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O vereador mais novo do país está na Câmara de Rio Maior
Miguel santos assume-se conservador mas não retrógrado

O vereador mais novo do país está na Câmara de Rio Maior

Miguel Santos tinha 21 anos e seis meses quando, em Outubro de 2017, tomou posse no executivo municipal mas não está na política em exclusividade. Aos 18 anos tornou-se sócio e administrador de uma empresa familiar e, paralelamente, foi tirar uma licenciatura em Gestão. Gosta de política mas não quer ser dependente dela. Admite que faltam causas à juventude e exorta as novas gerações a mobilizarem-se contra a corrupção e as elites que se vão perpetuando no poder. Uma entrevista a propósito do Dia Internacional da Juventude, que se assinala a 12 de Agosto.

Edição de 21.08.2019 | Entrevista

O

ainda curto percurso de vida de Miguel Santos não encaixa no estereótipo de um jovem de 23 anos. Aos 18 anos pegou nas rédeas da empresa familiar de produtos alimentares - do ramo da padaria, pastelaria e ultracongelados - juntamente com um irmão e outro sócio também jovem. O objectivo era recuperar a empresa da crise em que a firma imergira, o que tem sido conseguido.

“Foi tão difícil começar na empresa como quando entrei na câmara, porque fui trabalhar com pessoas muito mais velhas do que eu, com mais 20 ou 30 anos. Tive que conquistá-las com o meu trabalho, porque dar uma ordem a uma pessoa muito mais velha é difícil e muitas vezes mal aceite”, reconhece.

Ao mesmo tempo que entrava na maioridade ingressou na licenciatura em Gestão pelo Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Lisboa, que entretanto concluiu. E aos 21 anos e seis meses, em Outubro de 2017, tomou posse como vereador da Câmara Municipal de Rio Maior. O mais jovem do país neste mandato autárquico, segundo afiança.

Miguel Santos sabe o que é ter, desde muito cedo, o peso da responsabilidade em cima e acha natural que os mais velhos olhem com alguma desconfiança para um decisor tão jovem. Diz que é a trabalhar que prova o que vale. Levanta-se todos os dias às 06h50 e, apesar dos afazeres autárquicos como vereador a tempo inteiro com uma série de pelouros, passa todos os dias pela empresa.

Nasceu a 19 de Abril de 1996 e é natural de Rio Maior. Jogou futebol no Núcleo Sportinguista de Rio Maior quando era um miúdo gordinho, mas passava mais tempo no banco de suplentes que aos pontapés na bola. Vive sozinho em casa própria, tem namorada e confessa que não lhe sobram muitos tempos livres, o que o leva a questionar-se por vezes se não estará a passar ao lado da sua juventude.

Tem um discurso fluido e assertivo e não hesita em criticar os jovens que fazem da política profissão sem terem passado pelo mercado de trabalho, afirmando-se como um adepto da meritocracia. Considera-se um político “livre”, porque no dia em que sair da política tem à sua espera um dia de trabalho normal na sua empresa.

A ligação à política e ao CDS veio pelo lado paterno. O pai foi um dos fundadores da Juventude Popular nas Caldas da Rainha, de onde é natural. Miguel assume-se como conservador mas não retrógrado em relação aos costumes. Por isso concorda com o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas discorda da legalização das chamadas drogas leves, embora admita o uso de certas substâncias para fins terapêuticos.

Já se habituou a usar fato e gravata?

Quando comecei na empresa tive de adoptar um estilo e uma postura a que não estava habituado. Estudava em paralelo com as funções de administração da empresa e costumava dizer que o meu carro era um roupeiro. Para as aulas ia vestido normalmente, com sapatilhas, e no carro levava sempre um fato e gravata para trocar, porque tinha regularmente reuniões com clientes em Lisboa e sempre que isso acontecia lá ia mudar de roupa.

Sente-se à vontade a discursar em público?

Muito à vontade. Tenho professores e professoras com quem trabalho enquanto vereador e é curioso que grande parte deles diz-me que já sabia que eu ia ser político, pois já tinha essa capacidade de falar em público. Neste momento estou completamente habituado e gosto muito de falar para a minha gente.

Já sentiu desconfiança por parte de munícipes ou outros interlocutores devido à sua idade?

Senti alguma desconfiança de boa parte dos interlocutores. Mas, em tom de graça, costumo dizer que com um fato vestido, e porque o trabalho também me tem envelhecido, pareço mais velho que a idade que tenho. E como não a perguntam também não a revelo.

Há casos de jovens que entram na vida política e fazem disso carreira profissional, sem terem qualquer experiência no mercado de trabalho. O que pensa disso?

Vejo isso com péssimos olhos. E se pudesse aconselhar algum jovem sobre esse percurso de vida, dizia-lhe logo que não o fizesse. Acho que devemos ter a nossa vida profissional em paralelo com a política, se possível, ou então em suspenso até sairmos da política, mas nunca devemos deixar de ter o nosso caminho e os nossos objectivos para além dela.

Para além disso, os políticos também gostam de se eternizar nessas funções e nesse meio.

Uma das grandes dificuldades dos políticos é não saberem a altura em que devem sair. Naturalmente, devemos ter alguma vocação para ser político, mas também devemos saber qual é a altura certa para sair.

Por falar nisso, a presidente da Câmara de Rio Maior, Isaura Morais (PSD), está de saída do cargo, para se candidatar a deputada. Foi a altura certa para sair?

Acho que sim. Este seria o último mandato e vejo com muitos bons olhos que possa representar o distrito de Santarém e o país na Assembleia da República, depois de ter deixado esta cidade e este concelho melhores do que os encontrou.

Vai votar nela nas Legislativas?

Não, porque não é do meu partido, o CDS. Vou votar na minha candidata, Patrícia Fonseca, mas fico satisfeito por saber que vamos ter no Parlamento a voz de uma mulher do poder local e das poucas que perceberá quais são as dores dos autarcas do país. Como amigo da Isaura, vejo com alguma pena a sua saída. Por outro lado, gostaria que a minha candidata Patrícia Fonseca fosse novamente eleita, pois é uma voz forte na defesa da agricultura e dos agricultores.

É autarca e empresário. Sobra tempo para viver a juventude? Tem passatempos daqueles que nunca se largam?

Essa é a pergunta que me faço muitas vezes: será que estou a viver a minha juventude? Estou a vivê-la à medida que é possível e estou muito satisfeito com o meu percurso, embora entre política e empresa sobre muito pouco tempo. Algumas coisas ficaram para trás mas ganhei muitas outras e neste momento tenho uma postura de tentar puxar pela nossa juventude, que parece tão adormecida, para que se torne mais dinâmica e empreendedora.

Gosta de música? Vai a festivais de Verão?

Só fui a um festival de Verão, o Sudoeste, quando tinha 17 anos. Aos 18 anos comecei a trabalhar na empresa e a palavra férias deixou de existir. Por vezes tiro quatro dias para ir até ao Algarve e mesmo assim tenho que vir cá acima porque há alguma coisa para resolver.

A imagem estereotipada que existe hoje é que os jovens estão cada vez menos vocacionados para o trabalho e demasiado agarrados às ferramentas tecnológicas como telemóveis e tablets. É uma ideia errada?

Antes de tudo, é uma ideia que me assusta. Mas os jovens agarrados às tecnologias podem ter por essa via uma oportunidade de singrarem na vida, de serem empreendedores. É verdade que os jovens começam a adquirir experiência de trabalho cada vez mais tarde, o que acho prejudicial. Isso abre um campo de acção muito grande para que continuem sempre os mesmos, nomeadamente na política, e para se manterem os mesmos vícios. Isso é péssimo.

“O governo vende mentiras aos jovens”

Faltam causas mobilizadoras à juventude?

Acredito que sim, olhando para outras gerações e para a história dos nossos avós e pais. A juventude deles foi muito mais difícil do que a nossa, mas também acho que tudo isto é cíclico. Há uma história que marcou a minha vida, quando ouço o meu pai dizer que quando criou a empresa tinha pouco mais do que as roupas que tinha vestidas. E tornou-se um grande homem. Hoje as coisas não são assim, porque há mais facilidades. Mas quando agarrei na empresa também passei dificuldades e muitas noites sem dormir para conseguir colocar as coisas no caminho certo.

Quais deviam ser as causas mobilizadoras das gerações mais novas?

Vou mais para o campo moral. A luta dos nossos jovens devia ser contra a corrupção, contra os lóbis e isso só é possível com uma postura activa na vida cívica, na vida pública. Costumo dizer que tenho um defeito muito grande, porque sou empresário e sou político ao mesmo tempo. E olho para o final de cada mês e digo mal dos políticos na pele de empresário. Para mim, isso é corrupção.

Porquê?

Porque temos um Governo que vende todos os dias que os jovens têm que ser empreendedores e que lhes dá as ferramentas para poderem sê-lo. Posso contar na primeira pessoa que fiz, com o meu sócio, um projecto a fundos comunitários. Submetemos o projecto, que demorou mais de um ano a ser aprovado. E quando finalmente foi aprovado disseram-nos que não havia cabimentação orçamental. Se tivesse ficado à espera desse projecto para avançar tinha a minha vida hipotecada. O Governo vende mentiras aos nossos jovens. Há muita propaganda e pouca execução.

Desde que assumiu as funções de vereador a sua opinião mudou muito em relação à política e aos políticos?

Mudou. Admiro quem está na vida pública porque acha que pode melhorar alguma coisa e estou muito desiludido com muitos que estão na vida pública para se servirem. Digo sempre que as pessoas são dos cargos e os cargos não são das pessoas. É isto que alguns políticos têm muita dificuldade em entender.

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