Merecia estar no Panteão, como a Amália e a Sophia, por exemplo. A Amália era única a cantar mas a obra musical do Zeca Afonso é uma coisa extraordinária.
Continua a queixar-se das suas músicas não passarem na rádio? Não passam. Mas não são só as minhas. O problema é das “playlists” (lista de canções seleccionadas para passar na rádio). Como é possível que a pessoa que está na rádio a fazer um programa e que sabe o que é música, não tenha direito a escolher ela própria as canções de que mais gosta de um álbum?! Como é possível que lhe imponham os temas a passar?!
É a ditadura das editoras? Claro que é! Às vezes vou no carro, numa viagem longa e oiço a mesma canção do mesmo artista umas quatro ou cinco vezes. Já nem falo de mim porque as minhas canções não passam mas, por exemplo, “O anel de rubi” do Rui Veloso está sempre a passar. É incompreensível. O álbum onde está aquela canção tem muitas outras mas não passa mais nenhuma e ele tem dezenas de outras canções que também não passam. Fala-se de canções proibidas antes do 25 de Abril mas o que é isto senão censura?
Não deixo de lhe dar razão. Já estou fartíssimo de ouvir a sua “Cabana Junto à Praia” e “A rosa que eu te dei” e das canções novas nada ou quase nada, excepto agora “Menino Prodígio”. Lá está. Passam “Menino Prodígio” mas o álbum tem mais doze temas. E há outros que também é raro passarem como agora acontece com este meu último CD single: “Os Rapazes do Campo e as Meninas da Cidade”.
Acha que está a ser boicotado? Não direi isso mas pouco falta.
A culpa será do politicamente correcto? Aquela coisa de elas gostarem de cheiro a cavalo, de braços fortes e cabedal...e do nosso lado tribal... No disco está que elas gostam de montar a cavalo
Pois... ao vivo é que é diferente… Ainda há pouco tempo na Ascensão da Chamusca estavam lá muitas meninas da cidade e eu cantei a canção duas vezes e foi um sucesso. A última coisa que eu sou é politicamente correcto. É apenas uma música divertida. Não tem nada a ver com mais nada que isso.
Se calhar os rapazes da rádio de Lisboa têm ciúmes dos rapazes do campo. Os rapazes do campo têm uma certa vantagem porque as meninas da cidade acham tudo muito mais natural.
Consegue compor baladas de amor sem estar apaixonado? Consigo, claro que consigo. Mas a maior parte das minhas baladas nem sequer são românticas. Uma das minhas últimas, por exemplo, “João Gilberto e Astor Piazzolla”, não tem nada a ver com amor. Quando eu canto:
“Partimos esse Verão pelo Mundo fora/ Tu de viola e eu de concertina/ Tocámos nas ruas das cidades/ Para fugir de cá, desta rotina/ E quem passava vinha atirar moedas para a caixa da viola/ Surpresos por ouvir dois músicos de rua a tocar João Gilberto e Piazzolla”. Isto não é romântico.
Muito do que escreve não é auto biográfico. E neste caso? É uma canção baseada numa história de afecto e companheirismo. Assim como uma outra que também vai sair no próximo disco que se chama Botequim. Nesta inspirei-me nos tempos em que compunha em conjunto com o Tozé Brito. O Botequim era o espaço da poetisa Natália Correia onde se reunia muita gente da oposição antes do 25 de Abril.

Os piratas do Peru

Um dia, em 2014, na altura em que José Cid estava a preparar a série de concertos de apresentação do álbum de rock sinfónico “10.000 anos depois de Vénus e Marte”, editado pela Orfeu em 1978 e que nunca tinha sido tocado ao vivo, recebeu um telefonema de alguém que, em castelhano, lhe disse estar a falar do Peru para lhe dizer que tinha feito uma edição pirata, em vinil vermelho, daquele trabalho.
Sem querer acreditar no que ouvia, José Cid perguntou pormenores, tendo-lhe o interlocutor dito que tinha sido uma edição de apenas mil exemplares e que o objectivo do contacto era dizer-lhe que lhe pretendiam pagar.
O músico acabou por dizer que não queria receber nada e convidou o responsável da edição “pirata” para vir a Lisboa assistir ao concerto do Coliseu, ficando de lhe reservar hotel. E assim aconteceu.
Na sua casa da Chamusca, onde decorreu a entrevista, José Cid mostrou um dos famosos exemplares piratas que um dia destes até podem vir a ser exemplares para coleccionadores uma vez que da versão original de há 38 anos, em vinil, já é muito difícil encontrar exemplares e os que se encontram na net em segunda mão custam muito dinheiro.
O mais curioso de tudo é que a empresa do Peru que fez a edição pirata foi contratada para fazer o vinil, desta vez legal, da gravação ao vivo. “Vou fazer uma edição de luxo dos 10 mil anos que se chama Live in Lisbon. São mil exemplares numerados. A caixa vai ter o vinil, um DVD e ainda o EP “Vida (Sons do Quotidiano)” de 1977”, contou José Cid a O MIRANTE.

José Cid “Disc-Jockey” de si mesmo

O espectáculo de José Cid na praça de touros de Santarém, dia 17 de Junho, sexta-feira, às 22 horas, integra a digressão “Arenas Tour” que percorre uma série de praças de toiros do país.
“Vou fazer uma coisa ousada. É algo que nunca foi feito a este nível. Vou fazer de DJ de mim próprio com um teclado preparado para o efeito. Vou cantar as minhas músicas mais conhecidas neste formato. É a minha forma de dizer que nós os cantautores, também temos direito a ser DJ. Não é nada contra os DJ. Basta ver que antes e depois da minha actuação tenho um DJ, que é o meu amigo Paulino Coelho a actuar”, explica o artista.
Para o espectáculo de Santarém, para além do DJ Paulino Coelho da Renascença, José Cid vai ter como convidados especiais, Mário Mata o tal do “Não há nada para Ninguém” que está a preparar o seu regresso com um disco produzido por José Cid e Gonçalo Tavares, seu sobrinho, que consigo tem trabalhado inúmeras vezes nos mais diversos projectos. Os bilhetes custam cinco euros para a arena e sete euros e meio para a bancada.

“Falo para quem me entender”

“As novas gerações descobriram-me graças ao advento da net e do youtube”
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“Conheço colegas meus para quem actuar ao vivo é uma chatice. Eu é ao contrário. Acho divertidíssimo!”
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“Nunca tomei viagra, nem sequer para experimentar, e a minha mulher também não deixava”
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“Acredito na reencarnação. Quem, como eu, vive no campo vai voltar um dia como folha; como nuvem; como gota de água; como cheia; como cavalo...”
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“A última coisa que eu sou é politicamente correcto.”
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“Vou de carro e está sempre a passar o “Anel de Rubi” do Rui Veloso. Até parece que ele não tem mais canções. É a ditadura da ‘play-list’”
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“Eu não sou palhaço nem bufão mas se for preciso fazer figura de palhaço ou de bufão faço-o. Eu sou um artista.”
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“Portugal não tem tido gestores ao nível da qualidade do seu povo. Houve gente que andou a destruir o nosso país”

“Ser irreverente e polémico é o projecto da minha vida e eu não consigo ser diferente”

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