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“A justiça portuguesa sofre de falta de punibilidade”
Filipa Ferreira leva trabalho para casa porque diz que é difícil desligar

“A justiça portuguesa sofre de falta de punibilidade”

Filipa Ferreira, 26 anos, advogada com escritório em Benavente.

Edição de 30.01.2019 | Três Dimensões

Fez a sua vida em Benavente até entrar para o ensino superior. Depois de concluir a licenciatura em direito, na Faculdade de Direito de Lisboa e o estágio na Ordem dos Advogados, regressou à terra. Advogada há dois anos, preza a proximidade com os seus clientes, algo que diz não ser possível numa grande cidade. Aponta a falta de punibilidade e morosidade no despacho de processos como os dois grandes problemas do sistema jurídico português.

Sempre fui uma criança sociável e amadureci muito cedo. Sempre gostei de ter amigos mais velhos e ainda hoje é assim. Acho que têm uma sabedoria especial e que me podem transmitir mais ensinamentos pela bagagem que trazem consigo.
A terra que é nossa, será para sempre nossa. Sou muito ligada às minhas raízes, por isso depois de terminar o curso regressei a Benavente. Custou ao início porque estava habituada à vida agitada da capital mas sei que o meu lugar é junto das minhas gentes.
O primeiro caso que ganhei em tribunal foi um processo de violação de uma menor. Era o primeiro caso que ia levar a tribunal depois de deixar de ser estagiária e tive receio de não ser capaz. Senti o peso da responsabilidade em enfrentar o tribunal sozinha e defender a minha cliente.
A justiça portuguesa sofre de falta de punibilidade. Sou muito céptica quanto ao direito penal português, porque na minha opinião as molduras penais não se enquadram com o tipo de crime. Em casos de homicídio, o crime mais grave que temos, raramente é cumprida a pena máxima de 25 anos. Há demasiada flexibilização. Quem é condenado cumpre 12 anos e está cá fora. Acho que é pouco para um criminoso que retira o nosso maior direito que é a vida.
Não aceito representar alegados homicidas, violadores e pedófilos. A primeira máxima que aprendemos na nossa profissão é que toda a gente tem direito à defesa mas há situações que chocam com os meus princípios pessoais. Não digo que um dia não o faça mas se puder evito.
Uma falha no nosso sistema jurídico é o tempo que os processos demoram até verem o seu desfecho. Há processos a demorar mais de uma década, porque andam de um tribunal para outro, com trocas constantes de juízes e magistrados. Não há um encadeamento lógico.
Benavente tem uma qualidade de vida superior. Vivi sete anos em Lisboa e confesso que estava com muito receio de voltar a Benavente. Vim pela questão económica e pela proximidade com a família e amigos. Sei que tomei a decisão certa.
Todos os portugueses deviam descobrir os recantos do nosso país. Adoro meter-me dentro do carro e ir à descoberta, visitar lugares e monumentos. Na região gosto de passear pela zona ribeirinha de Benavente e pela barragem de Salvaterra de Magos.
Apaixonei-me pela advocacia depois de assistir a um julgamento. Tinha apenas 12 anos, mas lembro-me bem do entusiasmo que senti. O respeito em tribunal fascinou-me e foi nesse momento que decidi que queria seguir Direito.
Um advogado da província é completamente diferente de um advogado da grande cidade. Aqui, em Benavente há proximidade entre advogado e cliente, algo impensável num escritório de advogados em Lisboa. Para além de ser aqui que as pessoas me conhecem e ser mais fácil começar a formar a minha carteira de clientes, gosto dessa proximidade.
Teríamos uma sociedade mais justa se as pessoas fossem mais humildes e ajudassem o próximo. Andam demasiado preocupadas em viver a sua vida e não olham pelos outros. Perdeu-se o conceito de sociedade e é cada um por si.
Gostava de ser mãe antes dos trinta anos. É um dos meus objectivos de vida. Seja menino ou menina é-me indiferente desde que nasça saudável.
Os tempos de faculdade foram os melhores da minha vida mas difíceis. Muitas vezes eu e os meus colegas ficávamos a estudar enquanto alunos de outros cursos iam para festas. A dificuldade do curso fez crescer o companheirismo entre nós.
Terminei o secundário com média de 17 e a primeira nota na faculdade foi um cinco, à disciplina de Economia. Os jovens não são preparados para chegar à faculdade e terem sucesso. Depois recuperei mas cheguei a pensar em desistir e a achar que não servia para advogada.
Os mochos são a minha mascote de eleição. Tenho o escritório cheio deles. Simbolizam sabedoria e discrição. Comprei dois que estão de olhos e ouvidos tapados, para simbolizarem o sigilo a que esta profissão me obriga.
Em tribunal defendia o toureiro e não o touro. Sou uma aficionada com enorme respeito pela tradição ribatejana. Tauromaquia é cultura, mas percebo que quem não tem contacto com ela não a sinta da mesma forma que eu sinto.
Não tenho paciência para o futebol mas passo horas a ver uma tourada. Respeito quem perde 90 minutos do seu tempo num estádio ou à frente da televisão. A base de tudo é o respeito.
Se recuasse no tempo não mudava nada. Tudo na nossa vida são ensinamentos. Vivi o que tinha de viver na altura certa e não seria a pessoa que hoje sou se a minha vida fosse diferente.
Já sonhei com a resolução para um caso. Acordei e escrevi num papel para não me esquecer. Levo o trabalho para casa, mais que não seja na cabeça. É difícil desligar.

“A justiça portuguesa sofre de falta de punibilidade”

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