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O misterioso passado do castro de Vila Nova de S. Pedro

O misterioso passado do castro de Vila Nova de S. Pedro

No dia aberto à exploração do castro de Vila Nova de S. Pedro, no concelho de Azambuja, a população da freguesia e arredores pôde ver o trabalho que tem sido feito ao longo de três semanas de limpeza e preparação para maiores investigações ao local onde, três mil anos antes de Cristo, houve uma povoação que foi deixada ao abandono sem que se perceba porquê.

Edição de 26.07.2017 | Sociedade

Três mil anos antes de Cristo havia uma povoação no que é agora o castro de Vila Nova de S. Pedro, no concelho de Azambuja. Existiu durante mais de mil anos e desapareceu de um dia para o outro, dizem os especialistas. A professora Mariana Diniz, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, não consegue apontar uma causa para o que se passou: “É sempre a pergunta que se faz quando uma civilização de grande vigor como foram os povoados do período Calcolítico entra em declínio e os sítios acabam por ser abandonados. Pode ter havido algum colapso na organização da sociedade, alguma causa de ruptura que os tenha levado a procurar outro lugar para viver. Ainda não se sabe, mas se agora as nossas investigações ajudarem a descobrir nem que seja mais um pedacinho da verdade, já será muito bom”.
É com o objectivo de desvendar o passado que surge o projecto “Vila Nova de São Pedro, de novo – no 3º milénio”, da responsabilidade de uma equipa de arqueólogos da Associação dos Arqueólogos Portugueses, liderada por José Morais Arnaud, do Centro de Arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e da Fundação para Ciência e Tecnologia, com o apoio da Câmara de Azambuja e da União de Freguesias de Manique do Intendente, Vila Nova de S. Pedro e Maçussa. O projecto começou há três semanas e no dia 19 de Julho foi altura de “abrir as muralhas” à população e deixar ver o que o passado manteve oculto.
Além dos curiosos, de residentes da zona e de historiadores e arqueólogos internacionais, uma grande parte dos visitantes do dia aberto foram os 120 jovens das “Férias Desportivas” da Câmara de Azambuja. Filipa Adrião, 12 anos, João Sousa, 13, e Ariana Rodrigues, oito anos, foram alguns dos que participaram nos ateliês para aprenderem como se fazia fogo e como se pintava com os materiais de antigamente, entre outras lições que os arqueólogos e historiadores lhes deram.
“Foi interessante perceber como os nossos antepassados trabalhavam e como estas muralhas os defendiam”, explicou João, ao que Ariana acrescentou que “foi giro ver as peças e as coisas que eles usavam”. Filipa já tinha visitado o castro no 4º ano e nota grandes diferenças: “Na altura ainda não tinham começado as investigações e estava tudo cheio de ervas, não dava para passar nem se percebia o que havia aqui. O que nos conseguiam explicar na altura era muito menos que agora”.

Investigação com preocupações ambientais
Além de poderem ver e mexer nos objectos recuperados da época em que o castro era povoado, os jovens ainda viram como as muralhas, a inicial e a secundária, circundavam a área para proteger a população de perigos. Essas muralhas começaram a ser desvendadas na primeira investigação ao castro, entre os anos de 1937 e 1968, chefiada por Manuel Afonso do Paço e o padre Eugénio Jalhay. É nas descobertas deles que a equipa que está agora a explorar a área se baseia, naquilo que a professora Mariana Diniz considera uma “arqueologia da arqueologia”, com acesso a tecnologias e métodos de investigação, como a utilização de drones para obter imagens de todos os ângulos do castro, que antes não eram possíveis.
Há ainda a preocupação com a protecção ambiental, pelo que seria importante evitar o uso de herbicidas para controlar a vegetação que envolve o castro. “Hoje em dia podemos contar com máquinas que através da pressão da água a ferver, naquilo que se chama a monda térmica, eliminam as ervas sem deixarem vestígios químicos”, explicou Mariana Diniz, apelando à utilização destas em detrimento de outras técnicas.

O castro como património turístico

“É preciso segurar neste projecto de exploração do castro e transformá-lo num pólo de desenvolvimento da região”, diz o vereador da CDU, David Mendes: “Isto não é uma coisa que se faz de um dia para o outro, é coisa para demorar quatro anos ou mais. E a população tem de aderir, porque nada se pode fazer sem a população de um sítio. Isto vai provocar um desenvolvimento turístico que nós queremos potenciar”.
O executivo da Câmara de Azambuja está unido neste objectivo e na sua comparticipação e também a junta da União de Freguesias de Manique do Intendente, Vila Nova de S. Pedro e Maçussa tem apoiado a investigação ao castro através da licença para limpar os terrenos, permitindo o avanço da exploração, bem como com a aquisição das máquinas e tractores que têm feito a limpeza, a contratação de trabalhadores que têm ajudado à limpeza ou da comparticipação na construção do Centro Interpretativo.

“É muito bom tocar na História com a experiência de campo”

Três alunos da licenciatura em Arqueologia escolheram estudar o Castro de Vila Nova de S. Pedro por ser muito divulgado no curso e muito interessante para aplicar em campo o que aprendem nas aulas teóricas.

Nereide Tavares, 23 anos, é de Cabo Verde e está a tirar o mestrado em Arqueologia. Tomé Costa, 18 anos, e João Silva, 20 anos, portugueses, acabaram o primeiro ano da licenciatura no mesmo curso. São três dos alunos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa que escolheram as investigações ao povoado do Castro de Vila Nova de S. Pedro como projecto do curso.
“Na cadeira de Trabalho de Campo e Laboratório deram-nos vários locais que podíamos escolher e como neste último semestre eu já estava a fazer um trabalho no Convento do Carmo, sobre o Castro de Vila Nova de S. Pedro, assim que surgiu esta oportunidade aceitei”, conta Tomé.
João veio por ver outros colegas de turma escolherem o castro e Nereide confessa sempre ter tido curiosidade em conhecer Vila Nova de S. Pedro pela importância histórica: “É um local muito divulgado neste aspecto e para o nosso curso, por isso achei que seria uma experiência interessante vir trabalhar aqui”.
Ao longo das três semanas que decorreram desde o início do projecto, em que estão nas explorações das 7h00 às 19h00 com uma pausa alargada para o almoço, os três confessam sentir-se satisfeitos: “É muito cansativo mas muito interessante”, conta João, que admite que as condições atmosféricas no topo da colina nem sempre são as mais fáceis, principalmente a nível do vento.
“Desde pequenino que queria ser paleontólogo, mas não há essa licenciatura em Portugal, e como arqueologia é o mais próximo, vim para cá”, explicou João. Tomé estava muito indeciso mas acabou por também seguir um interesse que já tinha há muito tempo. “Eu desde o 10º ano que decidi seguir Arqueologia, mas sempre gostei de História e de aprender sobre o antigamente”, conta Nereide, que se sente realizada e feliz com a escolha e que confessa que a melhor parte é estar a trabalhar no terreno.

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