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Fazer voluntariado só para ficar bem na fotografia é má experiência

Fazer voluntariado só para ficar bem na fotografia é má experiência

Ruben Crispim Moisão, de Vila Franca de Xira, é o 13º português a conquistar medalha mundial. Escuteiro do agrupamento de Alhandra viu reconhecido pela comunidade internacional o seu empenho no voluntariado e vai ser, no dia 9 de Julho, o 13º português, em 80 mil escuteiros, a vencer o Scouts of the World Award.

Edição de 06.07.2016 | Sociedade

O bom voluntariado é aquele que se faz mesmo sabendo que, não recebendo nada, se aprende alguma coisa, se absorve uma experiência para a vida e se cresce como pessoa. Fazer voluntariado “só por fazer”, para ficar bem na fotografia, “é uma horrível experiência”.
Quem o diz é Ruben Crispim Moisão, 22 anos, natural de Vila Franca de Xira e escuteiro em Alhandra, que no dia 9 de Julho vai ser o 13º escuteiro português, num universo de quase 80 mil do Corpo Nacional de Escutas, a receber o Scouts of the World Award, um prémio de reconhecimento pelo empenho desenvolvido em prol da comunidade e do voluntariado.
“Temos de fazer coisas dignas de voluntariado mas também há quem abuse. Há pessoas bem intencionadas a fazer voluntariado que acabam por tirar trabalho a alguém. É importante saber o que se vai fazer e para quem. Quando sabes que a associação onde estás a fazer voluntariado tem poder económico e vês pessoas a ir embora é preocupante. Isso acontece em várias associações. Gente que usa o voluntariado para não ter trabalhadores. Temos de estar atentos para não tirar o trabalho a ninguém”, revela a O MIRANTE.
Apesar de ainda jovem, Ruben tem um longo percurso no voluntariado, já tendo passado por misericórdias do concelho, bancos alimentares, campos de escuteiros na Suíça e, mais recentemente, fazendo voluntariado numa eco-cooperativa em Sintra. “Em certa parte é verdade que os jovens não ligam ao voluntariado. Mas quem diz isso se calhar também tem oportunidade de fazer voluntariado e não o faz. Não é fácil fazer voluntariado em Portugal. Às vezes noto alguma resistência de quem recebe os voluntários. Vamos a determinado lugar e as juntas de freguesia e as paróquias dão-nos algo para ocuparmos o tempo, em vez de nos darem tarefas que realmente eram importantes para a comunidade. Há estes malabarismos estranhos”, lamenta.
Ruben entende que é preciso “pensar global e agir localmente” para melhorar a comunidade. E que os pequenos passos começam em cada um de nós. “Há boas acções que podem ser feitas na rua onde moramos. Às vezes é tão simples como isso”, refere.
O escuteiro entrou aos 18 anos no Agrupamento 1164 de Alhandra por desafio de amigos e nunca se arrependeu. Confessa-se um jovem que gosta de desafios e lamenta que muita gente ainda tenha o estereótipo que os escuteiros “são o pessoal que vende bolachinhas e limonada” de vez em quando. “Gosto de coleccionar experiências e este é um óptimo local para isso, para crescer e para ajudar os outros a crescer. Gosto de aprender a lidar com as coisas da vida e aqui estamos expostos a muitas coisas”, conta.
Está hoje numa idade em que tem de decidir o que fazer no futuro: sair dos escuteiros ou seguir formação para dirigente. Não estuda na faculdade mas quer fazê-lo no futuro. “Vivemos num sistema que nos obriga a decidir muito cedo aquilo que nós queremos. Eu tenho o problema de gostar de muitas coisas mas não me conseguir focar em apenas uma. Quero escolher primeiro a vocação”, diz.
Neste momento o grupo de Alhandra está a preparar uma nova acção de voluntariado, que durará uma semana inteira e que vai prestar apoio a aldeias dispersas entre Abrantes e Vila de Rei. Será uma acção de voluntariado numa aldeia por dia. “Não sei onde me vejo daqui a dez anos mas gostava de passar por muitos locais do mundo e conhecer muitas pessoas. Evoluir como pessoa. Espero ser uma pessoa melhor do que aquilo que sou hoje e isso basta-me”, conclui.

O sonho de escrever
Além dos escuteiros, Ruben Crispim Moisão gosta de ler, escrever e ouvir música. A literatura fantástica, ao estilo Senhor dos Anéis de JRR Tolkien, é dos seus géneros preferidos. Vive com a mãe e gosta de ouvir de tudo um pouco, desde folk a metal. E escrever. “Gostava um dia de escrever dois livros, um baseado num conto que conheço e outro sobre uma descontrução onde o leitor se insira no meio. Gosto de coisas que me façam pensar”, explica. Passear e fazer percursos pedestres são outros dos passatempos deste escuteiro que vai sempre para o agrupamento de transportes públicos ou à boleia.

Vila Franca Centro é “uma anedota”

Ruben Moisão vive em Vila Franca de Xira e uma das coisas que lhe desagrada é o abandonado centro comercial Vila Franca Centro. “É uma anedota desde o início. No cinema IMAX comprava-se filmes a Espanha e não eram os filmes que as pessoas queriam ver. Não se ter colocado lá um supermercado foi outro erro crasso. Fiquei feliz pelo centro ter fechado, o comércio está melhor cá fora. Termos a rua do Chave de Ouro novamente com mais movimento e a abertura de novas lojas agrada-me. Ficámos ali com um imóvel fechado e o que acho que deviam fazer era usar e abusar dele, aproveitá-lo”, defende.
Diz que, de resto, Vila Franca de Xira é uma excelente cidade para viver, bem situada geograficamente e com uma boa frente ribeirinha, que é já “um postal da cidade”. Não está por dentro da política mas reconhece que há uma boa evolução da cidade nos últimos anos.

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