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Com as alterações climáticas a cultura do arroz é a primeira a morrer
Produtores de arroz são os que mais sofrem com a falta de água, defendem Valter Henriques (à esquerda) e Jorge Lino

Com as alterações climáticas a cultura do arroz é a primeira a morrer

No Ribatejo, há produtores de arroz que já tiveram de recorrer a sistemas de rega para assegurar a produção.

Edição de 11.12.2019 | Economia

Os produtores de arroz precisam de aproximadamente 15 mil metros cúbicos de água por hectare (ha) para assegurar a produtividade, o dobro do que precisam os produtores de milho e tomate. Sem esses níveis assegurados o arroz morre à sede. “Trabalha-se com o alagamento das terras e a água tem de ser reposta constantemente porque se evapora e infiltra na camada freática. Só desta forma é possível a planta fecundar e manter a temperatura ideal, que ronda os 13 graus centígrados”, afirma Valter Henriques, produtor de arroz em Benavente e Salvaterra de Magos.
No final do ciclo do arroz este ano, afirma, “foi necessário recorrer a sistemas de rega para salvar a produção”. O problema é que se a plantação estiver com pouca água, em vez de se produzir sete toneladas de arroz por hectare, o valor cai para menos de metade. A somar ao prejuízo, sem a água necessária, os “grãos quebram e nenhum industrial vai pagar por migalhas”, sublinha Valter Henriques.
Não é que o recurso a sistemas de rega não tenha acontecido antes, explica outro produtor, Jorge Lino, mas “Portugal já devia ter aprendido com os erros do passado”, ressalva. “Lembro-me de o meu pai, na fase final do ciclo - Setembro/Outubro - ter de recorrer à rega para não afectar a produção”, diz.
Mas Jorge Lino alerta que enquanto outros agricultores conseguem controlar a sua produção gota a gota, os produtores de arroz são os que menos água conseguem poupar e só podem recorrer à rega, excepcionalmente, nos últimos dois a três meses antes da colheita. “As raízes têm de estar alagadas em água ou a planta não fecunda”, explica o agricultor que produz 80 ha de arroz, no vale do Sorraia.

Barragens nos limites mínimos
Este ano as barragens atingiram um mínimo histórico de armazenamento, entre Setembro e Outubro, ficando muito aquém do que é necessário para a actividade agrícola e principalmente para a cultura do arroz. A escassez de água obrigou, em Julho passado, à construção de uma barreira de saibro, pedra e terra no rio Sorraia, na zona do Porto Alto, na freguesia de Samora Correia.
“Só desta forma conseguimos resolver a falta de água e os seus impactes ambientais são apenas positivos. Para demonstrar isso mesmo pedimos um estudo a uma empresa especializada que deverá ser divulgado no início do próximo ano”, realça Joaquim Madaleno, director executivo da Associação de Beneficiários da Lezíria Grande de Vila Franca de Xira. A represa, recorde-se, foi solicitada pela associação que representa e aprovada pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA), mas levantou polémica entre os locais e associações de defesa do ambiente.
Joaquim Madaleno considera a situação actual do Tejo muito preocupante e defende que a solução passa pela construção de uma barragem, próxima de Castelo Branco, para que se consiga armazenar água e manter o caudal do rio. O que ajuda a diminuir outros problemas como o aumento dos níveis de salinidade e poluição.
Enquanto o movimento ambientalista proTejo tem reiterado que Espanha não cumpriu os caudais definidos no ano hidrológico 2018/2019, o ministro do Ambiente, Matos Fernandes, diz que o país vizinho cumpriu o acordado na Convenção de Albufeira e realça que não há falta de água no Tejo, mas num dos seus afluentes, o Ponsul.
Do lado de cá, os produtores ribatejanos ouvidos por O MIRANTE, mostram-se apreensivos em relação à campanha do próximo ano e temem pelas consequências da escassez de água na produção. “Nas terras que hoje estão com arroz não se consegue fazer outra cultura. São terrenos alagadiços e só o arroz é que produz nessas condições”, diz Valter Henriques, que produz em 285 ha.
A Associação de Beneficiários da Lezíria Grande de Vila Franca de Xira há muito que anda empenhada na poupança de água, tendo num total de 100 mil ha de área agrícola, água canalizada em 6.500 ha, o que reduziu para metade o consumo de água. Quanto ao arroz, o responsável reconhece que é difícil reduzir os consumos, porque não é possível fazer-se um ciclo de produção - que dura 150 dias - através de sistemas de rega. Mas lembra que grande parte dessa água circula para o estuário do Tejo e pode ser reaproveitada.
Para a próxima campanha do arroz ainda não é possível prever se vai haver quebras de produção. A esperança mora, unicamente, na quantidade de chuva que ainda se espera que caia até Março de 2020.

Produtores não são tidos nem achados na definição de preços

Este ano, pela primeira vez, dizem os produtores, os industriais que lhes compram o arroz divulgaram com antecedência quanto iriam pagar por tonelada. Os preços rondaram os 300 a 350 euros por tonelada e “pela primeira vez, a produção não foi entregue sem se saber o valor que ia ser pago”, diz Jorge Lino.
Apesar da melhoria, os produtores não são tidos nem achados a definir os preços, ou, pelo menos, a tentar negociá-los. “Pertencemos a uma organização de produtores e, se vendêssemos arroz em conjunto, talvez conseguíssemos negociar a nossa margem de lucro”, refere Valter Henriques, considerando que seria difícil gerar consenso entre produtores. O que é certo é que são os que ficam com a menor margem de lucro, com a rede de distribuição a ficar no topo da cadeia económica.

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