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O programador do Festival da aldeia que é obrigado a viver na cidade
Apesar das noites sem dormir e do nervoso miudinho dos últimos preparativos, Luís Ferreira aceitou a companhia de O MIRANTE

O programador do Festival da aldeia que é obrigado a viver na cidade

Os Bons Sons de Cem Soldos são apenas uma parte da actividade de Luís Ferreira. Natural de Cem Soldos, Tomar, Luís Ferreira era designer gráfico em Lisboa e ali residia, quando se tornou o rosto do Festival Bons Sons, de que foi mentor e que arrancou há dez anos, na altura com uma periodicidade bi-anual, pela mão da associação de que era presidente. Agora, apesar de dirigir outros projectos, como o do Centro Cultural de Ílhavo, continua ligado à aldeia, aos amigos e à grande festa de Verão que a sua terra dá ao país.

Edição de 21.08.2019 | Cultura

Choveu durante a madrugada de quinta-feira, 8 de Agosto, dia de arranque do Festival Bons Sons, na aldeia de Cem Soldos, Tomar. E continuou a chuviscar até praticamente, à hora de almoço. Chuviscos esparsos. Chuva molha-tolos. O programador do evento, Luís Ferreira, não vive na aldeia que tanto exalta mas em Ílhavo e foi-se informando do que se estava a passar.
Quando O MIRANTE chegou já ele andava às voltas a verificar se estava tudo preparado. Olheiras bem visíveis, ar cansado e sinais bem disfarçados de alguma ansiedade. Cheirava a terra e a mato molhado. Os vendedores montavam as bancas, crianças entretinham-se no espaço dos jogos tradicionais.
Com a jornalista ao lado, Luís Ferreira avança pelas ruas onde circulam já algumas dezenas de famílias acabadas de chegar. Jovens com ar de “festivaleiros” só começariam a chegar depois de almoço. Os primeiros concertos estavam marcados para o início da tarde. Os principais, mais tarde ainda. Rente à noite.
Os enfeites habituais com flores de papel ainda não estão colocados para não se estragarem com a chuva. “Ficaram arrecadados por precaução. Não podemos destruir aquilo que as pessoas tiveram tanto cuidado a fazer”, explica.
Vestido descontraidamente com um pólo cinzento, calças de ganga e sapatilhas pretas, o criador e programador do festival vai cumprimentando algumas pessoas por quem passa. Alguns são espectadores habituais do festival. Conhece-os há muitos anos.
Luís Ferreira, actualmente com 35 anos, é a cara do Festival Bons Sons, de que foi mentor e que se realiza há treze anos na aldeia de Cem Soldos. Mas o festival, que apenas acolhe artistas portugueses, é da aldeia e da sua associação, o Sport Clube Operário de Cem Soldos.
Durante a volta de verificação caminha de passo estugado. Não dá ordens a ninguém e quando fala é com voz pausada. Também não perde muito tempo a ver o que se passa à sua volta, concentrado que está na tarefa de evitar qualquer falha.
Por volta das três da tarde, Luís Ferreira ainda não almoçou, nem comeu nada desde o pequeno-almoço. Cada vez chegam mais e mais pessoas, a maior parte jovens, muito jovens. Trazem consigo um copo de plástico reciclável que irão enchendo ao longo da tarde e noite.
Surpreende o olhar da jornalista e faz um comentário. “O álcool faz parte da cultura dos festivais mas aqui as pessoas têm sido sensatas no consumo e não temos tido problemas em relação a isso”, declara, enquanto refere, mais uma vez, a importância do festival para a terra. Mais tarde, na apresentação do livro sobre as dez edições do Bons Sons,
O MIRANTE ouve-o dar a entender à presidente do Agrupamento de Escolas Nuno de Santa Maria, que terá sido também pelo efeito do festival que a escola da aldeia tomou outro fôlego.
Com o relógio a contar diz que não pode perder muito mais tempo mas ainda pára para cumprimentar dois moradores que o conhecem desde criança. Também vai atendendo telefonemas. Alguns membros da organização andam à sua procura para tratar de assuntos de última hora e falam com ele. Depois desloca-se à sala de imprensa para falar com jornalistas que acabaram de chegar.
A apresentação do livro das dez edições do Festival já está com meia hora de atraso. Luís Ferreira vai cumprimentando os convidados e os ilustradores do livro que chegam. Com um exemplar na mão e sempre de sorriso aberto vai dando uns dedos de conversa. A apresentação é rápida e segue-se uma breve visita guiada ao recinto. Luís Ferreira, já com a camisola bem transpirada, vai dando as últimas entrevistas aos órgãos de comunicação social. “Só agora é que vou começar a saborear realmente o festival”, desabafa. “É que só agora, com tudo a rolar, é que me permito estar mais descansado”.

Do palco para o hospital mas só depois do espectáculo

A celebrar 13 anos e 10 edições, histórias é o que não faltam no Bons Sons. Algumas são contadas no livro “Bons Sons x10: uma aldeia em manifesto”. A obra desvenda curiosidades, momentos felizes e menos felizes e relatos inéditos sobre o que lá se passou.
Rita Nabais, responsável pela recolha de materiais para os textos, lembra um ou outro momento. “Em 2014, Sérgio Godinho desequilibrou-se e caiu do palco. Na altura conseguiu levantar-se e terminou o espectáculo mesmo cheio de dores, com nódoas negras e uma ferida mas a seguir foi para o Hospital de Tomar. Felizmente não era nada de grave”.
Um outro momento curioso do festival aconteceu no concerto de Sara Tavares. Um casal subiu ao palco e o rapaz pediu a rapariga em casamento. “Toda a gente aplaudiu e foi um momento lindíssimo e muito romântico”, diz Rita Nabais.

A fraude das pulseirinhas que ia acabando com o Bons Sons

O programador dos Bons Sons, Luís Ferreira, diz que o festival passou por vários momentos difíceis mas refere que houve um que ia mesmo acabando com tudo. Embora sem dar pormenores, menciona uma fraude com as pulseiras que são apresentadas à entrada, na ordem dos quarenta mil euros. “Felizmente a comunidade de Cem Soldos uniu-se e conseguiu-se assegurar a continuidade”.

Mais aldeia e menos pessoas em Cem Soldos no rescaldo da 10ª edição

Acabou mais uma edição do Festival Bons Sons em Tomar e o balanço é positivo; este ano a organização fixou o número de visitantes em 35 mil, menos cinco mil que o ano passado, para que o festival seja a cada ano mais aldeia e menos pessoas, dentro do possível.
Criado em 2006 por iniciativa de uma associação local liderada por Luís Ferreira, o Bons Sons tem hoje o estatuto de maior Festival de Verão de música portuguesa. Este ano passaram pelo festival cerca de meia centena de artistas e bandas do melhor da música portuguesa.

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