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Vereador do PSD de Azambuja diz que é um verbo de encher no executivo
Rui Corça defende uma Azambuja mais moderna com melhor habitação e emprego

Vereador do PSD de Azambuja diz que é um verbo de encher no executivo

Rui Corça diz que na terra os favores cobram-se e há dirigentes políticos a cobrá-los. Regressou à política depois de 20 anos de afastamento e diz ter encontrado um concelho parado no tempo pela gestão socialista. Em entrevista a O MIRANTE, Rui Corça deixa fortes críticas ao executivo PS e confessa estar desapontado com o cargo de vereador da oposição, que diz não ser mais do que o de um fiscalizador.

Edição de 11.09.2019 | Entrevista

Rui Corça está a cumprir o primeiro mandato como vereador da oposição na Câmara de Azambuja desde 2017. É uma das vozes mais críticas da estratégia da maioria socialista e considera que existe uma mecânica de longos anos que faz com que os actores políticos do Partido Socialista “raciocinem pouco” sobre os problemas do concelho. Não sabe se está disponível para quebrar essa mecânica nas próximas eleições autárquicas, porque “fazer serviço cívico tem um prazo”, e retira tempo à vertente profissional e familiar. Mas ressalva que ainda é prematuro falar-se no assunto.
Do que tem certezas, anunciou, é que se ficar por este mandato não vai satisfeito, porque não serve para o “papel de fiscalizador”, que é como classifica o cargo de vereador da oposição nessa câmara municipal de maioria absoluta socialista, que delegou competências no presidente para que tenha o poder de decidir sozinho adjudicações até quase 800 mil euros.
“A maioria das decisões que tomamos para o município são as cadeiras e as mesas que se emprestam para as festas ou pequenos apoios [financeiros]. Não quero dizer que nos sentimos inúteis, mas andamos lá perto”, critica Rui Corça, sublinhando que a informação tem de ser “tirada a ferros” e que as respostas são insatisfatórias.
Falando do poder socialista que governa Azambuja há várias décadas, Rui Corça considera que o executivo municipal gere a pensar nos votos e não nas pessoas e que se fazem obras “de uma forma desgarrada e sem um fio condutor estratégico”. Ao presidente do município, Luís de Sousa, não atribui mérito por ter conseguido reequilibrar financeiramente as contas no anterior mandato. Diz antes que “o município se recuperou enquanto o Luís de Sousa foi presidente, depois de recorrer ao apoio externo” que lhe apertou o cinto.
Por outro lado, acrescenta que o facto de a situação económica do município ser substancialmente melhor se deve a um conjunto de receitas extraordinárias provenientes de transações imobiliárias que renderam oito milhões de euros, sem que houvesse qualquer interferência da gestão municipal. “Caiu-lhes no colo”, reitera. Ainda sobre os cofres do município critica as prioridades orçamentais relativas à despesa corrente: “Custa-me aceitar que numa Feira de Maio se gaste um milhão de euros e os apoios anuais às IPSS sejam inferiores a 40 mil euros”.
Rui Corça nasceu em Azambuja há 52 anos e reside há 22 em Lisboa, onde também trabalha como gestor de empresas, mas não considera que ir ao concelho entre duas a três vezes por semana, para reuniões de câmara e encontros familiares o prejudique na proximidade com a população. Não se sente um estranho na terra que ama e assegura que pessoas vão ao seu encontro para falar dos problemas.
Estreou-se na política aos 14 anos e esteve afastado dela durante 20. Regressou porque encontrou uma “Azambuja a definhar” e entendeu que o seu “olhar exterior modera o olhar apaixonado”, mas deixa claro que nunca precisou da política para viver. “Nunca olhei para a política dessa forma nem nunca ganhei um tostão com ela. Essa não pode ser a principal motivação”, acrescenta. Depois, atira: “Na nossa terra os favores cobram-se e há dirigentes políticos a cobrá-los”.
O autarca considera que Azambuja está montada para ser socialista, destes dirigentes socialistas e que as pessoas estão coagidas para não intervirem politicamente, transformando a política num jogo que deixou de ser limpo, no qual diz não servir para carta de baralho. Com a confirmação da saída de Luís de Sousa da vida autárquica o vereador olha para a mudança como uma janela de oportunidade para o PSD, que poderá ser ou não com o Rui Corça.

A Câmara de Azambuja acaba de abrir uma excepção ao Plano Director Municipal (PDM) para a ampliação de um entreposto que prevê criar mais 300 postos de trabalho. Azambuja está a saber tirar proveito das quase duas centenas de empresas instaladas no concelho?

Quando não se tem uma estratégia de captação de empresas estamos sujeitos a ficar com aquilo que cai. Foi preciso substituir as fábricas de automóveis e optou-se pela logística como solução para ultrapassar a perda. Mas ficar por aí foi um erro. Agora estamos encurralados e com cada vez menos pessoas de Azambuja a trabalhar neste tipo de indústria porque já perceberam que o trabalho que existe é precário.

Na questão da habitação, o preço médio de venda na Lezíria do Tejo tem o seu pico em Azambuja, com o metro quadrado a custar 757 euros. Falta estratégia para criar condições de atrair mais população?

Em Azambuja o mercado imobiliário está parado há 10 anos, sem casas para vender ou alugar e as que existem têm preços exorbitantes. O concelho só se desenvolve se captar mais população, mas não se fixam pessoas sem casas. Não há uma política para gerar habitação estimulando a reconversão de casas antigas.

O incentivo à recuperação de casas antigas seria a estratégia a adoptar?

No caso de Azambuja, mesmo que requalificassem todas as casas degradadas não chegaria. A solução exige a criação de novas habitações.

O facto de o PDM estar em revisão há 18 anos tem sido um travão nessa estratégia?

Quando se tem um instrumento de gestão que não serve para nada, não há desenvolvimento, quer do ponto de vista da habitação quer do empresarial. Cada vez que alguma empresa se quer instalar lá se abre uma excepção.

Como olha para as matérias de saúde neste concelho com a chegada de duas médicas?

Olho com muita preocupação. De facto temos duas novas médicas, mas saíram três, portanto ficamos piores do que estávamos. Mais de 25 por cento dos utentes continua sem médico de família.

Ou seja, mesmo estando Azambuja às portas de Lisboa não consegue atrair médicos.

E os que vêm continuam à procura da primeira oportunidade para irem para outro sítio, porque não temos capacidade para os fixar. Se fosse presidente da câmara ia à procura deles para os convencer a vir para cá e depois criava-lhes condições para que quisessem ficar e trazer a família. Falo de fornecer-lhes habitação. É preciso discriminar positivamente para conseguir fixar pessoas, porque de outra forma não conseguimos.

Luís de Sousa diz que não aceita receber a Secundária de Azambuja nas transferências de competências por parte do Governo. Mas em 2021 não vai haver escapatória. Deveria chegar-se à frente e realizar as obras?

Essa escola é um barril de pólvora. O amianto é uma situação de perigo mas que está ao nível de outras necessidades de investimento. A instalação eléctrica rebenta pelas costuras, há infiltrações de água e não há condições para a prática desportiva. Quanto ao amianto acho que a câmara municipal se deveria chegar à frente, correndo o risco de o Estado não reembolsar. Não se percebe como o Cartaxo conseguiu milhão e meio de euros para recuperar uma escola mais recente que esta e o nosso município não conseguiu para uma que precisa de obras há 20 anos.

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