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Presidente do Povoense dá abrigo a jovens futebolistas guineenses

Presidente do Povoense dá abrigo a jovens futebolistas guineenses

António Fonseca diz que ficou chocado com as condições em que viviam na zona de Sintra alguns miúdos chegados de África com a ambição de serem estrelas dos relvados e deu-lhes guarida nas instalações do clube da Póvoa de Santa Iria, numa casa alugada e até na própria moradia.

Edição de 05.10.2016 | Desporto

Com pouco mais de 10 anos de idade chegaram da Guiné-Bissau a Portugal com o sonho de se tornarem profissionais de futebol. Para trás deixaram a famílias e amigos com a ambição de imitarem os percursos de compatriotas como Bruma (Galatasaray), Zezinho (ex-Sporting) ou Agostinho Cá (Barcelona). Mas o que a maior parte destes jovens encontrou em Portugal estava longe de se parecer com o mar de rosas com que sonhavam. Alguns tiveram a sorte de encontrar apoio e abrigo graças a António Fonseca, o presidente do Povoense, clube da Póvoa de Santa Iria, concelho de Vila Franca de Xira, que albergou atletas como Zé Gomes, o jovem ponta de lança do Benfica que começa a despontar na alta roda do futebol.
Os jovens chegados da Guiné eram deixados num apartamento em Monte Abraão (Sintra), onde passavam grandes dificuldades, nomeadamente alimentares. O dirigente do Povoense teve conhecimento dessa situação e decidiu albergar os atletas na própria casa e nas instalações do clube da Póvoa de Santa Iria.
“Isto nasceu com um jogador chamado Fred Robalo, que veio da Academia Vitalaise (Guiné-Bissau), detida pelo empresário Vital Sauane. Quando o Fred chegou, reparei na magreza dele, então disse para ele ficar em casa do Michael, pessoa que o trouxe de Sintra, e eu, através da churrasqueira [comércio do presidente do Povoense], dava-lhe de comer. Após um tempo connosco ele começou a abrir o livro e disse que em Monte Abraão estavam mais miúdos que passavam fome”, refere António, que se disponibilizou para acolher esses jovens nas instalações do estádio.
Só que o presidente do Povoense pensava serem apenas mais três ou quatro casos e afinal eram entre 15 e 20 atletas a viver em péssimas condições no Monte Abraão. “Vi aquilo e fiquei chocado, metia dó, um tacho de arroz para comida e sem condições nenhumas. Eles tinham 5 euros para comer arroz por semana. Eram todos magritos. Uns à espera de ser colocados em clubes, outros aguardavam documentos para jogar em equipas como Benfica e Sporting”, indica.
António diz que não conseguiu fechar os olhos à situação e trouxe-os a custas próprias para o Ribatejo. Zé Gomes foi um dos atletas que dormiu sob o tecto do Povoense. O avançado do Benfica passou ali cerca de cinco meses. O dirigente acabou entretanto por alugar uma casa de propósito para garantir melhores condições aos jogadores, já que a casa do estádio não era suficiente para tantos rapazes.
Além do aluguer da casa, António Fonseca tem a viver consigo dois guineenses, Ronaldinho e Lile. Ronaldinho Robalo chegou a Portugal com 12 anos. O irmão de Fred não conheceu a casa de Sintra e ficou logo ao cuidado do clube ribatejano. “Estive uns tempos nas instalações do Povoense, mas depois vim morar para casa do sr. António. Estou-lhe muito grato, é um prazer enorme estar com a família dele. São como se fossem meus pais, nunca me faltou nada”, indica o jovem de 16 anos, atleta do Oeiras.
Já Lili Achona Có tem um testemunho diferente. Aterrou em Lisboa há seis anos e ficou a morar em Monte Abraão, com outros jogadores guineenses, mas agora também ele está alojado na casa do presidente. “A primeira vez que vim a Portugal foi para jogar num torneio, depois eu e mais três voltámos a Lisboa para sermos futebolistas. Ficámos em Monte Abraão. As condições eram muito degradantes. Os atletas mais velhos, de 18 anos, é que tomavam conta de nós. Mas isso já passou, agora é seguir em frente”, diz o jovem avançado de 17 anos a O MIRANTE, referindo que ainda lhe custa recordar aquele cenário.

Futebol sem descurar os estudos
O sonho mantém-se e a ambição de Lile e Ronaldinho não passam pela Luz, Alvalade ou Dragão. “Quero ser um grande jogador de nível internacional e jogar no Real Madrid (Espanha)”, aponta Lile, que aguarda pela nacionalidade lusa para poder jogar no nosso país.
Também Nildo está a cargo do presidente. O atleta de 17 anos é o único que ainda mora na casa alugada da Póvoa de Santa Iria. O pai do jogador passou a custódia do filho a António Fonseca e aguarda neste momento decisão do tribunal de forma a realizar a transferência para a formação do Sporting. Além de jogarem futebol, os jovens estão a estudar, uma condição que António Fonseca prontamente resolveu. Ronaldinho está no 11º ano e Lile no 10º.
“A primeira coisa a fazer foi metê-los na escola. Os que já são maiores estão a jogar por aí, mas voltam sempre à casa-mãe (Póvoa de Santa Iria). Eles acabam por ser meus filhos também. Vivem comigo, vestem as roupas dos meus filhos, passam férias comigo. Sou como um pai para eles, nunca me aproveitei de nada. Pago-lhes a casa, televisão, tudo. Estão comigo até à morte e vou ajudá-los no que puder”, afirma.
O presidente indica que nunca chegou a fazer negócio directamente com o empresário de futebol Vital, mas confessa haver um acordo para receber 50% da transferência dos jogadores que ficassem alojados na Póvoa de Santa Iria.

Alguns jovens vão despontando no futebol nacional

A grande parte desses atletas encontra-se a jogar por Portugal, alguns com salários de apenas 200 euros. Fred seguiu para os juniores do Sporting de Braga depois de fazer 40 golos no Povoense. Mas problemas na renovação do contrato e uma lesão atiraram-no para o Gafetense (3º escalão). João Jaquité actua no Tondela (I Liga). Já Izidro joga no Ponterrolense (Torres Vedras). O atleta chegou a descascar batatas na churrasqueira do presidente por forma a legalizar-se no país.

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