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Livro de Álvaro Ribeiro faz as pazes com a guerra e homenageia combatentes
Álvaro Ribeiro vai lançar o seu livro, intitulado “O tempo de todas as incertezas”, no dia 7 de Dezembro, na Câmara de Almeirim

Livro de Álvaro Ribeiro faz as pazes com a guerra e homenageia combatentes

Ao fim de sete anos de investigação Álvaro Ribeiro escreveu um livro de 608 páginas sobre o dia-a-dia de ex-combatentes na guerra do Ultramar.

Edição de 04.12.2019 | Sociedade

Quase meio século depois de ter passado pela guerra colonial, em Moçambique, o soldado Álvaro Ribeiro, natural de Almeirim, 73 anos, tenta fazer as pazes com esse passado num livro sobre os 26 meses que viveu como combatente. A guerra marcou-o profundamente e por mais que viva nunca vai esquecer os episódios que viveu. Foram emboscadas, peripécias, sofrimento e morte.
O dia do embarque para África, a 31 de Outubro de 1969, parece que foi ontem. “Íamos a pensar que era uma aventura, que se transformou numa grande desilusão quando fomos para o mato”, começa por contar a O MIRANTE. O turbilhão de sentimentos está reflectido no título do livro de 608 páginas: “O tempo de todas as incertezas”, que é apresentado dia 7 de Dezembro, no salão nobre da Câmara de Almeirim.
Os milhares de soldados que embarcaram para o Ultramar foram números para o Estado português. Mas com esta obra, Álvaro Ribeiro faz justiça aos seus nomes, às suas vidas. Este reconhecimento resulta de sete anos de investigação. O autor teve de deslocar-se ao Porto, a Caldas da Rainha, Tancos, Lisboa, entre outros locais, para conseguir reunir documentos sobre cada um dos mais de oitocentos combatentes das três companhias que compunham o seu Batalhão.
Álvaro Ribeiro conheceu todos os camaradas de armas. Uns já não voltaram, outros morreram entretanto. Com alguns ainda mantém contacto. “São amigos para a vida”, porque os horrores da guerra têm o lado positivo de criar ligações fortes entre pessoas. Durante o tempo em que fez a recolha de elementos para o livro foram muitas as vezes que se emocionou. Quando relia os apontamentos, onde guarda os nomes dos camaradas, recordava os momentos tristes e dolorosos. “Voltar a ler estes nomes, voltar a escreve-los, custou-me muito”, desabafa. Das muitas fotografias que guarda há uma que lhe dá um misto de tristeza e revolta. É a última fotografia tirada a um camarada, que morreu numa emboscada poucos dias depois.

As revoltas da guerra e por causa dela
Uma das revoltas de Álvaro Ribeiro na guerra era ver os milicianos a cumprirem ordens superiores de quem nunca tinha estado no mato. “Como é que cumpríamos na íntegra tudo o que era determinado por quem estava nas cidades, sentado à secretária, no ar condicionado, e determinavam numa folha de papel que tínhamos que ir a determinado local”, questiona. “Se fosse hoje acho que os nossos jovens se rebelavam contra o Governo e não permitiam esta guerra sem sentido”, salienta.
As condições de higiene e a alimentação eram más. Mas era o medo e o estado de alerta permanente que mais assombravam os combatentes. O dia em que recebiam correio era o mais esperado. As cartas das namoradas, ou familiares, eram o único momento que transportava para o mundo real. “Não andávamos aos tiros todos os dias, mas o que mais me marcou foi a ansiedade de quando tínhamos de sair do aquartelamento. Eram três dias e meio a andar no meio do mato, onde só havia silêncio, estado de alerta e medo. Cada passo que se dava era terrível, com o medo de se pisar uma mina”.
Álvaro Ribeiro não aceita que ainda hoje, por incrível que pareça, exista quem ache que a guerra nas antigas colónias portuguesas não existiu. Este foi o mote para se lançar na escrita do livro. “Um dia estava no café e ouvi uma conversa entre jovens a questionarem-se sobre se teria mesmo existido a guerra colonial e se seria assim como a pintam; esta conversa ficou-me na memória e pensei que tinha de fazer alguma coisa”. O autor critica a forma como as escolas lidam com este momento da história. “A escola não fala deste assunto, ou o que fala não corresponde à verdade. Os professores não dizem aos jovens o que realmente se passou”, lamenta.
No presente revolta-se com o facto de haver ex-combatentes esquecidos. Homens que lutaram pela pátria e ganharam uma vida cheia de traumas psicológicos e sequelas físicas, que tiveram custos que assumiram por sua conta. “O Estado, ainda hoje, atribui subsídios anuais de 150 euros”, refere. Ainda assim, o autor de “O tempo de todas as incertezas” não tem dúvidas de que o país está melhor. “Hoje toda a gente tem casa, carro, claro que há focos de pobreza, mas muito por culpa do domínio das grandes empresas, e dos fracos políticos, que ainda comprometem uma economia e um país mais justo”.

Uma geração de dificuldades

Álvaro Ribeiro nasceu em 1946. Faz parte de uma geração de miúdos que iam para a escola descalços e rotos. No auge da juventude interromperam-lhes os sonhos com a guerra. O 25 de Abril veio dar esperança, mas também acabou por se revestir de alguma desilusão porque os ex-combatentes foram esquecidos pela sociedade. O autor faz parte de um grupo de pessoas habituadas a lutar pela vida, que foram convidadas a reformarem-se antecipadamente. Foram descartados quando ainda se sentiam úteis no trabalho. Álvaro trabalhou uma boa parte da vida na fábrica da Unicer, em Santarém.
Deixou o trabalho, a família, a namorada, que hoje é sua esposa, para rumar, por obrigação, a uma guerra originada por “teimosia de alguém, que afectou mais de um milhão de jovens. Alguém que, para Álvaro Ribeiro, colocava nos ombros dos jovens portugueses o peso de terem que estar na frente de uma guerra que não compreendiam. “Era o mata ou morre. Mas, após termos que matar alguém, questionávamo-nos: mas o que é que afinal andamos aqui a fazer?”.

Não queria que o meu filho fosse presidente da câmara

Álvaro Ribeiro é pai do presidente da Câmara Municipal de Almeirim, Pedro Ribeiro. Diz que não consegue ver o filho como um político e prefere antes olhá-lo como uma pessoa ligada à política, diz, entre risos. Conta que a actividade de presidente da câmara era “a última coisa que queria que ele fizesse”. O facto de ver o filho ser criticado com facilidade custa-lhe, porque ele não merece. “Já ouvi várias críticas, mas não respondo e retiro-me”, conta.
Pedro Ribeiro, garante o pai, foi um filho exemplar e um aluno excelente. “Começou muito novo nos meandros da política, arranjou uma experiência que muitos não terão”; aliás, até me espanto com o currículo dele”. Álvaro Ribeiro lamenta apenas que o presidente da câmara de Almeirim não tenha aproveitado melhor para seu proveito o tempo que passou na Universidade.

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