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O escutismo é uma escola de vida que ajuda os jovens a crescer

Dia Mundial do Escutismo assinala-se a 23 de Abril.

Edição de 01.05.2019 | Sociedade

A sobrevivência dos movimentos de escuteiros numa sociedade dominada pelas novas tecnologias e onde as distracções e actividades extracurriculares são muito superiores às que existiam quando o movimento chegou a Portugal, em 1913, pode estar ameaçada. Para assinalar o Dia Mundial do Escutismo, fomos ao encontro de dois agrupamentos da região. Um representa a Associação dos Escoteiros de Portugal (AEP) e outro o Centro Nacional de Escutas (CNE). São próximos em tudo excepto na concepção. O CNE nasceu 10 anos depois da AEP como movimento idealizado pela Igreja Católica e que admite apenas jovens católicos enquanto a AEP está aberta a jovens de qualquer religião.

António Baptista é chefe do Agrupamento 542 do Entroncamento há cerca de seis anos

Um pé na natureza e um olho no telemóvel

No Entroncamento, o Agrupamento 542 do Centro Nacional de Escutas tenta diferenciar-se das outras ofertas valorizando o contacto com a natureza.

A meio da manhã de sábado de Páscoa, encontramos António Baptista reunido com um grupo de dirigentes do Agrupamento 542 dos Escuteiros do Entroncamento. Juntaram-se na sede do agrupamento para decidir como actuar num caso de indisciplina. Após a reunião, António explica a O MIRANTE que, como em qualquer organização, por vezes há miúdos que se portam mal, que têm comportamentos menos correctos quer com colegas quer com os dirigentes. Nesses casos aplicam algum tipo de punição, como proibir a participação em determinada acção, ou um “castigo” como ter que lavar a loiça do grupo. “Felizmente são raros os casos”, refere António Baptista, chefe do Agrupamento 542, que conta com 71 jovens e 17 dirigentes.
António Baptista, 50 anos, está no segundo mandato de três anos, 2019/2020 será o último ano, mas pensa recandidatar-se. É professor de educação física em Vila Nova da Barquinha, terra onde o Dia Mundial do Escutismo foi assinalado no feriado de 25 de Abril, dois dias depois do dia oficial. Em Vila Nova da Barquinha, estiveram cerca de 1.500 jovens dos diversos agrupamentos da região.
A Diocese de Santarém tem cerca de 30 agrupamentos e perto de 2.500 escuteiros. A nível nacional são cerca de 72 mil escuteiros, distribuídos por 1.030 agrupamentos. Um número que se tem mantido estável, na opinião de António Baptista, mesmo não sendo tarefa fácil angariar jovens hoje em dia.
“Há muita oferta de outras actividades, como o futebol ou a natação. É complicado para os jovens estarem nos dois lados e normalmente as competições e encontros coincidem com o fim-de-semana”, refere, apontando também como dificuldade a falta de disponibilidade dos adultos. “Todos os adultos são voluntários e é difícil prescindir de fins-de-semana e férias com a família para participar nas acções dos escuteiros. Em Inglaterra, por exemplo, os dirigentes têm direito a mais alguns dias de férias. Cá todos os dirigentes são voluntários, fazem-no por gosto, sem receber qualquer compensação”, revela-nos o chefe do agrupamento.
Os jovens podem permanecer até aos 22 anos, depois disso os que lhe tomaram o gosto acabam por ficar e tornar-se dirigentes. Foi o caso de António, que entrou para o corpo de escutas aos 12 anos e nunca mais saiu, excepto num pequeno interregno em que, por motivos profissionais, não conseguiu conciliar o escutismo com o trabalho.

É cada vez mais difícil impor regras
O escutismo tem muito a ver com o contacto com a natureza, é por aí que se tentam afirmar e diferenciar das outras ofertas. “Tentamos formar a parte intelectual, física e espiritual dos jovens”, refere o chefe, acrescentando que por vezes a tarefa é dificultada por causa do uso dos smartphones. “Deixamos que os miúdos usem os telefones num determinado tempo, com horários rígidos”, informa, acrescentando que “não se pode contrariar o uso das novas tecnologias sob pena de perder os jovens”. Mas nem tudo é mau e as novas tecnologias podem até ser aliadas dos escuteiros.
Questionámos António Baptista sobre as novas comodidades que parecem pautar os acampamentos de escuteiros. O dirigente revela-nos que há uns anos se podia acampar em qualquer lugar, mas actualmente só é permitido fazê-lo nos parques escutistas. Os grupos levam alguns mantimentos, mas tentam perceber os estabelecimentos que há por perto para se abastecerem, por exemplo, de pão fresco.
Outra das regras que é cada vez mais difícil de impor é a assistência às actividades religiosas. Os escuteiros são um movimento católico, mas há cada vez maior resistência à participação em actividades como a Eucaristia. António Baptista revela que tentam cativar os jovens a participar nas actividades religiosas sobretudo nas épocas festivas como a Páscoa e o Natal.

Grupo 66 de Benavente foi fundado em 1982 e conta actualmente com 40 elementos

Aprender a amanhar peixe e a acender uma fogueira

O Grupo 66 de Benavente, da Associação de Escoteiros de Portugal, proíbe o uso de telemóveis e continua a fazer acampamento selvagem.

De mochila às costas e lenço ao pescoço, com ar feliz a caminhar em grupo, o escoteiro pode passar a “imagem de ser um tótó”. Uma ideia errada, sem fundamento, que se foca apenas na vestimenta do “calção e da meia até ao joelho”. Mas ser escoteiro é mais do que isso. “O escoteiro faz 90 por cento das coisas que a maioria dos jovens não faz, como o rapel, canoagem, slide, dormir ao relento num acampamento onde não entram as tecnologias, luz eléctrica e onde não há casas-de-banho”, começa por introduzir Ivete Mateus.
A chefe do Grupo 66 de Benavente, da Associação de Escoteiros de Portugal (AEP), já leva 26 anos de escotismo. Ivete Mateus inscreveu-se no grupo de Benavente aos 16 anos e hoje, com 42, orgulha-se de ver aqueles que ensinou a “implementar as bases do escotismo junto das camadas mais jovens”. Como exemplo, tem Rita Medeiros, de 25 anos, sentada na cadeira ao lado. “Foi minha lobita, escoteira, exploradora, caminheira e agora é chefe de tribo”, refere.
O Grupo 66 de Benavente, fundado em 1982, continua a escrever a sua história, mas “já passou por fazes de ruptura”, uma delas recente, da qual ainda estão a recuperar, contando actualmente com cerca de quatro dezenas de elementos. O problema para a entrada de novos escoteiros está na enorme diversidade de actividades que hoje os jovens têm à disposição, e isso cria concorrência, explica Ivete Mateus.
A diferença está nos valores e nas aprendizagens: “Um grupo de escoteiros foca-se no que as outras actividades não proporcionam, ou seja, no desenvolvimento da autonomia, autodisciplina e em aprendizagens tão simples mas tão essenciais como aprender a cozinhar”. As novas tecnologias são postas de parte e os telemóveis proibidos durante as actividades. “Não entram telemóveis, se querem falar com os pais têm um momento específico para o fazer”. Custa-lhes ao início, de tão habituados que estão a terem um ecrã à frente dos olhos, mas depois habituam-se.
Hoje em dia a maior parte dos acampamentos são feitos em parques com luz eléctrica e casas-de-banho, mas a chefe de grupo garante que continuam a preferir o acampamento selvagem, geralmente feito junto a barragens. “Aí é que não entra mesmo a tecnologia. Não há luz, sem ser a da fogueira, quanto muito levam-se candeeiros a petróleo. Há que enfrentar o medo da escuridão”, brinca.
É nos acampamentos que aprendem a cozinhar em fogão de chão, a fazer a fogueira em ambiente controlado e até a fazerem a sua própria casa-de-banho, apenas com a ajuda de uma pá. Descascam os alimentos e amanham o peixe, apesar de muitos, na primeira vez, não saberem o que fazer ou por onde começar. Como têm cada vez menos autonomia, é preciso os chefes darem muito bem as directrizes e exemplificar as vezes que forem precisas. Nem sempre se consegue à primeira. “Já aconteceu um miúdo gastar uma caixa de fósforos até conseguir acender uma fogueira. Porque nunca o tinha feito”, lembra Ivete Mateus, sublinhando que as crianças e jovens são super protegidos e não chegam a adquirir em casa a autonomia necessária.

Relação estreita com a Protecção Civil
“Os escoteiros têm cada vez mais uma relação de proximidade com a Protecção Civil, dentro das áreas em que é permitido actuar e para as quais se tem competência”, refere o escoteiro chefe da tribo exploradores, Pedro Fernandes. Fazem um pouco de tudo, desde controlo de tráfego em festas, desfiles e procissões, numa parceria que estabelecem com a polícia, à recuperação de área florestal e protecção de espécies autóctones. Junto dos corpos de bombeiros, realizam, pelo menos uma vez por ano, uma nova formação de suporte básico de vida - que todos os dirigentes escoteiros possuem, diz.

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