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Gestores que preferem beber água da rede e têm em comum gerir sensibilidades políticas

Gestores que preferem beber água da rede e têm em comum gerir sensibilidades políticas

Administradora da Águas de Santarém, Teresa Ferreira, e secretário da Comunidade Intermunicipal da Lezíria, António Torres.

Edição de 05.10.2016 | Sociedade

A iniciativa “Duetos improvisados entre pessoas que tocam sempre a mesma música” alargou o âmbito dos presidentes de câmara para outras personalidades da vida pública. Para inaugurar a nova abrangência juntámos a administradora executiva da Águas de Santarém, Teresa Ferreira, e o secretário executivo da Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo, António Torres, que esteve na génese de formação da empresa do mesmo sector, Águas do Ribatejo. Apesar de estarem em pólos opostos ambos dão-se bem e têm algumas coisas em comum, menos a visão de questões de gestão pública e privada.

A administradora executiva da empresa municipal Águas de Santarém, Teresa Ferreira, e o secretário executivo da Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo (CIMLT), António Torres, que esteve na génese da constituição da empresa intermunicipal Águas do Ribatejo, que o município de Santarém não quis integrar, têm em comum o facto de preferirem beber água da rede. “É a melhor. Temos mais de 99,5 por cento de cumprimento nas análises e o ph da água é melhor do que o de muitas águas engarrafadas, além de ser mais barata”, sublinha Teresa Ferreira. Ambos residem no concelho de Santarém e apesar dos pólos opostos, António Torres elogia o facto de não ter problemas de falta nem de qualidade da água.
“A Teresa é que tem de estar satisfeita com a empresa, eu sou um mero cliente”, diz Torres, acrescentando em jeito de brincadeira que já percebeu que em Santarém não há rupturas de condutas. “Há rupturas sim mas somos rápidos a resolvê-las”, responde em tom de boa disposição Teresa Ferreira, dizendo depois em tom mais sério que o concelho “tem uma rede antiga, o que representa problemas”.
António Torres reconhece que quando decorreu o projecto de criação da empresa intermunicipal Águas do Ribatejo teria gostado que Santarém estivesse no projecto, porque dava escala à empresa. A administradora diz que não teve qualquer participação ou influência no facto de Santarém não ter integrado a Águas do Ribatejo, numa decisão do anterior presidente Moita Flores, porque não integrava qualquer órgão na zona. “Foi um processo muito complicado durante quatro anos”.
Teresa Ferreira e António Torres dependem de autarcas mas não sentem dificuldades em lidarem com políticos. “Tenho a facilidade de o presidente da câmara (Ricardo Gonçalves) ser presidente da empresa municipal e temos um relacionamento próximo. Com a oposição também não temos problemas, porque, apesar de terem opiniões diferentes, intervêm de forma elegante”. António Torres depende de 11 presidentes de câmara, de diferentes partidos. “A minha postura tem sido sempre trabalhar no sentido de atingir consensos”. Divertida, Teresa atira que “o Torres manda nos presidentes e eu obedeço”. “Nem sempre as propostas são logo aceites e às vezes demora-se muito tempo”, responde o secretário executivo.
Teresa Ferreira confessa que já teve vontade de fugir de algumas reuniões mais complicadas. Sobretudo porque às vezes se leva até ao limite a discussão de questões menores perante assuntos muito mais importantes. “Por isso é que não tenho outro tipo de funções, porque às vezes me falta um pouco a paciência”. Sobretudo porque, salienta, os homens nunca têm pressa enquanto as mulheres ainda precisam de ir para casa tratar dos filhos. “Chegar ao ponto de querer fugir, não! Mas já tive reuniões muito complicadas. Houve uma altura (criação da Águas do Ribatejo) em que só faltava sacrificar o Torres, choviam pedidos de demissão e declarações nos jornais, o que me incomodou porque punha em causa a minha idoneidade”, refere António Torres.
Com vidas muito ocupadas como é que os dois gerem as questões relacionadas com os filhos? António Torres, que é também presidente da Académica de Santarém, diz que o marido de Teresa Ferreira deve ser como ele. “Para as questões desportivas o pai está presente, para as questões da escola é a mãe”. Ela concorda. “As mulheres às vezes queixam-se mas, mesmo que exista uma rede de apoio, há tarefas com os filhos de que não abdicamos. Mas o pai para o desporto tem uma disponibilidade e empenho imbatível”, refere Teresa Ferreira.
Os dois gestores de empresas de capitais unicamente públicos consideram que o sector público também pode fazer bem mas divergem na opinião sobre a eficiência dos privados. António Torres é um defensor acérrimo da gestão pública. Teresa Ferreira entende que os privados conseguem fazer algumas coisas de forma mais rápida porque não estão sujeitos a determinadas exigências legais como as empresas públicas. “Quem faz as empresas são as pessoas e as pessoas se forem boas fazem uma boa gestão, quer seja no privado, quer seja no público”, entende o secretário da comunidade.
“A resposta não é linear. Nem tudo o que é público é mau e nem tudo o que é privado é bom. Mas por vezes a gestão privada consegue ser mais eficiente porque não está sujeita a determinados contextos, pressões, objectivos”, salienta Teresa Ferreira, acrescentando que não defende que a Águas de Santarém tenha que ter uma gestão privada. “As empresas públicas estão suspensas em coisas como quadros eleitorais, por exemplo, que os privados não têm”, realça.
Como é que a administradora e o secretário vêem o papel das mulheres na vida política e gestão pública? Teresa não concorda com as quotas para mulheres em lugares políticos ou de administração. “Hoje a diferenciação faz-se pelas competências, pela motivação, pelo mérito e capacidade de trabalho”. Para António Torres as quotas permitiram dar mais visibilidade às mulheres e a oportunidade de estas mostrarem o que valem. Mas considera que hoje as quotas já não fazem sentido. E quem é que manda lá em casa? “Sou eu!”, responde prontamente Teresa. “Com a vida que tenho não tenho tempo para mandar em casa”, diz Torres.

O aquário das filhas e o ph da água

A administradora executiva da Águas de Santarém teve há dias um pequeno desentendimento com uma senhora de uma loja de peixes para aquários por causa da água. As filhas de Teresa Ferreira queriam ter um aquário com peixes e a administradora foi à loja com elas e depois de ter feito a compra vieram as perguntas sobre como cuidar dos peixes, a alimentação e a mudança da água do aquário.
“Perguntei à senhora como é que era para mudar a água e disse que mudava com água da rede. Ela respondeu imediatamente que não e que só devia usar água engarrafada no aquário”. Teresa Ferreira, defensora da água da rede pública, perguntou de imediato por que motivo tinha de ser água engarrafada, tendo obtido a resposta que a água da rede não é boa e porque o ph da água engarrafada é melhor.
Na conversa, a administradora questionou a vendedora sobre qual era o ph adequado para os peixes, tendo esta respondido que era um ph 7. “O nosso ph é entre 6,5 e 9 sempre e há água engarrafada com valores inferiores”, disse na altura Teresa Ferreira. A vendedora ficou sem argumentos e acabou por dizer: “Pronto, ponha lá a água que entender”.

Assistir ao nascimento do filho a correr

O secretário executivo da Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo (na altura Associação de Municípios da Lezíria) tinha marcado um seminário interno com os presidentes de câmara no Luso. A mulher de António Torres estava grávida mas não estava previsto o parto para essa altura. No dia 14 de Março de 1996 devia estar no Luso para preparar a documentação. Mas a criança resolveu nascer mais cedo.
“O padrinho da minha mulher é ginecologista e acompanhava-a. Em conversa com ele disse-me para me ir embora descansado para o seminário porque a criança não ia nascer já”. Só que o primeiro filho de Torres resolveu trocar as voltas. No dia 13 à noite rebentaram as águas e a esposa de António Torres foi para o hospital para ter o filho. O secretário executivo acompanhou a mulher até ao nascimento do filho, viu-o uns minutos e teve de ir a correr para o seminário, porque tinha os presidentes dos municípios dependentes dele.
“Estive um bocadinho com ele e depois tive de ir. Só voltei a ver depois do seminário, no sábado, quando regressei a casa”, conta António Torres.

Gestores que preferem beber água da rede e têm em comum gerir sensibilidades políticas

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