Dissolvente Serafim das Neves
O Museu Nacional de Arte Antiga lançou uma campanha de angariação de fundos para comprar o quadro “A Adoração dos Magos” do pintor Domingos Sequeira e andou meses para conseguir reunir os seiscentos mil euros necessários. Toda a gente achou extraordinário menos eu. Afinal, em menos de meia hora, a Câmara de Abrantes comprou uma escultura do verdadeiro artista Charters de Almeida para pôr numa rotunda, por mais de 250 mil euros e já lhe tinha comprado uma outra do género há sete anos por 223 mil. E sem campanhas de fundos.
É certo que o tal Sequeira é para aí do século dezoito e as antiguidades sempre valem mais mas as esculturas do Charters, como são em aço “corten”, daquele mais baratinho, já vêm com aspecto ferrugento e tudo. E em pouco tempo ficam tão ferrugentas como se fossem de há dois ou três séculos atrás.
Mas há mais. Para vermos a tal “Adoração” do Sequeira temos que pagar entrada no Museu, enquanto que para vermos esta última obra prima do escultor oficial de Abrantes basta passar pela rotunda. E nem é preciso abrandar. Afinal aquilo são apenas umas vigas na vertical a apontar para o local onde vivem os anjinhos, que são seres com asinhas como aquelas que nos querem pôr quando nos cantam cantiguinhas sobre a excelência dos nossos autarcas e políticos em geral, enquanto nos esmifram mais taxas, taxinhas, imis e iérre éses.
Gostei muito daquela recriação do tempo em que as mulheres iam à fonte buscar água, feita este ano na Feira da Agricultura em Santarém. Só foi pena a organização não ter usado réplicas dos antigos fontanários, sempre ficava melhor do que andar o povo a encher as vasilhas com a água a correr de uma mangueira dos bombeiros. Mesmo assim sempre foi melhor que nada e deu para os mais novos terem uma ideia do que era não ter água canalizada em casa.
Alguma rapaziada do bota abaixo tem-se fartado de zurzir na administração do Centro Nacional de Exposições e Mercados Agrícolas (CNEMA) por usar água tirada de um furo para abastecer a feira. Mas há lá coisa mais saborosa que a água que brota da terra, pura e fresca, sem químicos nenhuns? Já é vontade de dizer mal, carago!
Quanto às recriações do mundo rural acho que devem continuar. Que tal para o ano haver banhos de alguidar para quem quiser saber como era no tempo em que uma família inteira tomava o seu banhinho semanal na mesma água? E permitir que os visitantes se aliviem ao ar livre, fornecendo-lhes folhas de couve ou jornais velhos para se limparem? Tudo ao natural como a natureza, para podermos saborear os prazeres do mundo rural do século dezanove e início do século vinte. Afinal se recriamos as danças e os trajes através dos grupos etnográficos, por exemplo, porque não recriar mais coisas?!
Termino com uma confissão. Ando muito preocupado com os disparates que fiz ao longo dos anos em que já havia internet, muitos dos quais já nem recordo por terem sido feitos em noites de bebedeira. Já tinha ouvido dizer que a internet tinha mais memória que os elefantes mas só fiquei a saber que também tinha maiores patas que as dos elefantes quanto o José Cid foi vergastado nas redes sociais por verdugos mais cruéis que os que vergastaram Cristo a caminho do local onde foi crucificado, a propósito dele ter falado nuns tipos horrendos e desdentados que vivem em Trás-os-Montes.
O homem, quando lhe caíram as primeiras chibatadas virtuais nos lombos, nem sequer sabia porque estava a levar. Afinal, tal como a maioria das pessoas normais, não se lembrava do que tinha almoçado naquele dia, quando mais do que tinha dito seis anos antes. Será que eu já chamei horrendo a pessoas simpáticas lá do norte como aquele senhor Palito que matou a mulher a tiro? Se o fiz, e antes que chegue o castigo, peço-lhe desde já desculpa umas vinte vezes. Eu estava enganado. Ele afinal tem uns dentes brancos e saudáveis e é lindo...de morrer!
Saudações penitentes
Manuel Serra d’Aire
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