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Atleta Susana Estriga diz que o desporto de alta competição não faz bem à saúde
Miguel Arsénio, Susana Estriga e Miguel Louro

Atleta Susana Estriga diz que o desporto de alta competição não faz bem à saúde

O coração é o calcanhar de Aquiles de muitos atletas independentemente da idade. A propósito do Dia Mundial do Coração, que se assinala a 29 de Setembro, ouvimos uma treinadora, um atleta e um médico que revelam que nem sempre desporto é sinónimo de saúde. O coração de um atleta está sujeito a treinos intensos e exagerados e, por vezes, ao consumo de substâncias dopantes que podem conduzir ao enfarte.

Edição de 09.10.2019 | Sociedade

O desporto de alta competição não faz bem a ninguém. A opinião é da atleta veterana e treinadora do Sporting Clube de Abrantes, Susana Estriga, que este ano, aos 44 anos, se sagrou campeã nacional de veteranos em salto em altura.
“Os treinos são muito intensos e exagerados. Mais de 50 por cento dos atletas de alta competição tomam substâncias dopantes que não são detectadas nas análises ao sangue. O objectivo é potenciar os treinos e os resultados nas provas”, afirma Susana Estriga, sublinhando que apesar de tudo o controlo está muito mais apertado actualmente.
A atleta recorda o caso de um colega que tomou esteroides anabolizantes porque queria conquistar uma medalha. “Injectava a substância na barriga. Conseguiu conquistar o pódio mas teve um problema cardíaco, esteve internado no hospital e podia ter morrido. Conseguiu voltar a correr mas nunca mais teve o mesmo rendimento. Apesar de tudo, diz que valeu a pena tê-lo feito porque conseguiu subir a um pódio. Algo que ambicionava”, conta.
Estriga diz que quem não toma nada está em desvantagem mas defende que a saúde deve estar em primeiro lugar. A treinadora recorda que há recordes, sobretudo no atletismo, que hoje estão inacessíveis porque nos anos 70 e 80 do século passado muitos atletas tomavam substâncias dopantes.
Diz também que nas provas de veteranos há controle anti-doping mas que há igualmente formas de contornar essa fiscalização. Além disso, sublinha, é cada vez mais fácil comprar esteroides anabolizantes e outros produtos na Internet porque não existe qualquer tipo de controlo.
“Já tive atletas que tomavam creatina, que é permitida, vitaminas e magnésio para prevenir lesões. Substâncias ilegais não permito. Não vale a pena o risco só para ter um melhor rendimento. Se fizerem os treinos correctamente e tiverem cuidado com a alimentação os resultados aparecem”, revela.

O verdadeiro atleta tem que ser forte psicologicamente
Miguel Arsénio, 23 anos, vive em Almeirim e trabalha como operário numa fábrica no Ribatejo. Atleta amador de corrida de trail quer passar a viver apenas do desporto de alta competição. Para lá chegar treina seis dias por semana. Chega a fazer treinos e provas sem dormir depois de uma jornada de trabalho, sempre com o objectivo de ser o melhor.
Já correu 80 quilómetros de uma só vez e era expectável que sentisse que a sua máquina fosse diferente das restantes mas, para Miguel, todos os corações são iguais. “Há pessoas que lhes dão mais carinho do que outras, mas todos são iguais”, brinca dizendo que o coração é um músculo como outro qualquer e que precisa de trabalho para se tornar mais forte.
Revela que quando está no pico de forma pode acordar com 40 batimentos cardíacos por minuto mas que em competição chega aos 200 e reconhece que o desporto pode ser perigoso “quando não é bem orientado”.
Miguel Arsénio faz exames médicos com frequência e tem um treinador que orienta todos os passos que dá. Mesmo assim, confessa, já chegou a desmaiar em prova e depois de acordar ainda a conseguiu terminar.
“Para andar nisto temos que ser um bocadinho malucos”, diz em jeito de brincadeira. O que não leva em conta, nem em brincadeira, é tomar esteroides ou anabolizantes. “O verdadeiro atleta tem que ser muito forte psicologicamente, mais do que fisicamente”, conclui afirmando que quem recorre a esse tipo de soluções não pode ser considerado atleta.

O coração de um atleta é diferente
Se para Miguel Arsénio todos os corações são iguais, para outro Miguel, Miguel Louro, médico no Centro de Alto Rendimento em Rio Maior, também contactado por
O MIRANTE, o coração de um atleta é diferente do de uma pessoa que não pratica exercício físico.
Habituado a trabalhar com atletas que chegam a treinar três vezes por dia, refere que o coração de um atleta sofre adaptações estruturais e funcionais, que visam melhorar a função cardíaca e consequentemente o seu rendimento desportivo.
“Em alguns atletas surgem alterações com cerca de 60 quilómetros de corrida semanal enquanto outros com 100 quilómetros têm um coração perfeitamente normal”, afirma esclarecendo que estas alterações desaparecem ao fim de quatro semanas sem treinar.
O médico conhece vários atletas que deixaram a alta competição por razões cardíacas. É que, embora, aparentemente, tenham o coração saudável, podem acontecer mudanças que causem eventos de morte súbita.
“Tenho o dever de informar que a principal causa de morte entre atletas com idade inferior aos 35 anos é a miocardiopatia hipertrófica (crescimento disfuncional e irregular do coração) e, acima dos 35 anos, é o síndrome coronário agudo”, explica. Miguel Louro sugere o despiste destas patologias com a realização de electrocardiograma e prova de esforço.
Para o clínico os atletas têm uma esperança média de vida mais longa e, normalmente, um estilo de vida que conduz a melhores desempenhos, embora haja alguns que se deixam levar por más orientações.
“Quando querem evoluir rapidamente procuram soluções miraculosas como esteroides anabolizantes e é aqui que reside o problema. O uso dessas substâncias é proibido e pode conduzir ao enfarte, cancro do fígado, alopecia (queda de cabelo), atrofia testicular, impotência, infertilidade, aumento do tecido mamário, aumento do risco de lesão músculo tendinosa, risco infeccioso e alterações de humor”, elenca.

Atleta Susana Estriga diz que o desporto de alta competição não faz bem à saúde

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