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Há cada vez mais pessoas a fazer cerveja em casa mas para um mercado reduzido

No Dia Internacional da Cerveja fomos conhecer a Bolina de Azambuja e a Rima de Rio Maior.

Edição de 21.08.2019 | Economia

Apesar de ter registado um crescimento no consumo de cerveja, Portugal continua longe da lista dos maiores consumidores e produtores da bebida liderada pela Alemanha. Além das marcas conhecidas, surgem cada vez mais no mercado novas cervejas feitas em pequenas fábricas, com sabores originais. São as cervejas artesanais que tentam ganhar quota de mercado e abrir o leque de opções àqueles que procuram algo mais que a tradicional “loura”. Na região há duas marcas que se têm destacado: a Bolina, de Azambuja, e a Rima, de Rio Maior. Sob pretexto do Dia Internacional da Cerveja, celebrado a 2 de Agosto,
O MIRANTE foi conhecê-las.

foto DR José Pesquinha é apreciador de cerveja artesanal e criou a Rima, inspirada em Rio Maior

Uma cerveja artesanal de Rio Maior que ainda não tem um ano de vida

Depois do serviço militar e da informação médica José Pesquinha é cervejeiro

Há oito anos José Pesquinha leu um artigo sobre como fazer cerveja em casa e a partir daí a ideia de passar à prática nunca mais o largou. Comprou o equipamento necessário e um kit com o preparado dos ingredientes e começou a inscrever-se em cursos e workshops para conseguir produzir a cerveja “all grain”, em que todo o processo está dependente da competência e criatividade de quem a fabrica.
Com cinquenta e cinco anos, depois de ter passado pelo serviço militar e de ter trabalhado como delegado de informação médica, José Pesquinha tornou-se o primeiro cervejeiro de S. João da Ribeira, em Rio Maior, de onde é natural.
A cerveja que produz foi baptizada com o nome Rima, de Rio Maior, e para rimar com o talento do poeta Ruy Belo, conterrâneo do novel fabricante. O logotipo representa as salinas do concelho. O fabrico para comercialização iniciou-se no último trimestre do ano passado.
José Pesquinha foi beber a inspiração para o produto noutros exemplos de marcas de cerveja artesanal portuguesa, que deram a conhecer ao público consumidor de cerveja estilos diversos com sabores e aromas distintos.
No dia-a-dia é ele quem produz a cerveja. Quando a Rima está presente em eventos e festivais de cerveja artesanal, a família mobiliza-se para o ajudar. Nesta fase inicial de comercialização José Pesquinha aposta num contacto personalizado para apresentação da bebida junto de possíveis locais de venda. “O conceito é novo na região e é importante sensibilizar e explicar o que é e o que envolve a cultura da cerveja artesanal, bem como a variedade de estilos de cerveja, como servir, com que degustar”, explica. A promoção passa também por um site próprio e pela presença nas redes sociais como o Facebook e o Instagram.
O cervejeiro garante que a sua cerveja tem tido boa aceitação do mercado. Em Junho uma das variantes da Rima, a Red Horse estilo Red IPA, foi distinguida com a medalha de ouro na categoria de “Other IPA”, no concurso internacional Ibeerian Awards, onde estiveram representadas mais de 300 cervejas de 13 países. Para José Pesquinha o prémio despertou a curiosidade e fez aumentar a procura embora reconheça que os hábitos de consumo de cerveja produzida em fábrica estão muito enraizados e não vão mudar de um dia para o outro.
Numa das suas cervejas, a Yellow Stork, uma Blonde Ale, utiliza mel e alecrim, ingredientes locais adquiridos na região. Nas restantes (Oatmeal Stout, Red IPA e Saison) os ingredientes utilizados, cereais, lúpulos e leveduras vêm de países como Alemanha, Inglaterra, Holanda, Bélgica, República Checa e EUA (consoante a receita).
José Pesquinha continua apostado em fazer crescer o negócio e revela que ainda este mês vai ser lançada uma nova cerveja, a Saison. Um estilo de cerveja belga, com sabores e aromas frutados e condimentados.

Portugueses bebem em média cinquenta e um litros de cerveja por ano
Portugal não faz parte da lista dos maiores produtores de cerveja mas tem registado um crescimento no consumo. Os portugueses consumiram, no ano passado, 527,6 milhões de litros, o que representa uma ligeira subida de 0,5% em relação aos 525,1 milhões de litros consumidos em 2017, segundo dados dos Cervejeiros de Portugal. A média de consumo “per capita” foi, em 2018, de 51 litros.
Em 2018 foram produzidos mais de 39 mil milhões de litros de cerveja com álcool na União Europeia (UE), o que equivale a cerca de 76 litros por habitante da UE. Dois terços da produção total provém de seis Estados-membros, com a Alemanha a liderar o ranking dos maiores produtores com uma produção de 8,3 mil milhões de litros. Segue-se o Reino Unido com uma produção de 4,5 mil milhões de litros, a Polónia (4 mil milhões de litros), Espanha (3,6 mil milhões de litros), a Holanda e a Bélgica com 2,4 mil milhões de litros cada, segundo dados do Eurostat divulgados no Dia Internacional da Cerveja.

Para Rui Bento o grande desafio é afirmar os sabores artesanais no mercado

A Bolina tenta combater sabores industriais

Rui Bento, 41 anos, é gerente e cervejeiro da Cervejeira Bolina, em Azambuja

Criada em 2013, por três amigos, a Bolina foi uma das pioneiras no país a desbravar o nicho de mercado da cerveja artesanal. José Guilherme Costa, Miguel Menezes e Maria Camila Begonha assinam-lhe o rótulo. Rui Bento é o gerente e cervejeiro da Bolina.
A Bolina começou a ser produzida em pequenas quantidades para testar a sua aceitação entre amigos e familiares. Depois cresceu, ganhou novos sabores e a sua produção é mais complexa. Mas no processo nada se faz com recurso exclusivo à maquinaria.
“Quando o malte é introduzido a uma certa temperatura para extrair os açúcares tem de se estar sempre de olho atento, para se meter o lúpulo na fervura”, explica o cervejeiro. Os três funcionários da Bolina chegam a demorar dois dias para engarrafar mil litros, servindo-se de um sistema que ainda é completamente manual.
O grande desafio continua a ser o de afirmar os sabores artesanais num mercado nacional dominado pelas gigantes do ramo, a Unicer e a Sociedade Central de Cervejas. A Bolina garante para já distribuição em bares e restaurantes em várias localidades do país e ilhas e está presente nas montras de alguns hipermercados, como o Auchan e o Lidl.
“A nossa produção atinge em média os 72 mil litros anuais. Para conseguirmos estar em mais prateleiras precisamos de aumentar a produção e investir em tecnologia”, diz a O MIRANTE. E este vai ser seguramente o próximo passo da cervejeira de Azambuja, que vai em breve mudar-se para um espaço maior, em Marvila, Lisboa, com bar e restaurante a funcionar mesmo ao lado da produção.
Rui Bento foi polícia mas deixou a profissão para se dedicar em exclusivo à produção da cerveja artesanal, depois de ter sido desafiado pelos proprietários da Bolina. “Sou um amante desta bebida e já tive, inclusive uma marca própria. Agora que assumi o comando a 100 por cento estou responsável por criar novas receitas e melhorar as existentes. Finalmente dedico-me a fazer aquilo que gosto”, refere.
Se para a generalidade das pessoas a cerveja é uma bebida de tom amarelado, com muito gás e espuma branca, a Bolina tenta provar que pode ser muito mais do que isso.
“Uma boa cerveja não se mede pelo gás ou pela espuma farta, isso é uma ideia muito portuguesa, imposta pelas duas grandes marcas de cervejas industriais que consumimos e que são boas representantes do seu estilo, mas há outras cervejas. A Hipster Monkey, uma das cervejas produzidas pela Bolina, de estilo norte-americano (Ale), apresenta uma tonalidade dourada, médio gás (bem menos que a Sagres e a Super Bock) e tem um sabor adocicado com amargor residual”, explica.
De acordo com Rui Bento, no que respeita a aromas e corpo, “o céu é o limite” e na Bolina há novos sabores na calha. Desde cervejas envelhecidas em barrica, com anis ou canela, mosto de vinho, chocolate, madeira ou com frutas introduzidas durante a fermentação, tudo é permitido, basta ter imaginação. “Melhorar uma cerveja é como apurar um cozinhado. Se está insosso, mete-se mais sal, neste caso aumenta-se a quantidade de malte. É um jogo de cintura”, explica.
O mais difícil, conta, é conseguir os ingredientes em Portugal. Na verdade, o único ingrediente nacional é a água. O malte é importado da Bélgica e o lúpulo da Nova Zelândia, Estados Unidos da América e Inglaterra. O motivo? “Todo o malte e lúpulo (os dois ingredientes principais) produzidos no nosso país são completamente absorvidos pelas duas grandes marcas cervejeiras”, afirma o cervejeiro.
A Bolina vai a quase todos os festivais de cerveja artesanal e ter conseguido estar nas prateleiras de algumas grandes superfícies é uma forma de se promover, mas a quota de mercado é muito pequena. “Isto é também consequência de Portugal ter sido um dos últimos países da Europa a apostar na produção artesanal. Mas se por um lado chegamos tarde, por outro já não cometemos erros que outros cometeram no passado”, sublinha.

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